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Fragmento de um coro

Nós

os de cinza e tempo

nós os de olhar barrado

nós os de céus ardendo

e ventos desfigurados

nós os de mito e queda

nós os de mãos atadas

ecos

desdobrando

gritos

mudos mantos desdobrados

nós silenciados muros

de desesperos caiados

nós cegos irmãos em luto

por mundos manietados

nós sonâmbulos

remotos

nós vagos

só recordados

os estáticos andantes

escuramente pisados

nós os egressos da sede

diuturnamente velada

nós o exílio de nós mesmos

viva lâmpada apagada

nós entre o infinito e o medo

esparsos

desencontrados

nós frios

de cinza e tempo

em tempo e cinza

encerrados


Bruno Tolentino


Flautim

Guardaremos juntos
os acertos, breves,
os enganos, fundos,


e aquele remoto
amparar de parcos,
altivos escolhos.


Cairão o signo
e a secreta cinza
desse ardente enigma.


Não lamentaremos
mais que o desencontro
dos humanos termos,


a rápida marca
que o passado imprime
na face, na máscara,


e os puros despojos
que às vezes são versos
e sempre são ossos.


Não diremos nada
dos velhos desejos
que a memória abraça,


sem qualquer palavra
não recordaremos
o que nos pesava,


mas apenas isso
que nos pese ainda:
ter vindo, ter sido.


Bruno Tolentino