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Conversa com Drummond

O mundo amiudou-se, Carlos!
E o nosso coração de ferro, enferrujou-se...

Creia-me, o globo agora cabe na palma da mão,
E a dor humana tornou-se inominável, meu caro...

É tudo tão paradoxo:
Cabem dez mundos em Itabira, Carlos...
Mas dois poemas e meio lotam esse mundinho.

Os homens, Carlos, andam mais apressados do que nunca...
O homem de hoje quase não dorme.
A morte de hoje não é igual à morte de ontem, meu velho!
A morte de hoje manda uma rosa, faz propaganda, se revela no Jornal Nacional...

A vida é tela, Carlos!
Ecrã, azul, ligeira,

Na palma da mão – as riquezas do rei Salomão.
Na sola dos pés – a sutileza de dez Salomés.
Na alma, o velho sentimento amargo do mundo...

As memórias, Carlos, estão guardadas num grão de silício.
A nova poesia cabe no corpo cadavérico de uma postagem no Instagram.
A religião ficou nua. A política ficou louca. O café esfriou, a verve é pouca.

O homem maduro tateia no escuro.
O homem verde padece de sede.

O mundo, meu caro Drummond, 
Serpenteia ensandecido para os braços da morte.
- O fim! O fim! O fim!
Grita um feio anjo serafim.
- É não! É não! É não!
Grita o tal secretário do Cão.

No meio do mundo tem uma cela,
Tem uma cela no meio do mundo,
Vivo preso, iracundo, se eu me chamasse Drummond,
Converteria a imagem, a pedra, o som,
Converteria tudo em poesia, livre eu seria.
E poeta também.


Radyr Gonçalves

A Mulher Nua


No ventre dourado do domingo

Os fatos se entesouram

Ninguém explica a mulher que surge

Nua, das águas quentes do mar da costeira...


Alma que anseia ser peixe

E paradoxalmente voar

Alma que anseia ser pássaro

E absurdamente ser pedra fincada no chão...


No colo quente de um domingo de sol

A verdade é um corpo moreno

Que vaga nas abas das ondas

Como um milagre singularmente bonito


Alma que anseia ser deusa

Mesmo sendo precariamente humana

Alma que anseia o sagrado

Paradoxalmente profana. 


(Radyr Gonçalves)


Mentiras e Verdades

Só os poetas mentem de forma alicerçada
Conhecem o impróprio – a nudez da nudez
A tez do lado feminino do sol, a ruptura
A gordura da palavra, o doce do verbo

Menti sobre as serpentes e os escorpiões
Sobre os galhos de novembro – e a primavera apressada
Menti pelas madrugadas afora
Menti diante de um dilúculo azul de um dia grande

Só os poetas falam a verdade de forma orquestrada
Conhecem a maçã – a queixa da Eva
O ardil do leviatã – a sonoridade de uma ave soprano
O léxico da pureza, as saias das Terezas
As certezas das Marias...

Falei a verdade quando despedi a lua em uma noite de abril
Quando dobrei a esquina filosófica do pensamento neutro
Quando derrubei os muros
Quando desfiz as malas...

Falei a verdade quando rasguei meu pacto de silêncio
Mas menti toda vez que eu morri
E eu já morri umas mil vezes ao longo da vida

(Eis aqui as feridas!).


(Radyr Gonçalves)


Poesia Silva


Essa uma poesia Silva
Sem dilema
Sem problemas cardiovasculares
Sem problemas oculares
Sem lugares para aguar

Essa é uma poesia Silva
Poderia ser Lima, mas não rima
Poderia ser poesia delicada
De Florbela Espanca
Poderia exibir o busto
As ancas
Poderia ser alva, salva
Mas é Silva e calva

Essa é uma poesia Silva
Poderia ser Oliveira
Ferreira
Teixeira
Caixeira
Pereira
Mas é uma poesia Silva

Salva pelo gongo
Bêbada, cai aos tombos
Poderia ser uma poesia relva
Uma poesia selva
Uma poesia vulva
Cheia de ressalvas
Mas é uma poesia Silva
Não é uma poesia Malva

Não é uma poesia Dalva
Não é uma poesia que sirva
Não é uma poesia que ferva
Que ame
Que clame

Não é uma poesia de inhame
Batata, trigo ou macaxeira
Não é uma poesia caveira
É uma poesia que não serve pra nada

É uma poesia perdida
Varrida
Jogada
No meio da estrada
De ida

É uma poesia Silva
Comum
Mas que cabe em todas as pessoas
Até na pessoa do seu Oshamun

Oshamun Silva
Mas cabe melhor na pessoa do seu José
Que besta não é...

E ganhou do Drummond um poema
De dilema...

Fim da Silva... Vamos para outro tema.


Radyr Gonçalves