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Tarefa

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas imutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
- do amargo e injusto e falso por mudar -
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

(Geir Campos)

Alba

Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste - o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.


Geir Campos

Pião

Quem te ensinou, pião, a simples arte
de girar e fazer do giro a vida,
vertical sobre o bico - único ponto
de teu corpo, no chão, a suportar-te?
Essa a tua verdade essencial:
como um homem cercado de mentiras,
buscas talvez em torno uma saída
que não achas; e assim debalde giras
num equilíbrio falso, que afinal
se rompe... e ao chão te entregas, todo, tonto.

(Geir Campos in Rosa dos Rumos)

Inventário

Esta epiderme há muitos muitos anos
me cobre: guarda algumas cicatrizes,
outras não lembra mais, e até mistura
uns caminhos da infância a outros de agora.

As unhas não direi que são as mesmas
com que o seio nutriz terei vincado:
são mais duras, mais feias e mais sujas
— pois nem sempre de amor e entrega foi
o chão em que plantei, colhi nem sempre.

Se os dentes não gastei, gastei meus olhos
entrevendo paisagens, vendo coisas,
cegando-me ante sésamos de sombra.

A alma apanhou demais e vai pejada,
mas vão leves as mãos cheias de nada.

Geir Campos


Cantiga de acordar mulher

Das vozes que te embalavam

A esperança de menina

Guardaste mais, de tanto repisadas

As perfumadas lições

Da nobre arte de agarrar um homem,

De como te fazeres desejada,

Amada porventura,

Tudo aprendeste: os gestos, os meneios,

A graça de sorrir e a de calar.

Hoje tens o teu homem

Disposto a desdobrar-se em pão e vinho

Para apagar a tua fome,

Por isso, que lhe hás de dar:

O trigo de tua pele ou as uvas de tua boca?

Se, sem a ponte do amor, tua lavoura é tão pouca...

Acorda: onde estão as vozes que te ensinaram a amar?


Geir Campos