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The unending gift


Um pintor nos prometeu um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti,
como outras vezes, a tristeza de
compreender que somos como um sonho.
Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei num lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo
uma coisa a mais, uma das vaidades ou
hábitos da casa; agora é ilimitada,
incessante, capaz de qualquer forma e
qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como
uma música e estará comigo até o fim.
Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal.)


Jorge Luís Borges (in Elogio de la Sombra) tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques


Os meus livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

Juan Lopez y John Ward



Les toco en suerte una epoca extraña. 
El planeta habia sido parcelado en diversos paises,cada uno provisto 
de lealtades,de queridas memorias,de un pasado sin duda heroico, 
de antiguas o recientes tradiciones,de derechos,de agravios,de una 
mitologia peculiar,de proceres de bronce,de aniversarios,de demagogos 
y de simbolos.Esa arbitraria division era favorable a las guerras. 
Lopez habia nacido en la ciudad junto al rio inmovil; 
Ward,en las afueras de la ciudad por la que camino Father Brown. 
Habia estudiado castellano para leer el Quijote. 
El otro profesaba el amor de Conrad,que le habia sido revelado en 
un aula de la calle Viamonte. 
Hubieran sido amigos,pero se vieron una sola vez cara a cara,en unas 
islas demasiado famosas,y cada uno de los dos fue Cain,y cada uno Abel. 
Los enterraron juntos .La nieve y la corrupcion los conocen. 
El hecho que refiero paso en un tiempo que no podemos entender. 

Jorge Luis Borges. 



 “Coube-lhes por sorte uma época estranha.
             O planeta tinha sido dividido em diversos países, cada um provido de lealdades, de queridas memórias, de um passado sem dúvida heróico, de direitos, de agravos, de uma mitologia peculiar, de próceres de bronze, de aniversários, de demagogos e de símbolos. Essa divisão, cara aos cartógrafos, auspiciava as guerras.
             López nascera na cidade junto do rio imóvel; Ward, nos arredores da cidade pela qual caminhou Father Brown. Estudara castelhano para ler o Quixote.
             O outro professava o amor a Conrad, que lhe fora revelado numa sala de aula da rua Viamonte.
            Talvez tenham sido amigos, mas viram-se uma única vez frente a frente, em umas ilhas muitíssimo famosas, e cada um dos dois foi Caim, e cada um, Abel.
             Foram enterrados juntos. A neve e a decomposição conhecem-nos.
            O fato que narro passou-se em um tempo que não podemos entender.” (BORGES, Jorge Luis. Juan López e John Ward. Obras Completas de Jorge Luis Borges. São Paulo: Globo, 1999. v. III. p. 560).

Nuvens (I)

Não há uma só coisa que não seja
nuvem. Assim são essas catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisa. A Odisséia, veja,
muda como o mar; há algo distinto
a cada vez que a abrimos. Seu velho
rosto já é outro, visto no espelho,
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A volumosa
nuvem que se desmancha no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
Você é nuvem, mar, esquecimento.
E é o que perdeu a cada momento.

(Jorge Luis Borges- tradução de Marcelo Tápia)

Não és os Outros

Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. E és cada solitário instante.


Jorge Luis Borges in A Moeda de Ferro
(tradução de Fernando Pinto do Amaral )

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)

São uma parte de mim, como este rosto

De têmporas e olhos já cinzentos

Que em vão vou procurando nos espelhos

E que percorro com a minha mão côncava.

Não sem alguma lógica amargura

Entendo que as palavras essenciais,

As que me exprimem, estarão nessas folhas

Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.

Mais vale assim. As vozes desses mortos

Dir-me-ão para sempre.


Jorge Luis Borges in A Rosa Profunda

Nem sequer sou poeira

Não quero ser quem sou. A avara sorte

Quis-me oferecer o século dezessete,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, dá a véspera,

A palestra do padre ou do barbeiro,

A solidão que o tempo vai deixando

E uma vaga sobrinha analfabeta.

Já sou entrado em anos. Uma página

Casual revelou-me vozes novas,

Amadis e Urganda, a perseguir-me.

Vendi as terras e comprei os livros

Que narram por inteiro essas empresas:

O Graal, que recolheu o sangue humano

Que o Filho derramou pra nos salvar,

Maomé e o seu ídolo de ouro,

Os ferros, as ameias, as bandeiras

E as operações e truques de magia.

Cavaleiros cristãos lá percorriam

Os reinos que há na terra, na vingança

Da ultrajada honra ou querendo impor

A justiça no fio de cada espada.

Queira Deus que um enviado restitua

Ao nosso tempo esse exercício nobre.

Os meus sonhos avistam-no. Senti-o

Na minha carne triste e solitária.

Seu nome ainda não sei. Mas eu, Quijano,

Serei o paladino. Serei sonho.

Nesta casa já velha há uma adarga

Antiga e uma folha de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que ao meu braço prometem a vitória.

Ao meu braço? O meu rosto (que não vi)

Não projeta uma cara em nenhum espelho.

Nem sequer sou poeira. Sou um sonho.


Jorge Luis Borges, in História da Noite

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

São os rios

Somos o tempo. Somos a famosa

parábola de Heráclito o Obscuro.

Somos a água, não o diamante duro,

a que se perde, não a que repousa.

Somos o rio e somos aquele grego

que se olha no rio. Seu semblante

muda na água do espelho mutante,

no cristal que muda como o fogo.

Somos o vão rio prefixado,

rumo a seu mar. Pela sombra cercado.

Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.

A memória não cunha sua moeda.

E no entanto há algo que se queda

e no entanto há algo que se queixa.


Jorge Luis Borges (Tradução de Pepe Escobar)


Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral