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Outono

Num dia, o sorriso do sol clareou o chão da mata
e ali onde pisara minha infância, no verde úmido – ainda,
busquei a face amiga das folhagens e as viajantes águas,
As mesmas que lavaram meu rosto e as mãos de minha mãe.
Abençoei meu tempo e as horas muitas de vida vivida
e veio a chuva, soberba em ventos, 
assoviando a véspera
do futuro de agora e logo mais. 
Sem medo ou pressa, mergulhei a nudez de meus pés
Nos veios molhados e tranquilos de verde encharcado. 
Então, bem lenta e serenamente, voltei e volteei meu rumo.
Ao regressar, ouvi das bocas que era o meu outono. 

Aline de Mello Brandão

(do livro Abaúna e outros poemas)


O nome próprio da vida


Antes que tudo se acabe
E que a Amazônia seque,
Antes que a nação da sombra
O seu lado escuro exiba
E a natureza fique
Abalada pelo homem
Que age ofendendo a terra
Que hoje, aviltando os ares
Emerge a sujar as águas
A poluir os lugares
Dantes chamados de verdes,

Antes que o globo arrebente
E o fogaréu arrebate
As cores, os constelados
Lugares da minha mente...
Antes que a desmemória
Desarrume e desaloje
Os pensamentos, os intentos
Os sentimentos por dentro,

Antes que, de vez, me cale
Antes que o viver se abale
E o Senhor da Vida fale...
Antes que todos se espantem
Que as vozes nada mais cantem
Que os ouvidos não escutem
Que os olhos não percebam
Que a língua já não fale
Que as narinas não arejem
Antes que não mais vicejem
As letras tontas na pauta
Que a palavra arquiteta...

Antes que nosso planeta
Exploda em som obscuro,
Muito antes que este muro
Na violência desabe
Forjando o pó e monturo
No que a gente come e bebe,

Muito antes de tudo isso
Que está previsto e estudado
Do triste descompromisso
Com que se tem atuado...

Se o homem ventos semeia
E a natureza despreza,
Em dobro, o revide anseia
E um mar de força e grandeza
Embebe a insensatez
Humilha com vendavais
Arrasa na muita- vez,
Com furacões ancestrais...

Antes que se rompa o dique
Das geleiras lá do Ártico
E os mares, maiores fiquem
Num desmesurado pórtico,
Antes que se incendeie
A cor de nossa bandeira
E de todas as bandeiras
E que as bocas já não bebam,

Muito antes que se quebrem
Nossos significados,
Palavras anoitecidas
Nossos dias não celebrem,
É necessário inscrever
No relâmpago que fere
O bojo da eternidade,

Onde estendo a mão pequena
Com letra de camponesa
Numa estrofe amanhecida
Erguendo, na letra acesa

O nome próprio da Vida.


Aline de Mello Brandão



Vendedor de Sonhos

Oi, vendedor, por favor,
soube que vendia sonhos:
quero uma dúzia dos bons
e, não me guarde rancor,
eu não os quero estranhos.
Sonhos belos, bem sonhados,
se for possível. Isto posto,
não quero escuro ou desgosto.

Quando eu não mais sonhar,
os sonhos encomendados,
traga-os, mas com cuidados.
Não se esqueça de embalar
como frágil, meu pedido:
não traga sonho quebrado
ou com o prazo vencido.

Meus senhor, por gentileza
trate-os com delicadeza,
serão meus últimos, veja
que eu ainda esteja
respirando a lucidez.
Caso isso não suceder,
doe todos de uma vez
a quem souber merecer.

Aline de Mello Brandão