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Sofrimento

No oceano integra-se (bem pouco)
uma pedra de sal.

Ficou o espírito, mais livre
que o corpo.

A música, muito além
do instrumento.

Da alavanca,
sua razão de ser: o impulso,

Ficou o selo, o remate
da obra.

A luz que sobrevive à estrela
e é sua coroa.

O maravilhoso. O imortal.

O que se perdeu foi pouco.

Mas era o que eu mais amava.


Henriqueta Lisboa

Expectativa


Neste instante em que espero

uma palavra decisiva,

instante em que de pés e mãos

acorrentada estou,

em que a maré montante de meu ser

se comprime no ouvido à escuta,

em que meu coração em carne viva

se expõe aos olhos dos abutres

num deserto de areia,

— o silêncio é um punhal

que por um fio se pendura

sobre meu ombro esquerdo.


E há uma eternidade

que nenhum vento sopra neste deserto!


Henriqueta Lisboa


Do supérfluo

Também as cousas participam

de nossa vida. Um livro. Uma rosa.

Um trecho musical que nos devolve

a horas inaugurais. O crepúsculo

acaso visto num país

que não sendo da terra

evoca apenas a lembrança

de outra lembrança mais longínqua.

O esboço tão-somente de um gesto

de ferina intenção. A graça

de um retalho de lua

a pervagar num reposteiro

A mesa sobre a qual me debruço

cada dia mais temerosa

de meus próprios dizeres.

Tais cousas de íntimo domínio

talvez sejam supérfluas.

No entanto

que tenho a ver contigo

se não leste o livro que li

não viste a rosa que plantei

nem contemplaste o pôr-do-sol

à hora em que o amor se foi?

Que tens a ver comigo

se dentro em ti não prevalecem

as cousas — todavia supérfluas —

do meu intransferível patrimônio?


Henriqueta Lisboa