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além deste vagar

além deste vagar, um caminho extenso,

debaixo de uma chuva que não para

meus olhos correm enquanto eu, só, penso:


- por que meu coração ainda dispara

se lembro da poética seara?


um campo em flores de versos; imenso,

desabrochado em rimas ricas,  raras 


incauto jardineiro, me convenço

de que esta chuva que cai sem dar trégua

encharcando o caminho em mais de léguas

são lágrimas do meu peito em estio


além deste vagar, meu olhar se deita

e planta um verso calmo, que se ajeita

entre a semente, o tempo e o vento frio


Marilene Ferreira de Oliveira 

- Lena Ferreira 

DEIXA QUE O DIA CORRA COMO DEVE

deixa que o dia corra como deve
não da forma que se escreve
não tão cheio de ilusões

deixa que a tarde cante os seus senões
e se a brisa fizer greve
bebe a calma longa e leve

deixa que a noite chegue e que sossegue
as prováveis aflições
cansaço e indisposições

deixa que o manto das constelações
do teu sono se encarregue
e a lua teus sonhos regue

deixa que o dia volte em outro tema
livre e, livre, sê poema;
notas leves às canções



Lena Ferreira (www.parescencias-lenaferreira.blogspot.com.br)

 

do mar


de novo, e leve na tua presença,

aspiro o aroma que me propicia

alívio ao peso da breve sentença

que a noite julgou certa para o dia


sim, visitar-te é-me recompensa

pudesse, mais que casa, far-te-ia

meu lar de espumas pois tens na despensa

conchas de esperança e de poesia


nos teus lençóis, líquidos, azulados,

sonhos cochilam por ondas ninados

depois de alimentados por teu seio


tua brisa, um beijo entre o suave e o vasto,

soprada sobre os detalhes mais castos,

deita e dispensa dizer-me a que veio



( Lena Ferreira)


De baunilha e mirto

Ao ver as mãos inertes do moinho
pôs-se a imaginar o quão bom seria
um vento liso de promessas breves
fizesse ninho em cada um dos dedos

Solicitou serviço ao senhor das horas
- que facilita o caminhar das coisas -
mandasse um sopro em seta sussurrado
em notas altas de baunilha e mirto

Envolto pelo leve aroma quixotesco
o sopro, engravidando ventanias,
beijou os nãos que assenhoram o tempo
sob um casto campo de rubras tulipas


Lena Ferreira

No Silêncio da Manhã

No silêncio da manhã que se inicia 
eu elevo o pensamento, ensolarado 
por um céu de brilho intenso azulejado 
sob as nuvens que o vento acaricia

Logo sinto responder-me a energia 
de um sol que me abraça com cuidado 
de um sol zeloso que ia preocupado 
com meu riso disfarçado de alegria

Retirando o ranço dos resmungos tristes 
embalou a sombra do que não existe 
enviando cordialmente ao passado

No silêncio da manhã, meu peito leve 
pronuncia uma oração sincera e breve: 
gratidão pelo presente renovado.


Lena Ferreira

Silenciamento


Prenuncio o precipício do que foi um terno início. E o indício mais que claro é o diálogo difícil. 
Um passo a mais e é o abismo . Um a menos, o conformismo. Um ou outro, engolindo o sentimento que, por tempos, pensei nós.
Mas...
Muitos nós alargaram os hiatos entre os sóis...e os sós.
Eu, que nasci com impulsos na ponta dos dedos e gritos na ponta da língua, surpreendentemente, sentencio-me ao silenciamento.
Deixa assim...
Se mais tempo permaneço falando e falando e gritando e gritando, insistentemente reclamando pelo que, mostra, não me pertence, certamente estarei condenando o verbo bendito a qualquer coisa mendicável, volúvel e hemorrágica , capaz de sangrar além da amenia. Deste modo, distantes os corpos e os ditos, blindado no canto esquerdo e na mente, resguardo, intactas, as memórias sonhadas vívidas por mim. 
Deixa assim...
E pra não dizer adeus, brindemos com um velho e bom Bourbon. 
(é quando esqueço alguns detalhes pra lembrar:
o meu olhar de maresia sobre o seu azul-mar 
um verso sincero na estante, escrito à batom 
e esse morno vento-nostalgia; 
o que fechará a porta atrás de mim.)

Deixa assim...
...que é pra não passarmos do tom...


Lena Ferreira – nov.13