Mostrando postagens com marcador Nuno Júdice. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nuno Júdice. Mostrar todas as postagens

Tu

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.


Nuno Júdice

Descrição de um lugar

Sou um reflexo no vidro. Olho-me
Fixamente, e o poema capta-me nesta atitude.
Pudesse eu conhecer-me como se conhece
o poema…
Deixo um retrato de mim, morto,
há um ano por esta altura. Que me aconteceu,
entretanto? De quem é este corpo
que me é estranho, pálido habitante de um movimento
indeciso e aparente? Quem sinto quando me toco,
quem me dorme, quem me pensa,
quem me escreve? O meu rosto encobre um pronome. Vivo
uma sintaxe corrupta no patamar marítimo
do mito. Quem me impede o sentimento? Quem me abre
um caminho que não sigo, condenado a outro
de mim próprio?
No entanto, estou aqui. Entre mim e o poema,
opaco a ambos, sem nada para dizer.

(Nuno Júdice)

A mão que esconde mais do que oferece



A mão que esconde mais do que oferece,
os olhos de presa dominando o caçador.
E os teus lábios que murmuram a prece
de quem só reza no instante do amor.

E se falasse dos teus olhos, dos teus braços
desse corpo em que me perco e te ganho,
não mais acabaria o que tem de acabar;

uma respiração de suspiros e de abraços
neste canto em que és tudo o que eu tenho,
nesta viagem em que não tem fundo o mar.

Nuno Júdice

Onde amanhece


Mas levo comigo tudo
o que recuso.
Sinto colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.


Nuno Júdice


Definição

Quem esquece o amor, e o dissipa, saberá
que sentimento corrompe, ou apenas se o coração
se encontra no vazio da memória? O vento
não percorre a tarde com o seu canto alucinado,
que só os loucos pressentem, para que tu
o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores
te oferece uma sombra para que lhe
fujas com um riso ágil de quem crê
na superfície da vida. Esses são alguns limites
que a natureza põe a quem resiste à convicção
da noite. O caminho está aberto, porém,
para quem se decida a reconhecê-los; e os própnos
passos encontram a direcção fácil nos sulcos
que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,
entra nesse campo; não receies o horizonte
que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto
cujos braços te chamam. Apropria-te do calor
seco dos vestíbulos. Bebe o licor
das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios
imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando
o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,
ignorando as nuvens e os astros. O amor
é esse contacto sem espaço,
o quarto fechado das sensações,
a respiração que a terra ouve
pelos ouvidos da treva.



Nuno Júdice in Um Canto na Espessura do Tempo

As casas à beira do lago

Nas casas à beira do lago, pode
pensar-se que o tempo não passa. A água reflecte
o céu parado do verão, e um grasnar
de aves ecoa até à outra margem, como se
o mundo não existisse para além das árvores
e das casas.

Nas casas à beira do lago, não se abrem
as janelas para impedir que os mosquitos entrem,
e que os sonhos saiam. Uma cadeira de balouço
insiste em ficar parada, como o céu do verão,
para que nenhum movimento atravesse
a vida que ali ficou.

Nas casas à beira do lago, contam-se
os dias que faltam para que a água se encrespe,
com o vento do outono, e não se abrem as portas
para que as sombras não fujam para os campos,
onde os ladrões as roubam, deixando sem sombra
quem vive nas casas à beira do lago.


Nuno Júdice

Rotina

Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.



Nuno Júdice

Uma Imagem

Um rosto é feito de acordo com uma ciência,
que não é exacta nem dura como a que se estuda
nas escolas. A sua forma é feita de tempo,
e nos seus traços se moldam os gestos
de que uma vida é feita. Por vezes, há palavras
que nascem da cor que o acompanha, de manhã,
quando o sol o envolve; de outras vezes,
podemos ver o silêncio que se imprime
em volta dos olhos, quando a noite deixa
marcada a sua sombra. E no rosto em que leio
a matéria da primavera, soletrando cada sílaba
com a sua música de aves despertas,
descubro a imagem que me deixaste, uma tarde,
quando as aparências se desfizeram
sobre a mesa, e as tuas mãos se tornaram
a única realidade do mundo.

Nuno Júdice

Semiologia

Digo: o amor.
Há palavras que parecem sólidas,
ao contrário de outras
que se desfazem nos dedos.
Solidão.
Ou ainda: medo.
As palavras, podemos escolhê-las,
metê-las dentro do poema
como se fosse uma caixa.
Mas não escondê-las.
Elas ficam no ar,
invisíveis,
como se não precisassem
dos sons com que as dizemos.

Nuno Júdice