¡Cuánto sabe la flor! Sabe ser blanca
cuando es jazmín, morada cuando es lirio.
Sabe abrir el capullo
sin reservar dulzuras para ella,
a la mirada o a la abeja.
Permite sonriendo
que con su alma se haga miel.
¡Cuánto sabe la flor! Sabe dejarse
coger por ti, para que tú la lleves,
ascendida, en tu pecho alguna noche.
Sabe fingir, cuando al siguiente día
la separas de ti, que no es la pena
por tu abandono lo que la marchita.
¡Cuánto sabe la flor! Sabe el silencio;
y teniendo unos labios tan hermosos
sabe callar el "¡ay!" y el "no", e ignora
la negativa y el sollozo.
¡Cuánto sabe la flor! Sabe entregarse,
dar, dar todo lo suyo al que la quiere,
sin pedir más que eso: que la quiera.
Sabe, sencillamente sabe, amor.
(Pedro Salinas)
....................
QUANTO SABE A FLOR
Quanto sabe a flor! Sabe ser branca
quando é jasmim, e roxa quando é lírio.
Sabe abrir o botão
sem reservar doçuras para si,
ao olhar ou à abelha.
Permite sorridente
que se faça mel com sua alma.
Quanto sabe a flor! Sabe deixar-se
colher por ti, para que tu a leves,
erguida, em teu peito numa noite.
Sabe fingir, quando no dia seguinte
de ti a afastas, que não é a mágoa
por tu a abandonares que a faz murchar.
Quanto sabe a flor! Sabe o silêncio;
e possuindo uns lábios tão formosos
sabe calar o «ai!» e o «não», e ignora
a negativa e o soluço.
Quanto sabe a flor! Sabe entregar-se,
dar, dar tudo o que é seu a quem a quer,
sem pedir mais que isso: que lhe queira.
Sabe, simplesmente sabe, amor.
(tradução de José Bento)
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Não te detenhas nunca
Não te detenhas nunca
quando quiseres me buscar.
Se vês muros de água,
amplas fossas de ar,
cercas de pedra ou tempo,
evita os gritos, passa.
Te espero com um ser
que não espera por outros:
onde eu te espero
só tu cabes. Ninguém
pode se encontrar
ali comigo senão
o corpo que te leva
no ar, como um milagre.
Intacto, inalienável,
um grande espaço branco,
azul, em mim, não aceita
mais que os vôos teus,
os passos de teus pés;
não verão nele
outras marcas jamais.
Se alguma vez me olhares
como preso, fechado
atrás de portas,
entre coisas alheias,
pensa nas torres altas,
nas trêmulas alturas
da árvore, firme nas raízes.
As almas das pedras
que estão embaixo servindo
aguardam na última
ponta da torre.
E ali, pássaros, nuvens,
não se enganam: deixando
que os homens e os dias
pisem embaixo,
se estão ali em cima,
no alto da árvore,
no topo da torre,
certos de que ali,
na última fronteira
de seu ser terreno
é onde se consumam
os amores alegres,
os solitários encontros
da carne e das asas.
(Pedro Salinas) - tradução de Salomão Sousa
quando quiseres me buscar.
Se vês muros de água,
amplas fossas de ar,
cercas de pedra ou tempo,
evita os gritos, passa.
Te espero com um ser
que não espera por outros:
onde eu te espero
só tu cabes. Ninguém
pode se encontrar
ali comigo senão
o corpo que te leva
no ar, como um milagre.
Intacto, inalienável,
um grande espaço branco,
azul, em mim, não aceita
mais que os vôos teus,
os passos de teus pés;
não verão nele
outras marcas jamais.
Se alguma vez me olhares
como preso, fechado
atrás de portas,
entre coisas alheias,
pensa nas torres altas,
nas trêmulas alturas
da árvore, firme nas raízes.
As almas das pedras
que estão embaixo servindo
aguardam na última
ponta da torre.
E ali, pássaros, nuvens,
não se enganam: deixando
que os homens e os dias
pisem embaixo,
se estão ali em cima,
no alto da árvore,
no topo da torre,
certos de que ali,
na última fronteira
de seu ser terreno
é onde se consumam
os amores alegres,
os solitários encontros
da carne e das asas.
(Pedro Salinas) - tradução de Salomão Sousa
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