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Fios da Vida

Benditos sejam os trapos, os retalhos 

Os papéis, tesouras e enchimentos 

As fitas, os laços, os rolos e pincéis de tinta 

Bendito o gesso, e a cola , a água rás

E as pilhas velhas de jornais 


Benditos os alfinetes e os paps 

E a trena e as linhas de algodão 

As agulhas e o dedal em minha mão 

 

Benditas sejas as fitas coloridas, as de poá 

E os botões de bichinhos, e os velcros

As sinhaninhas que eu gosto de trançar 


Também os berloques benditos 

E os fios finos e grossos 

Os vasilhames vazios e as coisas imprevistas 

Que transformo em artesanato e me recrio. 


(Cristhina Rangel)


Suspiro

Apenas hoje compreendi a luta do pássaro contra o vento 
Compreendi o valor da semente que invade o concreto e concretiza a primavera 

O valor do sorriso no porta-retrato 
O terço à cabeceira numa prece nata 
O tapete à porta dando boas vindas e a esperança que retrata

Hoje compreendi o orvalho derramando-se quieto
A areia ali daquela praia contando-me histórias 
Compreendi a linha em branco, divisória 
Dos meus suspiros inculpes 

Compreendi nas coisas miúdas e silenciosas
Quase sagradas, agregando pequenos segredos 
A estratégia para viver um pouco mais 
Quando se tem medo de perder a esperança. 

(Cristhina Rangel)


Falsa Imagem


Se te disserem que sou dura - Mentem! 
Eles não sabem desses meus colchões de nuvens 
Não sabem da mansidão com que me aconchego à tua imagem 
Eles não sabem a doçura dos meus beijos

Não sabem da minha pele em flor 
Não sabem desse amor que lhe guardo 
Se me veem fria feita estátua 
É porquê não supõem 
Que por detrás da minha face pálida 
Há uma paixão indisfarçável

E que me dissipo feito brisa 
Para alcançá-lo de forma que me sinta 
Perdida nesse vento que toca seu cabelo 
E que por desespero, ou desesperança 
Fico a remoer como criança 
Um plano mirabolante para tê-lo

E em desassossego gemo íntima e estática
Pra que não percebam os calafrios 
De amor ou quase morte que me tomam
Ou calada, quieta em meu canto repito que te amo.


Cristhina Rangel

Sobre o amor

Sabe penso que amor é uma concha sem pérola. É, no amor não dá tempo de ferir ao ponto que a mágoa se transforme numa ferida, o grão de areia dolorido, passa bem rápido e vai embora. Se não for assim não é amor.... o amor é uma concha vazia dessas onde cabe o mar, mas não cabe mágoa. O vazio de um infinito inteiro para recomeçar a jornada.

(Cristhina Rangel)