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Sim, mistérios

É verdade, vivemos com mistérios demasiado maravilhosos
                para ser entendidos.
 
Como a erva pode ser nutritiva
                na boca dos cordeiros.
Como rios e pedras estão eternamente
                em aliança com a gravidade,
                               enquanto nós sonhamos com as alturas.
Como duas mãos se tocam, e os elos que criam
                jamais serão quebrados.
Como as pessoas vêm, do encanto ou das marcas
                das feridas,
para o conforto dum poema.
 
Deixa que mantenha à distância, sempre, aqueles
                que pensam ter todas as respostas.
 
Deixa que me rodeie sempre daqueles que dizem
                “Olha!” e riem deslumbrados,
                e curvam as suas cabeças.


Mary Oliver


Wild Geese (Gansos Selvagens)

Wild Geese

You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting -
over and over announcing your place
in the family of things.
... ... ... ...

Gansos Selvagens
​
Você não tem que ser bom. 
Você não precisa andar de joelhos
e percorrer cem quilômetros de arrependimento no deserto.
Você só precisa deixar que esse animal terno que é o seu corpo 
ame o que ele ama.
Fale-me do seu desespero, fale-me dele e eu lhe falarei do meu desespero.
Enquanto isso, o mundo segue adiante.
Enquanto isso, o sol e as gotículas cristalinas de chuva
atravessam paisagens, 
pairam sobre os campos e sobre as árvores frondosas 
e sobre montanhas e rios.
Enquanto isso, gansos selvagens voam de volta para casa, 
nas alturas de um ar puro e azul.
Quem quer que você seja, não importando quão solitário esteja, 
o mundo se entrega à sua imaginação,
e o chama como chamaria os gansos selvagens, 
estridente e entusiasticamente – 
para repetidas vezes anunciar o seu lugar
na família das coisas.

Mary Oliver

A Jornada

Um dia você finalmente descobriu
o que tinha que fazer e começou,
mesmo que as vozes ao seu redor
continuassem gritando seus maus conselhos-
mesmo que a casa inteira começasse a tremer
e você sentisse aquele velho puxão
nos seus calcanhares,
“Corrija a minha vida!”
gritava cada voz.
Mas você não parou
você sabia o que tinha que fazer.

Mesmo que o vento se espreitasse
com seus dedos firmes
nos seus maiores alicerces
Mesmo que a melancolia fosse terrível
Já era tarde o suficiente a noite deserta,
a estrada cheia de galhos e pedras caídas.

Mas pouco a pouco,
assim que você deixou as vozes no
pano de fundo, as estrelas começaram a brilhar
por entre as camadas de nuvens,
e então, havia uma nova voz
a qual você lentamente
reconheceu como sua,
que fez companhia pra você
enquanto você avançava cada vez mais
profundo dentro do universo,
reservado para você,
a única coisa que você poderia fazer-
reservado a você salvar
a única vida que você poderia salvar.

Mary Oliver

Sleeping in the forest


I thought the earth
remembered me, she
took me back so tenderly, arranging
her dark skirts, her pockets
full of lichens and seeds. I slept
as never before, a stone
on the riverbed, nothing
between me and the white fire of the stars
but my thoughts, and they floated
light as moths among the branches
of the perfect trees. All night
I heard the small kingdoms breathing
around me, the insects, and the birds
who do their work in the darkness. All night
I rose and fell, as if in water, grappling
with a luminous doom. By morning
I had vanished at least a dozen times
into something better.

Mary Oliver 

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Dormir na floresta


Pensei que a terra
se lembrasse de mim, tão
carinhosamente me recebeu de novo, ajeitando
as saias escuras, com os bolsos
cheios de líquenes e sementes. Dormi
como nunca, uma pedra
no leito do rio, sem nada
entre mim e o fogo branco das estrelas
a não ser os meus pensamentos e estes flutuavam
leves como mariposas por entre os ramos
das árvores perfeitas. Ouvi
toda a noite os pequenos reinos a respirarem
à minha volta, os insectos e as aves
que trabalham na escuridão. Toda a noite
me levantei e caí, como se estivesse dentro de água, a lutar
com uma fatalidade luminosa. De manhã
tornara-me em alguma coisa melhor
umas doze vezes pelo menos.

 (tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho)

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