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Arte Poética

Faço poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes como o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
nas águas, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
registra, como o dedo segue
a linha da leitura, como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas às vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim
faço poema, às vezes.
Faço poema sempre como vivo.


Walmir Ayala

Minha morte são as coisas

A minha morte são as coisas

e não poder retê-las,

é a matéria que existe

e resiste

à minha sorte,

como as estrelas.



A minha morte é a manhã

que se estende claríssima

sem temor, é este amor

de só desesperança,

como um clamor.



A minha morte é esta voz

por que a garganta anseia

e não sabe,

ela cabe

inteira nos meus olhos

que a lágrima incendeia.



Sobretudo é

esta vontade

de chorar e ir chorando

como uma única pergunta

sem remédio:

até quando?


Walmir Ayala

Isto é tudo

As urnas estão fechadas,
os corações estão mudos,
mas o amor paira e condena —
isto é tudo.

As mãos vão entrelaçadas,
o olhar é sereno e agudo,
e o amor é mais do que as almas —
isto é tudo.

A lágrima quase aponta,
O desejo é um breve escudo,
e o amor é quase nada —
isto é tudo.

Walmir Ayala

Passeio

Passeio com meu filho pelo mundo

e é pouco para amá-lo este percurso.

Toco seus olhos de cristal escuro

e ele me vê robô, cavalo, urso.

Ele me vê raiz, me desafia,

briga e ama num elo conseqüente

com tudo o que é real, e me anuncia.


Passeio com meu filho à luz do dia,

e a luz fecunda a noite que nos une

num sonho latejante de silêncio.

Concentro-me de amá-lo como a urna

guarda a alucinação de seu perfume,

e penso, piso a terra, restituo

em dom de amar a amarga antecedência

do filho que eu não fui e que construo.

Walmir Ayala