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Inventário (II)


Avó, que pretendias
com as letras escritas,
que palavras dizias
avó, qual a mensagem
que este ouvido perdeu?
Foste tu ou fui eu
avó, quem distraiu
e o trato não cumpriu?
E se estavas calada
tu não dizias nada
ou era erro meu? 

Avó, quando morreste,
quem morreu?


Renata Pallottini  (Os Arcos da Memória, 1971)

Atira para o mar

Atira para o mar as tuas coisas
abandona os teus pais
muda de nome
esquece a pátria
parte sem bagagem
fica mudo e ensurdece
abre os teus olhos

Se o teu amor não vale tudo isso
então fica onde estás
gelado e quieto.

O amor só sabe ir de mãos vazias
e só vale se for
o único projeto.

Renata Pallotini

O Grito


Se ao menos esta dor servisse

se ela batesse nas paredes

abrisse portas

falasse

se ela cantasse e despenteasse os cabelos


se ao menos esta dor se visse

se ela saltasse fora da garganta como um grito

caísse da janela fizesse barulho

morresse


se a dor fosse um pedaço de pão duro

que a gente pudesse engolir com força

depois cuspir a saliva fora

sujar a rua os carros o espaço o outro

esse outro escuro que passa indiferente

e que não sofre tem o direito de não sofrer


se a dor fosse só a carne do dedo

que se esfrega na parede de pedra

para doer doer doer visível

doer penalizante

doer com lágrimas


se ao menos esta dor sangrasse


Renata Pallottini