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Ficaram-me as penas

O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.

(Cassiano Ricardo)

Inscrição

A vida me foi sempre
dúplice, angulosa.

É cordial quando nega
e escassa quando dá.

Pois escreveu meu nome
sobre uma onda cega.

E quando tenho fome
me oferece uma rosa...

Palavras. São as penas
do meu pássaro lírico.


Cassiano Ricardo

Imemorial

Não fui quem sou, quando nasci.
Nem sou quem sou, quando amo.
Nem quando sofro.
Porque coexisto.
Porque a angústia
é uma herança.

Só me aproximo de mim mesmo
quando fujo,
atravesso a fronteira,
ou me defendo, ou fico triste.

Ou quando sinto a rosa
secreta e quente da vergonha
subir-me à face.

O mar me bate à porta,
como um grito da origem.
Mas como descobrir
a onda imemorial que me trouxe?


Cassiano Ricardo

Fuga em azul menor

O meu rosto de terra

ficará aqui mesmo

no mar ou no horizonte.

Ficará defronte

à casa onde morei.

Mas o meu rosto azul,

O meu rosto de viagem,

esse, irá pra onde irei.



Todo o mundo físico

que gorjeia lá fora

não me procure agora.

Embarquei numa nuvem

por um vão de janela

dos meus cinco sentidos.

E que adianta a alegria

dizer que estou presente

com o meu rosto de terra

se não estou em casa?



Inútil insistência.

Cortei em mim a cauda

das formas e das cores.

(A abstração é uma forma

de se inventar a ausência)

e estou longe de mim

nesta viagem abstrata

sem horizonte e fim.



Um dia voltarei

qual pássaro marítimo,

numa tarde bem mansa

à hora do sol posto.

Então, loura criança,

Ouvirás o meu ritmo

e me perguntarás:

quem és tu, pobre ser?

Mas, eu vim de tão longe

e tão azul de rosto

que não me podes ver.



A graça de quem mora

no país da ausência

certo consiste nisto:

ficar azul de rosto

pra não poder ser visto.


Cassiano Ricardo