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Os Anéis Fatigados

Há ânsias de voltar, de amar, de não ausentar-se,
e há ânsias de morrer, combatido por duas
águas unidas que jamais hão-de istmar-se.


Há ânsias de um beijo enorme que amortalhe a Vida,
que acaba na áfrica de uma agonia ardente,
suicida!


Há ânsias de... não ter ânsias, Senhor,
a ti aponto-te com o dedo deicida:
há ânsias de não ter tido coração.


A primavera volta, volta e partirá. E Deus,
curvado em tempo, repete-se, e passa, passa
carregando a espinha dorsal do Universo.


Quando as têmporas tocam seu lúgubre tambor,
quando me dói o sonho gravado num punhal,
há ânsias de ficar plantado neste verso!

Cesar Vallejo (tradução de José Bento)

Considerando a frio, imparcialmente...


Considerando a frio, imparcialmente,
que o homem é triste, tosse e, sem embargo,
se alegra em seu peito colorido;
que a única coisa que faz é compor-se de dias;
que é lôbrego mamífero e se penteia...

Considerando
que o homem procede suavemente do trabalho
e ressoa chefe e soa subordinado;
que o diagrama do tempo
é constante diorama em suas medalhas
e, semi-abertos, seus olhos estudaram,
desde distantes tempos,
sua fórmula famélica de massa...

Compreendo sem esforço
que o homem fica, às vezes, pensando,
como querendo chorar,
e, sujeito a estender-se como objeto,
se torna bom carpinteiro, sua, mata
e depois canta, almoça, se abotoa...

Examinando, enfim,
suas contraditórias peças, sua latrina,
seu desespero, ao terminar o dia atroz, apagando-o...

Considerando também
que o homem é na verdade um animal
e, não obstante, ao voltear, me dá com sua tristeza na cabeça...

Compreendendo
que ele sabe que o quero,
que o odeio com afeto e me é, em suma, indiferente...

Considerando seus documentos gerais
e examinando com lentes aquele certificado
que prova que nasceu muito pequenino...

faço-lhe um sinal,
vem,
e lhe dou um abraço, emocionado.
Tanto faz! Emocionado... Emocionado...

Cesar Vallejo (tradução de Ferreira Gullar)

Os Arautos Negros

Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!

Golpes como do ódio de Deus; como se ante eles

a ressaca de quanto foi sofrido

se empoçara na alma... Eu nem sei!



São poucos, porém são... Abrem sulcos escuros

no rosto mais fero e no lombo mais forte.

Serão talvez os potros de bárbaros átilas;

ou os arautos negros que nos manda a Morte.



São as caídas fundas dos Cristos da alma,

de alguma fé adorável que o Destino blasfema.

Esses golpes sangrentos são as crepitações

de algum pão que na porta do forno se queima.



E o homem... Pobre... pobre! Volve os olhos, como

quando por sobre os ombros nos chama uma palmada;

volve os olhos loucos, e todo o vivido

se empoça, como charco de culpa, na mirada.



Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!


Cesar Vallejo (Tradução de Fernando Mendes Vianna)