Do supérfluo

Também as cousas participam

de nossa vida. Um livro. Uma rosa.

Um trecho musical que nos devolve

a horas inaugurais. O crepúsculo

acaso visto num país

que não sendo da terra

evoca apenas a lembrança

de outra lembrança mais longínqua.

O esboço tão-somente de um gesto

de ferina intenção. A graça

de um retalho de lua

a pervagar num reposteiro

A mesa sobre a qual me debruço

cada dia mais temerosa

de meus próprios dizeres.

Tais cousas de íntimo domínio

talvez sejam supérfluas.

No entanto

que tenho a ver contigo

se não leste o livro que li

não viste a rosa que plantei

nem contemplaste o pôr-do-sol

à hora em que o amor se foi?

Que tens a ver comigo

se dentro em ti não prevalecem

as cousas — todavia supérfluas —

do meu intransferível patrimônio?


Henriqueta Lisboa



Nenhum comentário: