Apelo

...Mas deixai-me poetar

Em nome dos que não sonham,

Dos que calçam desespero

Em percursos cotidianos,

Dos que cruzam confluências

Com pára-brisas de tédio,

Dos fugitivos, nos bares,

Dos vencidos que se amam,

Dos inocentes que esperam.

...Mas deixai-me poetar

Neste esvair sem sentido

Com palavras indomadas,

Ou com vocábulos mansos.

– Que eu cante a vida que passa

E os destinos sem destino

– Que eu cubra de redondilhas

As damas da madrugada,

E meus versos sejam potros

Onde as crianças galopem,

Lona de circo estelante

Vestindo a fome do mundo,

Valsa brisa em realejo

Na esquina dos desencontros.

Sei da lógica das máquinas,

Das avenidas neuróticas,

Do roubo das alvoradas

E dos anjos que se matam.

Sou feito de tudo e nada.

...Mas deixai-me poetar!


Paulo Bomfim