Quem me quiser maltratar

Quem me quiser maltratar
Maltrate-me agora,
Pois é tarde, e cansado
De trabalhos e penas,
Quem se defende a esta hora?

Quem me quiser renegar,
Renegue-me agora,
Porque o meu sono é tão grande
Que tudo aceito – nem sinto
Se alguém se for embora.

Quem me quiser esquecer,
Esqueça-me agora,
Que eu não lamento nem sofro,
Tonta do dia excessivo,
Tão sem força, quem chora?

(Noite imóvel, noite escura,
Forrada de sedas suaves,
Pequeno mundo sem chaves,
Quase como a sepultura.)

Cecília Meireles

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