Tristesses de la lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse;
Ainsi qu'une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d'une main distraite et légère caresse
Avant de s'endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l'azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d'opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.


Charles Baudelaire


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Tristezas da lua

Esta noite a lua sonha com mais preguiça;
Como a bela deitada em travesseiros cheios,
Antes de dormir, mão distraída e roliça,
Acaricia o leve contorno dos seios.

No dorso de cetim de avalanches suaves,
Morrendo ela se entrega a um lento gozar
E pelas visões brancas de flores e aves
Que sobem para o azul, ela passeia o olhar.

Às vezes, neste mundo, do langor da cama,
Uma furtiva lágrima ela derrama.
Avesso ao sono, um poeta da paixão

Na palma da mão colhe a lágrima clara,
Centelha de arco-íris numa opala rara,
E a põe longe do olhar do sol, no coração.

(Tradução de Jorge Pontual)

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Tristezas da lua

Hoje, a lua, a sonhar, mais pálida e mais fria,
Tem, reclinada sobre os coxins siderais,
O langor feminil de quem acaricia,
Antes de adormecer, os seios virginais.

Sobre o fofo cetim das nuvens, desmaiada,
Nos céus, passeando o olhar, vê surgirem visões,
Que argênteas, no palor da noite iluminada,
Ascendem para o azul, como alvas florações.

Quando, às vezes, na terra, amorosa e discreta,
Ela deixa cair uma gota de opala,
Uma lágrima irial, de tons de catassol,

Sobre a concha da mão, notâmbulo poeta
Toma-a, para, furtiva, ir piedoso guardá-la
Dentro do coração, escondendo-a do sol.

(Tradução de Martins Fontes)

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