O Poeta e o Poema

Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.

Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e seqüelas, funda um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço de outro,
mas o assombro de todos num caminho estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,e de ontem e de sempre),
passos,risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino,
duros pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio...

Nenhum poema
se tece de irreais tormentos.
Sempre o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.

(...)

Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.


Alphonsus de Guimaraens Filho in Nó


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