Chegou a poesia

E foi nessa idade... Chegou a poesia

Para me buscar. Não sei, não sei de onde

Saiu, de inverno ou rio.

Não sei como nem quando, não, não eram vozes,

Não eram palavras, nem silencio,

Porém desde uma rua me chamava,

Desde os ramos da noite,

De repente entre os outros,

Entre fogos violentos

Ou regressando sozinho,

Ali estava sem rosto

E me tocava.

Eu não sabia o que dizer, minha boca

Não sabia

Nomear,

Meus olhos eram cegos,

E algo golpeava em minha alma,

Febre ou asas perdidas,

E me fui fazendo só,

Decifrando

Aquela queimadura,

E escrevi a primeira linha vaga,

Vaga, sem corpo, pura

Tontice, pura sabedoria

De quem não sabe nada,

E vi de repente

O céu

Degranado e aberto,

Planetas,

Plantações palpitantes,

A sombra perfurada,

Crivada de flechas, fogo e flores,

A noite esmagadora, o universo.


E eu, mínimo ser,

Ébrio do grande vazio

Constelado,

À semelhança, à imagem

Do mistério,

Me senti parte pura

Do abismo,

Rolei com as estrelas,

Meu coração se desatou ao vento.


Neruda in Memorial de Isla Negra (Tradução de Thiago de Mello)

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