Meu filho pequeno tomou a máquina fotográfica numa tarde. Avisou que seria rápido. Após aprender onde se apertava e que deveria tomar cuidado, saiu orgulhoso de seus cílios.
Havia esquecido disso até baixar minhas fotos no computador.
Apareceram dezenas de imagens totalmente estranhas. Os botões da máquina de lavar. A hora no DVD. Os olhos pintados do boneco da sala de jantar. Os documentos da gaveta. O cantil de pedra do pássaro no pátio. Suas roupas no armário. A argola do banheiro. O ralo. Os desenhos dos tapetes.
Nenhuma pessoa por inteiro, mas fragmentos, recortes de uma revista imaginária. Criança usa lupa nos dedos. Aumenta o que enxerga enquanto os adultos diminuem.
Não reconhecia o mundo porque ele estava deslocado de seu significado. E era o meu mundo, a minha casa, por onde seguidamente andava apressado, fumegando os sapatos para cumprir um destino. Vicente fotografou a casa com o ritual de um museu, passo-a-passo, parando nas esquinas, dando nome de ruas para as mesas e capturando o vento quando ainda tem pétalas.
A sensação é que ele me abraçava devagar a partir dos objetos. Reunia a luz nos esconderijos.
Para meu filho, a casa não é funcional, é lúdica. Ele se detém em cada palavra, ao invés de resolver as frases. Com os olhos baixos de prece, com os olhos levantando pouco a pouco.
Não queria dar sentido, queria dar atenção.
Não havia um ar de superioridade, e sim de entendimento, de paz com os seus movimentos.
Ele não seleciona o que é importante, porque torna importante o que escolhe. No amor, será que somos assim?
Eu apago o que é meu, pois já me pertence. Mas pertencer é ainda uma primeira etapa, tenho que me despertencer. Encontrar minha mulher em sua própria ausência, vê-la surgir de seus hábitos menores, reencontrá-la mesmo quando não preciso, chamá-la por engano para brincar com seu nome em minha língua. Não é isso o que ansiamos? Ficar, pulsar onde há madeira e possibilidade de som. Que eu seja permanente, que ela seja definitiva.
Será que não pensamos de um modo macro, início-fim? Será que é necessário a separação para entender as pequenezas que diminuem o frio, que tornam a casa casa, a família família?
A convivência aprofunda a observação, a ponto de desejar a lembrança mais do que lembrar.
Agarrar a aldrava com a suspeita de que sua mulher realizou o mesmo movimento nos dias anteriores. Agarrar o dia anterior de sua mulher mais do que a aldrava. Tocar a mão de sua mulher mais do que a aldrava. A aldrava é ontem, anteontem, sempre.
Perceber que aquela porta da sala é sua mulher chegando com os pacotes do mercado e um grito faceiro que começa a noite. A noite só começa quando ela entra, mesmo que seja 23h.
Não é mais uma porta, é um ouvido soletrando as escadas.
Meu filho desembrulhou as peças como se fossem de novo presentes. Inaugurou a antiguidade. Fotografou os chinelos cruzados no banheiro. Fotografou o jornal em cima da mesa. Fotografou as tomadas. Fotografou os aros amarelos de sua bicicleta. As cordas do violão da irmã. O fundo da bolsa.
E, por último, fotografou meus braços em torno dos braços de sua mãe durante a sesta. Um laço firme, um nó que não se desfaz acordando. Ele descobriu de onde nasceu e deitou ao lado.
Fabrício Carpinejar
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