Não quero achar o que os outros perderam: as moedas no chão, os guarda-chuvas esquecidos nos ônibus, e a vida deixada por engano sobre o asfalto. Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não irrompesse com suas sombras e cigarras e cascatas. Quero, sonho e admiro o inédito como a noite no caracol de uma escada contudo perto das constelações se eu pudesse vê-las de outro planeta.
Não me comove o irretornável nem o tempo caído. Em jogo descoberto, crio minha emoção e à janela contemplo a noite formal e eu mesmo sou ogiva aberta aos grandes astros. O que se perdeu, vai-se embora, como os anéis separados das mãos, como a ventania se afasta das bandeiras no momento das bonanças. Sono perdido; zonas de transição que serão eternamente minhas; luz oculta em covil não me volto para achar-vos. E sempre adiante busco minha paisagem impor-se nas paliçadas alheias.
Já não necessito de ti Tenho a companhia noturna dos animais e a peste Tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio De outras galáxias, e o remorso.....
.....um dia pressenti a música estelar das pedras abandonei-me ao silêncio..... é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração não, não preciso mais de mim possuo a doença dos espaços incomensuráveis e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto deixei de estar disponível, perdoa-me se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.
Como a vida muda. Como a vida é muda. Como a vida é nula. Como a vida é nada. Como a vida é tudo. Tudo que se perde mesmo sem ter ganho. Como a vida é senha de outra vida nova que envelhece antes de romper o novo. Como a vida é outra sempre outra, outra não a que é vivida. Como a vida é vida ainda quando morte esculpida em vida. Como a vida é forte em suas algemas. Como dói a vida quando tira a veste de prata celeste. Como a vida é isto misturado àquilo. Como a vida é bela sendo uma pantera de garra quebrada. Como a vida é louca estúpida, mouca e no entanto chama a torrar-se em chama. Como a vida chora de saber que é vida e nunca nunca nunca leva a sério o homem, esse lobisomem. Como a vida ri a cada manhã de seu próprio absurdo e a cada momento dá de novo a todos uma prenda estranha. Como a vida joga de paz e de guerra povoando a terra de leis e fantasmas. Como a vida toca seu gasto realejo fazendo da valsa um puro Vivaldi. Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida em flor e formiga em seixo rolado peito desolado coração amante. E como se salva a uma só palavra escrita no sangue desde o nascimento: amor, vidamor!
A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso, não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a partir da página em branco Como escrita de poema obstinado?
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas
Como alguém que por mares desconhecidos viajou, assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria; os dias cheios estão sobre as suas mesas mas para mim a distância é puro sonho.
Penetra profundamente no meu rosto um mundo, tão desabitado talvez como uma lua; mas eles não deixam um único pensamento só, e todas as suas palavras são habitadas.
As coisas que de longe trouxe comigo parecem muito raras, comparadas com as suas —: na sua vasta pátria são feras, aqui sustém a respiração, por vergonha.
Rainer Maria Rilke in O Livro das Imagens (Tradução de Maria João Costa Pereira)