Homilia

Quem dentre vós

Dirá convictamente:

Os alquimistas morreram

- aqueles simples –

Morreram os conquistadores,

Os reis,

Os tocadores de alaúde,

Os mágicos.

Oh, engano!

A vida é eterna, irmãos.

Aquietai-vos, pois, em vossas lidas,

Louvai a deus e reparti a côdea,

O boi, vosso marido e esposa

E, sobretudo,

E mais que tudo,

A palavra sem fel.

Adélia Prado

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,

A que não se recusa a esse final convite,

Em máquinas de adeus, sem tentação de volta.


Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza,

Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:

Já de horizontes libertada, mas sozinha.


Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,

Dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.


Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas

Vão as medidas que separam os abraços,

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

“Agora és livre, se ainda recordas.”


Cecília Meireles


Anfiguri

Aquilo que eu ouso

Não é o que quero

Eu quero o repouso

Do que não espero


Não quero o que tenho

Pelo que custou

Não sei de onde venho

Sei para onde vou


Homem, sou a fera

Poeta, sou um louco

Amante, sou pai


Vida, quem me dera...

Amor, dura pouco...

Poesia, ai!...


Vinicius de Moraes


Passeio

Passeio com meu filho pelo mundo

e é pouco para amá-lo este percurso.

Toco seus olhos de cristal escuro

e ele me vê robô, cavalo, urso.

Ele me vê raiz, me desafia,

briga e ama num elo conseqüente

com tudo o que é real, e me anuncia.


Passeio com meu filho à luz do dia,

e a luz fecunda a noite que nos une

num sonho latejante de silêncio.

Concentro-me de amá-lo como a urna

guarda a alucinação de seu perfume,

e penso, piso a terra, restituo

em dom de amar a amarga antecedência

do filho que eu não fui e que construo.

Walmir Ayala

Men improve with the years


I am worn out with dreams;

A weather-worn, marble triton

Among the streams;

And all day long I look

Upon this lady's beauty

As though I had found in a book

A pictured beauty,

Pleased to have filled the eyes

Or the discerning ears,

Delighted to be but wise,

For men improve with the years;

And yet, and yet,

Is this my dream, or the truth?

O would that we had met

When I had my burning youth!

But I grow old among dreams,

A weather-worn, marble triton

Among the streams.


W. B. Yeats

Este, que um deus cruel arremessou à vida,

Marcando-o com o sinal da sua maldição,

- Este desabrochou como a erva má, nascida

Apenas para aos pés ser calcada no chão.


De motejo em motejo arrasta a alma ferida...

Sem constância no amor, dentro do coração

Sente, crespa, crescer a selva retorcida

Dos pensamentos maus, filhos da solidão.


Longos dias sem sol! noites de eterno luto!

Alma cega, perdida à toa no caminho!

Roto casco de nau, desprezado no mar!


E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;

E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!

Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!


Olavo Bilac, in Poesias


A Proibição

Tem cuidado ao amar-me.

Pelo menos, lembra-te que to proibi.

Não que restaure o meu pródigo desperdício

De alento e sangue, com teus suspiros e lágrimas,

Tornando-me para ti o que foste para mim,

Mas tão grande prazer desgasta a nossa vida duma vez.

Para evitar que teu amor por minha morte seja frustrado,

Se me amas, tem cuidado ao amar-me.


Tem cuidado ao odiar-me,

E com os excessos do triunfo na vitória,

Ou tornar-me-ei o meu próprio executor,

E do ódio com igual ódio me vingarei.

Mas tu perderás a pose do conquistador,

Se eu, a tua conquista, perecer pelo teu ódio:

Então, para evitar que, reduzido a nada, eu te diminua,

Se tu me odeias, tem cuidado ao odiar-me.


Contudo, ama-me e odeia-me também.

Assim os extremos não farão o trabalho um do outro:

Ama-me, para que possa morrer do modo mais doce;

Odeia-me, pois teu amor é excessivo para mim;

Ou deixa que ambos, eles e não eu, se corrompam

Para que, vivo, eu seja teu palco e não teu triunfo.

Então, para que o teu amor, ódio, e a mim, não destruas,

Oh, deixa-me viver, mas ama-me e odeia-me também.


John Donne, in "Poemas Eróticos"

Tradução de Helena Barbas

Dize-me, amor, como te sou querida

Dize-me, amor, como te sou querida,

Conta-me a glória do teu sonho eleito,

Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,

Arranca-me dos pântanos da vida.


Embriagada numa estranha lida,

Trago nas mãos o coração desfeito,

Mostra-me a luz, ensina-me o preceito

Que me salve e levante redimida!


Nesta negra cisterna em que me afundo,

Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,

Agonia sem fé dum moribundo,


Grito o teu nome numa sede estranha,

Como se fosse, amor, toda a frescura

Das cristalinas águas da montanha!


Florbela Espanca, in A Mensageira das Violetas

Silêncio

Assim como do fundo da música

brota uma nota

que enquanto vibra cresce e se adelgaça

até que noutra música emudece,

brota do fundo do silêncio

outro silêncio, aguda torre, espada,

e sobe e cresce e nos suspende

e enquanto sobe caem

recordações, esperanças,

as pequenas mentiras e as grandes,

e queremos gritar e na garganta

o grito se desvanece:

desembocamos no silêncio

onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz, in Liberdade sob Palavra

Tradução de Luis Pignatelli

A Partida


Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.


Vinicius de Moraes
in Poemas, sonetos e baladas

Morro do que há no mundo

Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.

Cecília Meireles


The road not taken

Two roads diverged in a yellow wood,

And sorry I could not travel both

And be one traveler, long I stood

And looked down one as far as I could

To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,

And having perhaps the better claim

Because it was grassy and wanted wear;

Though as for that, the passing there

Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay

In leaves no step had trodden black.

Oh, I marked the first for another day!

Yet knowing how way leads on to way

I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh

Somewhere ages and ages hence:

Two roads diverged in a wood, and I,

I took the one less traveled by,

And that has made all the difference.

Robert Frost

Balada das coisas sem importância

Conheço se há moscas no leite,

Conheço pela roupa o homem,

Conheço o tédio e o deleite,

Conheço a fartura e a fome,

Conheço a mulher pelo enfeite,

Conheço o princípio e o fim,

Conheço pela chama o azeite,

Conheço tudo, menos a mim.


Conheço o gibão pela gola,

Conheço o rico pelo anel,

Conheço o fiel pela sacola,

Conheço a monja pelo véu,

Conheço o porco pela tripa,

Conheço o irmão pelo latim,

Conheço o vinho pela pipa,

Conheço tudo, menos a mim.


Conheço a mula e o cavalo,

Conheço o carro e a carreta,

Conheço a galinha e o galo,

Conheço o sino e a sineta,

Conheço a flor pelo talo

Conheço Abel e Caim,

Conheço o pote e o gargalo,

Conheço tudo, menos a mim.


Ofertório


Príncipe, conheço tudo em suma,

Conheço o branco e o carmim,

E a morte que o fim consuma.

Conheço tudo, menos a mim.


François Villon (tradução de Ferreira Gullar)


Considerando a frio, imparcialmente...


Considerando a frio, imparcialmente,
que o homem é triste, tosse e, sem embargo,
se alegra em seu peito colorido;
que a única coisa que faz é compor-se de dias;
que é lôbrego mamífero e se penteia...

Considerando
que o homem procede suavemente do trabalho
e ressoa chefe e soa subordinado;
que o diagrama do tempo
é constante diorama em suas medalhas
e, semi-abertos, seus olhos estudaram,
desde distantes tempos,
sua fórmula famélica de massa...

Compreendo sem esforço
que o homem fica, às vezes, pensando,
como querendo chorar,
e, sujeito a estender-se como objeto,
se torna bom carpinteiro, sua, mata
e depois canta, almoça, se abotoa...

Examinando, enfim,
suas contraditórias peças, sua latrina,
seu desespero, ao terminar o dia atroz, apagando-o...

Considerando também
que o homem é na verdade um animal
e, não obstante, ao voltear, me dá com sua tristeza na cabeça...

Compreendendo
que ele sabe que o quero,
que o odeio com afeto e me é, em suma, indiferente...

Considerando seus documentos gerais
e examinando com lentes aquele certificado
que prova que nasceu muito pequenino...

faço-lhe um sinal,
vem,
e lhe dou um abraço, emocionado.
Tanto faz! Emocionado... Emocionado...

Cesar Vallejo (tradução de Ferreira Gullar)

Não dá mais pra segurar (Explode Coração)


Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder

O que não dá mais pra ocultar e eu não posso mais calar

Já que o brilho desse olhar foi traidor

E entregou o que você tentou conter

O que você não quis desabafar e me cortou

Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar

E se perder e se achar e tudo aquilo que é viver

Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim

Como se fosse o sol desvirginando a madrugada

Quero sentir a dor desta manhã

Nascendo, rompendo, rasgando

tomando meu corpo e então eu

Chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando

Feito louco, alucinado e criança

Sentindo o meu amor se derramando

Não dá mais pra segurar,

Explode coração

Luis Gonzaga do Nascimento Junior (Gonzaguinha)

Mozart no céu

No dia 5 de dezembro de 1791

Wolfgang Amadeus Mozart entrou no céu,

como um artista de circo,

fazendo piruetas extraordinárias

sobre um mirabolante cavalo branco.

Os anjinhos atônitos diziam:

Que foi? Que não foi?

Melodias jamais ouvidas voavam

nas linhas suplementares superiores da pauta.

Um momento se suspendeu à contemplação inefável.

A Virgem beijou-o na testa

E desde então

Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.

Manuel Bandeira in Lira dos cinquent'anos

O Único Mistério do Universo

O único mistério do Universo é o mais e não o menos.

Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.

O que existe transcende para mim o que julgo que existe.

A Realidade é apenas real e não pensada.

Alberto Caeiro in Poemas Inconjuntos

Soneto

Amada filha, é já chegado o dia,
em que a luz da razão, qual tocha acesa,
vem conduzir a simples natureza:
- é hoje que o teu mundo principia.

A mão, que te gerou, teus passos guia;
despreza ofertas de uma vã beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do Filho de Maria.

Estampa na tua alma a Caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes,
são eternos preceitos da Verdade.

Tudo o mais são idéias delirantes;
procura ser feliz na Eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.

Bárbara Heliodora

A Terra

Indiozinho, se estás cansado
Tu te recostas sobre a Terra,
fazes igual se estás alegre,
vai, filho meu, brinca com ela...

Que de coisas maravilhosas
soa o tambor índio da Terra:
se ouve o fogo que sobe e desce
buscando o céu, e não sossega.
Roda e roda, se ouvem os rios
em cascatas que não se contam.
Se ouve mugir os animais;
comer o machado a selva.
Ouve-se soar teares índios.
Se ouvem trilhos e se ouvem festas.

Aonde o índio está chamando,
o tambor índio lhe contesta,
e tange perto e tange longe,
como o que foge e que regressa...

Tudo toma, tudo carrega
o corpo sagrado da Terra:
o que caminha, o que adormece,
o que se diverte e o que pena;
os vivos e também os mortos
leva o tambor índio da Terra.

Quando eu morrer, não chores, filho:
peito a peito junta-te a ela
e se dominas o teu fôlego
como quem tudo ou nada seja,
tu ouvirás subir seu braço
que me jungia e que me entrega
e a mãe que estava quebrantada
tu a verás tornar inteira.

Gabriela Mistral (Tradução de José Jeronymo Rivera)

IX

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro