Na trilha


Fiz minha trilha
de cacos de estrelas
machuquei os pés
sangrei desenhos
de rosas vermelhas
ah, andei de joelhos
dos cortes profundos
salpiquei de gotas
espessas, meu rumo

bati com força
socos e pisadas
afundei pedaços
na terra queimada
oh, dancei no fogo
em plena madrugada
amei com intensidade
cheia de graça

e fui amada

Iluminei caminhos
com raios de lua
não busquei o sol
preferi penumbra
é, colar estrelas
trabalho tão duro
esvaziei a alma
dos tons escuros

e continuei ao léu

Cheguei ao fim
olhei pra trás
vi no chão o rito
ah, querer bem mais
e eu disse sim
falsifiquei meus ais
é, busquei a paz
e recebi os astros
nas minhas mãos
inteiros

redesenhei as rotas
desativei os freios
ah, nave ainda torta
alinhei desejos
e avancei sem medo

Dhênova

Balança



No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

(Eugénio de Andrade)

Vem comigo

vem comigo
ver as pirâmides fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas

iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforma e morre
e já não nos pertence

vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel

vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu


(Al Berto)


Eu-Mulher

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.


(Conceição Evaristo)

Travel

Loving you, flesh to flesh, I often thought
Of travelling penniless to some mud throne
Where a master might instruct me how to plot
My life away from pain, to love alone
In the bruiseless embrace of stone and lake.

Lost in the fields of your hair I was never lost
Enough to lose a way I had to take;
Breathless beside your body I could not exhaust
The will that forbid me contract, vow,
Or promise, and often while you slept
I looked in awe beyond your beauty.

Now
I know why many men have stopped and wept
Half-way between the loves they leave and seek,
And wondered if travel leads them anywhere–
Horizons keep the soft line of your cheek,
The windy sky’s a locket for your hair.


(Leonard Cohen)



História Antiga

No meu grande otimismo de inocente
Eu nunca soube por que foi... Um dia,
Ela me olhou indiferentemente;
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

Desde então, transformou-se, de repente,
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa...

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...

(Raul de Leoni)

Wild Geese (Gansos Selvagens)

Wild Geese

You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting -
over and over announcing your place
in the family of things.
... ... ... ...

Gansos Selvagens

Você não tem que ser bom. 
Você não precisa andar de joelhos
e percorrer cem quilômetros de arrependimento no deserto.
Você só precisa deixar que esse animal terno que é o seu corpo 
ame o que ele ama.
Fale-me do seu desespero, fale-me dele e eu lhe falarei do meu desespero.
Enquanto isso, o mundo segue adiante.
Enquanto isso, o sol e as gotículas cristalinas de chuva
atravessam paisagens, 
pairam sobre os campos e sobre as árvores frondosas 
e sobre montanhas e rios.
Enquanto isso, gansos selvagens voam de volta para casa, 
nas alturas de um ar puro e azul.
Quem quer que você seja, não importando quão solitário esteja, 
o mundo se entrega à sua imaginação,
e o chama como chamaria os gansos selvagens, 
estridente e entusiasticamente – 
para repetidas vezes anunciar o seu lugar
na família das coisas.

Mary Oliver

como um espaço desabitado

como um espaço desabitado
o corpo faz-se no inventário de silêncios 

se eu conto árvores e o frio 
para me ocuparem a voz
há muito tempo que as palavras 
são a incómoda sensação de vazio

(Maria Sousa)

Rima


obrigado por me receber sem me julgar ou desmerecer 
obrigado por me poemar só com palavras  feitas para o sim 
obrigado por aceitar meu sim no coito do meu não 
e quando digo não é para aceitar a contradição 
a contraluz que raciocina com o meu coração 
obrigado pelo que me ensina esses teus dizeres 
versos de explosão como convém à carícia 
e quando me avisa já perdi o salto 
estou do outro lado que você me vê 
do lado contrário aí bem ao seu lado 
longe de você 
e quando disparo todo o arsenal 
do bem e do mal você sorri e canta 
e tua palavra então me sustenta em ti 
só para ouvir tua delicadeza 
que ventura mil dizer o que sentiu 
essa tua surpresa 
chega em poesia do jeito que ferve 
quando me escreve é tanta entranha 
teu poço me serve o que me reserva 
o sabor da seiva escorre da pétala 
flor tão generosa em doar-se apenas 
dar-se assim tão plena sem pensar ou pena 
sem pesar nem tema que te amar é risco 
gravado no ritmo do teu coração 
e te amar convicto de que não há desperdício 
quando o amor é riso e ri tão cruel 
uma face afia o tom do mel e a outra fia o dom de fel 
amacia a máscara de doer a ternura no calor do grito 
rompe com o granito no fio da ventania 
e teu encantamento me dispara o tempo e faz para sempre 
a infinita dor arder até provocar 
o som que tremeu depois de esmagar 
a sombra com algemas de medo 
e todo o teu segredo é poder sorrir 
mesmo quando estou bem longe de ti 
assim como um barco 
que o cais profana 
nada o detém 
a não ser a sina insana de te amar 
a sede incandescente de sorver teu colo 
a lua que devora o grão de teu ódio 
o grão debulhado de tua memória 
e que o poema traduz como se fosse rima 
de amanhecer com abraço 
de perdão com silêncio 
de barulho de trem como se pudesse 
abafar 
a longa agonia da viagem 
com saudade 

(Geraldo Maia)


VII

Lembra-te que há um querer doloroso
e de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Não caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Porque me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?


(Hilda Hilst)

O vento

O vento é um pedaço de oxigênio disfarçado de fantasma,
 que vagueia a assobiar uma canção que nunca passa de moda. 

(Alejandra Pizarnik)


A parede branco-gelo

A parede branco-gelo 
Indica a temperatura externa.
É tão inverno quanto sou.
Se, nesta parede fria, um quadro eu fosse
De moldura externa seria árvore seca:
Galhos sem flor, folha, fruto e cor
De arte interna seria neve branca:
Tinta-luz sem vestígios, pedágios, caminhos e amor

(Gustavo Abud Priedols)


Incompletude

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

(Manoel de Barros)

Suspiro

Apenas hoje compreendi a luta do pássaro contra o vento 
Compreendi o valor da semente que invade o concreto e concretiza a primavera 

O valor do sorriso no porta-retrato 
O terço à cabeceira numa prece nata 
O tapete à porta dando boas vindas e a esperança que retrata

Hoje compreendi o orvalho derramando-se quieto
A areia ali daquela praia contando-me histórias 
Compreendi a linha em branco, divisória 
Dos meus suspiros inculpes 

Compreendi nas coisas miúdas e silenciosas
Quase sagradas, agregando pequenos segredos 
A estratégia para viver um pouco mais 
Quando se tem medo de perder a esperança. 

(Cristhina Rangel)


Não há outro caminho

Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho. 



Rui Pires Cabral

Legenda dos Dias


O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída, 
Leva uma crença vaga, indefinida, 
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim, 
Mais ele avança, mais distante é o fim, 
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera, 
Numa eterna esperança que se adia...


Raul de Leoni

Cavalgada

Meu sangue corre como um rio
num grande galope,
num ritmo bravio,
para onde acena a tua mão.

Pelas suas ondas revoltas,
seguem desesperadamente
todas as minhas estrelas soltas,
com a máxima cintilação.

Ouve, no tumulto sombrio,
passar a torrente fantástica!
E, na luta da luz com as trevas,
todos os sonhos que me levas,
dize, ao menos, para onde vão!


Cecília Meireles



A Casa e o Velho


soleira da porta
rachada criando matinho

beirada de janela
cheia de musgo
quem se importa?

mureta e degrau
de terra batida

telhado quebrado
meio torto
meio capenga
serve
de ninho de passarinho

azulejo azul
antigo e encardido
jogado num canto
esquecido no depois

sofazinho rasgado
era florido
aquele quase estofado

cortina desfiada
de renda
mulher rendeira
mulher rendá

o gato no fogão
esquentando a pança

a galinha na panela
estrangulada numa galinhada

o radinho de pilha
que nem toca mais
só chia e chia 
como água remexida
sobre a louça
desbeiçada
e amanhecida

um fio de luz
querendo entrar
pelos buracos 
do pau a pique
meio na parede
meio no barro

o cachorro
corre magro
arrastando a linguiça
que defumava 
na brasa
rasa do fogo apagado

e o mosquito
passa fome
distraído e sem zumbido
tudo agora sem sentido

mas lá está
ele 
assuntando o céu

tem um rosto
ressecado de sol
tão antigo
debaixo do chapéu
esfiapado de palha seca
sumido nas carnes
insatisfeitas da face

se tivesse dentes
naquela boca escancarada
os rangeria

se tivesse lágrimas
naqueles olhos fundos
as choraria

quem retorna?
ninguém

quem ele espera?
ninguém

nesse cenário
sem nada de novo
bate um coração de penumbra
num peito
espantado e resistente
que medita no sentido
que a vida tem


(Mírian Cerqueira Leite)




As fontes

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser

(Sophia de Mello Breyner)

Frases

Clair de lune, chiaro de luna, entro de lunia…
jamais os franceses, os italianos e os espanhóis
saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de
um trago numa palavra só.

 (Mário Quintana)

Tu

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.


Nuno Júdice

A Implosão da Mentira (Fragmento 2)

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricaturalmente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial/mente,
mente partidária/mente,
mente incivil/mente,
mente tropical/mente,
mente incontinente/mente,
mente hereditária/mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país de mentira
diária/mente.


Affonso Romano de Sant'Anna



quem tem olhos...

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele 
soprando sulcos na pele 
soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

Viviane Mosé

Ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Moraes

À tona da pele

hoje tive uma ideia na banheira, mas
por pouco tempo: infelizmente
não me apareceu no cérebro, como é habitual, mas
sim à tona da pele
de modo que a água do chuveiro a
levou ralo abaixo
dela restando apenas flocos de espuma e
outra ideia irresistível
quantas não andarão por aí mergulhadas
nos esgotos nas estações de tratamento de água
(algumas bem precisam de ser desinfectadas)
sem mencionar rios riachos ribeiros mares e
à conta de tudo isso
quantas ideias não bebemos num simples copo de água


Bénédicte Houart in Vida: Variações II

Flores

Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.



(Mia Couto)


Habitation

Marriage is not
a house or even a tent

it is before that, and colder:

the edge of the forest, the edge
of the desert 
the unpainted stairs 
at the back where we squat 
outside, eating popcorn

the edge of the receding glacier

where painfully and with wonder
at having survived even
this far

we are learning to make fire 


(Margaret Atwood)


Epigrama


És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.


Cecília Meireles


The unending gift


Um pintor nos prometeu um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti,
como outras vezes, a tristeza de
compreender que somos como um sonho.
Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei num lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo
uma coisa a mais, uma das vaidades ou
hábitos da casa; agora é ilimitada,
incessante, capaz de qualquer forma e
qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como
uma música e estará comigo até o fim.
Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal.)


Jorge Luís Borges (in Elogio de la Sombra) tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques


A verdadeira mão

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio ato de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta


Ana Hatherly



Soneto só para mim


Vou assim pelas ruas: meus cabelos
libertos, esvoaçando a quatro ventos.
Não os posso prender e nem quero prendê-los
— que eles são braços de meus pensamentos!

Vou assim pelas ruas da cidade:
— gravata frouxa, alma vagando ao léu…
Tenho a cabeça erguida por vaidade:
esta vaidade de fitar o céu.

E vou sorrindo de meus próprios sofrimentos!
(alma e cabelos esvoaçando aos ventos)
Eu sou o mais feliz dos infelizes!

É que, em toda a minha vida,
sempre fui árvore florida,
que ri do sofrimento das raízes…


Ferreira Gullar


Rio e/ou Poço


Quando tu, na vertical,
te ergues, de pé em ti mesma,
é possível descrever-te
com a água da correnteza;

tens a alegria infantil,
popular, passarinhadeira,
de um riacho horizontal
(e embora de pé estejas).

Mas quando na horizontal,
em certas horas, te deixas,
que é quando, por fora, mais
as águas correntes lembras,

mas quando à tua extensão,
como se rio, te entregas,
quando te deitas em rio
que se deita sobre a terra,

então, se é da água corrente,
por longa, tua aparência,
somente a água de um poço
expressa tua natureza;

só uma água vertical
pode, de alguma maneira,
ser a imagem do que és
quando horizontal e queda.

Só uma água vertical,
água parada em si mesma,
água vertical de poço,
água toda em profundeza,

água em si mesma, parada,
e que ao parar mais se adensa,
água densa água, como
de alma tua alma está densa.


João Cabral de Melo Neto

Odes (I, 11.8)

Não indagues, Leucónoe, ímpio é saber
a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
melhor é suportar
tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
corta a longa esperança,
que é breve nosso prazo de existência.
Enquanto conversamos,
foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

(Horácio)
tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos
(origem da expressão Carpe Diem)

Por um acaso

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.


Wislawa Szymborska

há um poema que não quer se calar

há um poema que não quer se calar

queria fechar meus olhos
e adormecer
com a paz
do trabalhador braçal
que ganha o pão
com o suor do seu desgosto

mas sou duplo

e sendo um deles
sou também o desejo
de um mundo justo
acossado em palavras

e este
padece de insônia
não adormece

enche os olhos de papel
finca neles a ponta da caneta
e do próprio desatino
põe-se a gritar

dentro da noite

(até o outro acordar)


Valdeci Almeida


Canção da tarde no campo



Caminho do campo verde
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a tarde é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vai fugindo,
minha alma é sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.


Cecília Meireles


Como lobos em período de seca

como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela


Muhammad al-Maghut, trad. Adalberto Alves

Contando estrelas calaveras


No pampa esquecido na distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada junto ao guaipeca
no cepo defronte à tapera
eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
cozinhar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
da minha chinoca bonita
deixava uns trocados na cadeira
que ajudava a guria arteira
a comprar novo corte de chita
e qualquer outra fazenda
que fizesse o tranco da prenda
macanudo a cada visita
de já encilhei o futuro
no más meu chapéu eu penduro
para descansar barbicacho
tiro a bombacha e as botas
tenteando o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas
logo eu afogo a queixa
mas a saudade não me deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartam dos velhos pelegos
a minha pinguancha caborteira


wasil sacharuk


Sonhei, confuso, e o sono foi disperso

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando despertei da confusão,
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são.

Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão.
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.

Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.


Fernando Pessoa


há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


(Al Berto)

Para a feira do livro

Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que vento em folha de livro.
Todavia a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania varrendo o podre a zero.

Silencioso: quer fechado ou aberto,
inclusive o que grita dentro; anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o oposto do quadro na parede,
aberto a vida toda, quanto a música,
viva apenas enquanto voam suas redes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.

João Cabral de Melo Neto


Espiral

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

Mia Couto in Tradutor de Chuvas