Um dia
no planeta
todos os povos
todos os seres
saberão
que uma caneta
e os poetas
(velhos ou novos)
deterão qualquer
malfeito
mau jeito
preconceito
todas as guerras
- e salvarão a Terra.
(Silvia Regina Costa Lima)
Se eu fosse a ti amava-me
Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum mas a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.
Juan Vicente Piqueras
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum mas a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.
Juan Vicente Piqueras
Na trilha
Fiz minha trilha
de cacos de estrelas
machuquei os pés
sangrei desenhos
de rosas vermelhas
ah, andei de joelhos
dos cortes profundos
salpiquei de gotas
espessas, meu rumo
bati com força
socos e pisadas
afundei pedaços
na terra queimada
oh, dancei no fogo
em plena madrugada
amei com intensidade
cheia de graça
e fui amada
Iluminei caminhos
com raios de lua
não busquei o sol
preferi penumbra
é, colar estrelas
trabalho tão duro
esvaziei a alma
dos tons escuros
e continuei ao léu
Cheguei ao fim
olhei pra trás
vi no chão o rito
ah, querer bem mais
e eu disse sim
falsifiquei meus ais
é, busquei a paz
e recebi os astros
nas minhas mãos
inteiros
redesenhei as rotas
desativei os freios
ah, nave ainda torta
alinhei desejos
e avancei sem medo
Dhênova
Vem comigo
vem comigo
ver as pirâmides fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas
iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforma e morre
e já não nos pertence
vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel
vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu
(Al Berto)
ver as pirâmides fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas
iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforma e morre
e já não nos pertence
vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel
vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu
(Al Berto)
Eu-Mulher
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
(Conceição Evaristo)
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
(Conceição Evaristo)
Travel
Loving you, flesh to flesh, I often thought
Of travelling penniless to some mud throne
Where a master might instruct me how to plot
My life away from pain, to love alone
In the bruiseless embrace of stone and lake.
Lost in the fields of your hair I was never lost
Enough to lose a way I had to take;
Breathless beside your body I could not exhaust
The will that forbid me contract, vow,
Or promise, and often while you slept
I looked in awe beyond your beauty.
Now
I know why many men have stopped and wept
Half-way between the loves they leave and seek,
And wondered if travel leads them anywhere–
Horizons keep the soft line of your cheek,
The windy sky’s a locket for your hair.
(Leonard Cohen)
Of travelling penniless to some mud throne
Where a master might instruct me how to plot
My life away from pain, to love alone
In the bruiseless embrace of stone and lake.
Lost in the fields of your hair I was never lost
Enough to lose a way I had to take;
Breathless beside your body I could not exhaust
The will that forbid me contract, vow,
Or promise, and often while you slept
I looked in awe beyond your beauty.
Now
I know why many men have stopped and wept
Half-way between the loves they leave and seek,
And wondered if travel leads them anywhere–
Horizons keep the soft line of your cheek,
The windy sky’s a locket for your hair.
(Leonard Cohen)
História Antiga
No meu grande otimismo de inocente
Eu nunca soube por que foi... Um dia,
Ela me olhou indiferentemente;
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...
Desde então, transformou-se, de repente,
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente...
Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa...
E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...
(Raul de Leoni)
Eu nunca soube por que foi... Um dia,
Ela me olhou indiferentemente;
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...
Desde então, transformou-se, de repente,
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente...
Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa...
E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...
(Raul de Leoni)
Wild Geese (Gansos Selvagens)
Wild Geese
You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting -
over and over announcing your place
in the family of things.
... ... ... ...
Gansos Selvagens
Você não tem que ser bom.
Você não precisa andar de joelhos
e percorrer cem quilômetros de arrependimento no deserto.
Você só precisa deixar que esse animal terno que é o seu corpo
ame o que ele ama.
Fale-me do seu desespero, fale-me dele e eu lhe falarei do meu desespero.
Enquanto isso, o mundo segue adiante.
Enquanto isso, o sol e as gotículas cristalinas de chuva
atravessam paisagens,
pairam sobre os campos e sobre as árvores frondosas
e sobre montanhas e rios.
Enquanto isso, gansos selvagens voam de volta para casa,
nas alturas de um ar puro e azul.
Quem quer que você seja, não importando quão solitário esteja,
o mundo se entrega à sua imaginação,
e o chama como chamaria os gansos selvagens,
estridente e entusiasticamente –
para repetidas vezes anunciar o seu lugar
na família das coisas.
Mary Oliver
You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting -
over and over announcing your place
in the family of things.
... ... ... ...
Gansos Selvagens
Você não tem que ser bom.
Você não precisa andar de joelhos
e percorrer cem quilômetros de arrependimento no deserto.
Você só precisa deixar que esse animal terno que é o seu corpo
ame o que ele ama.
Fale-me do seu desespero, fale-me dele e eu lhe falarei do meu desespero.
Enquanto isso, o mundo segue adiante.
Enquanto isso, o sol e as gotículas cristalinas de chuva
atravessam paisagens,
pairam sobre os campos e sobre as árvores frondosas
e sobre montanhas e rios.
Enquanto isso, gansos selvagens voam de volta para casa,
nas alturas de um ar puro e azul.
Quem quer que você seja, não importando quão solitário esteja,
o mundo se entrega à sua imaginação,
e o chama como chamaria os gansos selvagens,
estridente e entusiasticamente –
para repetidas vezes anunciar o seu lugar
na família das coisas.
Mary Oliver
como um espaço desabitado
como um espaço desabitado
o corpo faz-se no inventário de silêncios
se eu conto árvores e o frio
para me ocuparem a voz
há muito tempo que as palavras
são a incómoda sensação de vazio
(Maria Sousa)
o corpo faz-se no inventário de silêncios
se eu conto árvores e o frio
para me ocuparem a voz
há muito tempo que as palavras
são a incómoda sensação de vazio
(Maria Sousa)
Rima
obrigado por me receber sem me julgar ou desmerecer
obrigado por me poemar só com palavras feitas para o sim
obrigado por aceitar meu sim no coito do meu não
e quando digo não é para aceitar a contradição
a contraluz que raciocina com o meu coração
obrigado pelo que me ensina esses teus dizeres
versos de explosão como convém à carícia
e quando me avisa já perdi o salto
estou do outro lado que você me vê
do lado contrário aí bem ao seu lado
longe de você
e quando disparo todo o arsenal
do bem e do mal você sorri e canta
e tua palavra então me sustenta em ti
só para ouvir tua delicadeza
que ventura mil dizer o que sentiu
essa tua surpresa
chega em poesia do jeito que ferve
quando me escreve é tanta entranha
teu poço me serve o que me reserva
o sabor da seiva escorre da pétala
flor tão generosa em doar-se apenas
dar-se assim tão plena sem pensar ou pena
sem pesar nem tema que te amar é risco
gravado no ritmo do teu coração
e te amar convicto de que não há desperdício
quando o amor é riso e ri tão cruel
uma face afia o tom do mel e a outra fia o dom de fel
amacia a máscara de doer a ternura no calor do grito
rompe com o granito no fio da ventania
e teu encantamento me dispara o tempo e faz para sempre
a infinita dor arder até provocar
o som que tremeu depois de esmagar
a sombra com algemas de medo
e todo o teu segredo é poder sorrir
mesmo quando estou bem longe de ti
assim como um barco
que o cais profana
nada o detém
a não ser a sina insana de te amar
a sede incandescente de sorver teu colo
a lua que devora o grão de teu ódio
o grão debulhado de tua memória
e que o poema traduz como se fosse rima
de amanhecer com abraço
de perdão com silêncio
de barulho de trem como se pudesse
abafar
a longa agonia da viagem
com saudade
(Geraldo Maia)
VII
Lembra-te que há um querer doloroso
e de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Não caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Porque me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?
(Hilda Hilst)
e de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Não caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Porque me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?
(Hilda Hilst)
O vento
O vento é um pedaço de oxigênio disfarçado de fantasma,
que vagueia a assobiar uma canção que nunca passa de moda.
(Alejandra Pizarnik)
A parede branco-gelo
A parede branco-gelo
Indica a temperatura externa.
É tão inverno quanto sou.
Se, nesta parede fria, um quadro eu fosse
De moldura externa seria árvore seca:
Galhos sem flor, folha, fruto e cor
De arte interna seria neve branca:
Tinta-luz sem vestígios, pedágios, caminhos e amor
(Gustavo Abud Priedols)
Indica a temperatura externa.
É tão inverno quanto sou.
Se, nesta parede fria, um quadro eu fosse
De moldura externa seria árvore seca:
Galhos sem flor, folha, fruto e cor
De arte interna seria neve branca:
Tinta-luz sem vestígios, pedágios, caminhos e amor
(Gustavo Abud Priedols)
Incompletude
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.
(Manoel de Barros)
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.
(Manoel de Barros)
Suspiro
Apenas hoje compreendi a luta do pássaro contra o vento
Compreendi o valor da semente que invade o concreto e concretiza a primavera
O valor do sorriso no porta-retrato
O terço à cabeceira numa prece nata
O tapete à porta dando boas vindas e a esperança que retrata
Hoje compreendi o orvalho derramando-se quieto
A areia ali daquela praia contando-me histórias
Compreendi a linha em branco, divisória
Dos meus suspiros inculpes
Compreendi nas coisas miúdas e silenciosas
Quase sagradas, agregando pequenos segredos
A estratégia para viver um pouco mais
Quando se tem medo de perder a esperança.
(Cristhina Rangel)
Compreendi o valor da semente que invade o concreto e concretiza a primavera
O valor do sorriso no porta-retrato
O terço à cabeceira numa prece nata
O tapete à porta dando boas vindas e a esperança que retrata
Hoje compreendi o orvalho derramando-se quieto
A areia ali daquela praia contando-me histórias
Compreendi a linha em branco, divisória
Dos meus suspiros inculpes
Compreendi nas coisas miúdas e silenciosas
Quase sagradas, agregando pequenos segredos
A estratégia para viver um pouco mais
Quando se tem medo de perder a esperança.
(Cristhina Rangel)
Não há outro caminho
Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
Rui Pires Cabral
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
Rui Pires Cabral
Legenda dos Dias
O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...
As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...
Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;
E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...
Raul de Leoni
Cavalgada
Meu sangue corre como um rio
num grande galope,
num ritmo bravio,
para onde acena a tua mão.
Pelas suas ondas revoltas,
seguem desesperadamente
todas as minhas estrelas soltas,
com a máxima cintilação.
Ouve, no tumulto sombrio,
passar a torrente fantástica!
E, na luta da luz com as trevas,
todos os sonhos que me levas,
dize, ao menos, para onde vão!
Cecília Meireles
num grande galope,
num ritmo bravio,
para onde acena a tua mão.
Pelas suas ondas revoltas,
seguem desesperadamente
todas as minhas estrelas soltas,
com a máxima cintilação.
Ouve, no tumulto sombrio,
passar a torrente fantástica!
E, na luta da luz com as trevas,
todos os sonhos que me levas,
dize, ao menos, para onde vão!
Cecília Meireles
A Casa e o Velho
soleira da porta
rachada criando matinho
beirada de janela
cheia de musgo
quem se importa?
mureta e degrau
de terra batida
telhado quebrado
meio torto
meio capenga
serve
de ninho de passarinho
azulejo azul
antigo e encardido
jogado num canto
esquecido no depois
sofazinho rasgado
era florido
aquele quase estofado
cortina desfiada
de renda
mulher rendeira
mulher rendá
o gato no fogão
esquentando a pança
a galinha na panela
estrangulada numa galinhada
o radinho de pilha
que nem toca mais
só chia e chia
como água remexida
sobre a louça
desbeiçada
e amanhecida
um fio de luz
querendo entrar
pelos buracos
do pau a pique
meio na parede
meio no barro
o cachorro
corre magro
arrastando a linguiça
que defumava
na brasa
rasa do fogo apagado
e o mosquito
passa fome
distraído e sem zumbido
tudo agora sem sentido
mas lá está
ele
assuntando o céu
tem um rosto
ressecado de sol
tão antigo
debaixo do chapéu
esfiapado de palha seca
sumido nas carnes
insatisfeitas da face
se tivesse dentes
naquela boca escancarada
os rangeria
se tivesse lágrimas
naqueles olhos fundos
as choraria
quem retorna?
ninguém
quem ele espera?
ninguém
nesse cenário
sem nada de novo
bate um coração de penumbra
num peito
espantado e resistente
que medita no sentido
que a vida tem
(Mírian Cerqueira Leite)
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