Por um acaso

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.


Wislawa Szymborska

há um poema que não quer se calar

há um poema que não quer se calar

queria fechar meus olhos
e adormecer
com a paz
do trabalhador braçal
que ganha o pão
com o suor do seu desgosto

mas sou duplo

e sendo um deles
sou também o desejo
de um mundo justo
acossado em palavras

e este
padece de insônia
não adormece

enche os olhos de papel
finca neles a ponta da caneta
e do próprio desatino
põe-se a gritar

dentro da noite

(até o outro acordar)


Valdeci Almeida


Canção da tarde no campo



Caminho do campo verde
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a tarde é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vai fugindo,
minha alma é sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.


Cecília Meireles


Como lobos em período de seca

como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela


Muhammad al-Maghut, trad. Adalberto Alves

Contando estrelas calaveras


No pampa esquecido na distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada junto ao guaipeca
no cepo defronte à tapera
eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
cozinhar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
da minha chinoca bonita
deixava uns trocados na cadeira
que ajudava a guria arteira
a comprar novo corte de chita
e qualquer outra fazenda
que fizesse o tranco da prenda
macanudo a cada visita
de já encilhei o futuro
no más meu chapéu eu penduro
para descansar barbicacho
tiro a bombacha e as botas
tenteando o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas
logo eu afogo a queixa
mas a saudade não me deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartam dos velhos pelegos
a minha pinguancha caborteira


wasil sacharuk


Sonhei, confuso, e o sono foi disperso

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando despertei da confusão,
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são.

Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão.
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.

Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.


Fernando Pessoa


há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


(Al Berto)

Para a feira do livro

Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que vento em folha de livro.
Todavia a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania varrendo o podre a zero.

Silencioso: quer fechado ou aberto,
inclusive o que grita dentro; anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o oposto do quadro na parede,
aberto a vida toda, quanto a música,
viva apenas enquanto voam suas redes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.

João Cabral de Melo Neto


Espiral

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

Mia Couto in Tradutor de Chuvas

Soneto III

Estas e muitas outras coisas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.


(Guilherme de Almeida in "Nós")


Um sopro de vida


Não aguento muito tempo um sentimento
porque passo a ter angústia
e meu pensamento fica ocupado com o sentimento
e eu me desvencilho dele de qualquer jeito
para ganhar de novo a minha liberdade de espírito.


Sou livre para sentir. Quero ser livre para raciocinar.
Aspiro a uma fusão de corpo e alma.


Não consigo compreender para os outros.


Só na desordem de meus sentimentos é que compreendo
para mim mesma e é tão incompreensível o que eu sinto
que me calo e medito sobre o nada.


(Clarice Lispector)


A uma calça jeans


Eu te peço desculpas pela
lambança da bainha
pesquisei o passo
a passo mas a agulha é muito
pequena a linha é muito fina
e minhas mãos se impacientam demais
outras calças que tive no passado
desfrutaram da costura contemplativa
que minha mãe lograva — talento que não
herdei embora tenha tentado (agulhas
de tricô aos dez anos inclusive)
minha destreza não passa
de um emaranhado de linhas
para a emergência de um botão
sinto muito calça jeans
parece que seguiremos
tropeçando juntas em nossas
costuras mal-ajambradas
enquanto ainda coubermos uma na outra
e o tempo
condoído
ainda couber em nós.


Adriana Lisboa

A Jornada

Um dia você finalmente descobriu
o que tinha que fazer e começou,
mesmo que as vozes ao seu redor
continuassem gritando seus maus conselhos-
mesmo que a casa inteira começasse a tremer
e você sentisse aquele velho puxão
nos seus calcanhares,
“Corrija a minha vida!”
gritava cada voz.
Mas você não parou
você sabia o que tinha que fazer.

Mesmo que o vento se espreitasse
com seus dedos firmes
nos seus maiores alicerces
Mesmo que a melancolia fosse terrível
Já era tarde o suficiente a noite deserta,
a estrada cheia de galhos e pedras caídas.

Mas pouco a pouco,
assim que você deixou as vozes no
pano de fundo, as estrelas começaram a brilhar
por entre as camadas de nuvens,
e então, havia uma nova voz
a qual você lentamente
reconheceu como sua,
que fez companhia pra você
enquanto você avançava cada vez mais
profundo dentro do universo,
reservado para você,
a única coisa que você poderia fazer-
reservado a você salvar
a única vida que você poderia salvar.

Mary Oliver

Quando eu morrer

Quando eu morrer
não me deem rosas
mas ventos.

Quero as ânsias do mar
quero beber a espuma branca
duma onda a quebrar
e vogar.

Ah, a rosa dos ventos
a correrem na ponta dos meus dedos
a correrem, a correrem sem parar.
Onda sobre onda infinita como o mar
como o mar inquieto
num jeito
de nunca mais parar.

Por isso eu quero o mar.
Morrer, ficar quieto,
não.
Oh, sentir sempre no peito
o tumulto do mundo
da vida e de mim.

E eu e o mundo.
E a vida. Oh mar,
o meu coração
fica para ti.
Para ter a ilusão
de nunca mais parar.


Alexandre Daskalos

12.

um triângulo escaleno recorta a paisagem
geometria perfeita entre o caos do mundo
que forma terei eu visto de onde estás?
e a nuvem que sobre ti passa?
e o vento que te atravessa?

somos as formas deformadas do universo
somos aberrações deambulando pelas ruas
repletos de verdades e de fórmulas
manifestando amiúde a falência dos teoremas
que em nome do pai do filho e do espírito santo
nos fazem supor vidas eternas
onde resta apenas tédio e comiseração

eis a minha forma deformada
sombra de gestos provindos de um fundo negro
a dizer: acredito nos homens
e na força das utopias
acredito nos horizontes que impelem à caminhada
para logo ao primeiro passo
tropeçarem no abismo
e das crenças e das utopias restar apenas
e tão-somente uma ideia vaga

mas tu manténs-te firme nos teus propósitos
és o aço que enfrenta as intempéries
na tua quietude vislumbro o ponto
onde fixar os olhos
assim evitando a vertigem que me afunda
no degredo interminável das teorias

triângulo escaleno da minha paisagem quotidiana
na tua área desenho o imo da minha solidão
e em cada aresta afio as pontas
que hão-de penetrar mortalmente a carne das horas


Henrique Manuel Bento Fialho

Não passou


Passou? 
Minúsculas eternidades 
deglutidas por mínimos relógios 
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz. 
A mão- a tua mão, nossas mãos- 
rugosas, têm o antigo calor 
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca. 
Mentira, estarmos sós. 
Nada, que eu sinta, passa realmente. 
É tudo ilusão de ter passado.


Carlos Drummond de Andrade

Sleeping in the forest


I thought the earth
remembered me, she
took me back so tenderly, arranging
her dark skirts, her pockets
full of lichens and seeds. I slept
as never before, a stone
on the riverbed, nothing
between me and the white fire of the stars
but my thoughts, and they floated
light as moths among the branches
of the perfect trees. All night
I heard the small kingdoms breathing
around me, the insects, and the birds
who do their work in the darkness. All night
I rose and fell, as if in water, grappling
with a luminous doom. By morning
I had vanished at least a dozen times
into something better.

Mary Oliver 

..........


Dormir na floresta


Pensei que a terra
se lembrasse de mim, tão
carinhosamente me recebeu de novo, ajeitando
as saias escuras, com os bolsos
cheios de líquenes e sementes. Dormi
como nunca, uma pedra
no leito do rio, sem nada
entre mim e o fogo branco das estrelas
a não ser os meus pensamentos e estes flutuavam
leves como mariposas por entre os ramos
das árvores perfeitas. Ouvi
toda a noite os pequenos reinos a respirarem
à minha volta, os insectos e as aves
que trabalham na escuridão. Toda a noite
me levantei e caí, como se estivesse dentro de água, a lutar
com uma fatalidade luminosa. De manhã
tornara-me em alguma coisa melhor
umas doze vezes pelo menos.

 (tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho)

_

Quadros

Todos os museus têm medo de mim:
Sempre que fico o dia inteiro
Diante de um quadro
No dia seguinte anunciam
O desaparecimento desse quadro.

Todas as noites me apanham a roubar
Noutras partes do mundo,
Mas eu nem ligo
Às balas que me assobiam ao ouvido,
E aos cães-polícia que já conhecem
O cheiro das minhas pegadas
Melhor do que os namorados
O perfume da amada.

Falo em voz alta com as telas
Que põem em perigo a minha vida,
Penduro-as nas nuvens e nas árvores
E recuo para obter perspectiva.

Com os mestres “italianos” podes facilmente conversar.
Que ruído de cores!
É por isso que sou logo apanhado com eles,
Visto e ouvido de longe,
Como se tivesse papagaios nos braços.

O mais difícil é roubar Rembrandt:
Estendes a mão e encontras a escuridão —
Ficas apavorado, os seus homens não têm corpo,
Apenas olhos fechados em adegas escuras.

As telas de Van Gogh são loucas,
Rolam e dão cambalhotas,
Tens de prendê-las bem
Com ambas as mãos,
Pois são sugadas por uma força lunar.

Não sei porque é que Breugel me faz chorar,
Não era mais velho do que eu,
Mas chamaram-lhe velho,
Porque sabia tudo quando morreu.

Procuro aprender com ele,
Mas não posso conter as lágrimas
Que escorrem nas molduras douradas
Quando fujo com as estações debaixo do braço.

Como vos disse, todas as noites
Roubo um quadro
Com uma perícia invejável.

Sendo o caminho muito longo,
Sou finalmente apanhado,
Chego a casa a altas horas,
Cansado e rasgado pelos cães
Trazendo comigo uma reprodução barata.


Marin Sorescu

Capriccio


Todas as noites
Junto as cadeiras da vizinhança,
As disponíveis,
E leio-lhes versos.

As cadeiras são muito receptivas
À poesia
Se soubermos como as dispor.

Por isso
Fico emocionado,
E durante algumas horas
Conto-lhes
A morte maravilhosa da minha alma
Ao longo do dia.

Os nossos encontros
São habitualmente sóbrios,
Sem entusiasmos
Inúteis.

Seja como for,
É possível dizer-se:
Cada um fez o seu dever,
E pode seguir
Adiante.


Marin Sorescu

Fúrias


Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço

E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo


(Sophia de Mello Breyner Andresen - in Ilhas)


Fine

Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis.
Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura.
Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem.
Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no chão.
Em qualquer caso, emudeceriam. Ou não seriam escutados, o que vem a dar ao mesmo.
Nunca contemplei esta hipótese por mais de cinco minutos – certamente, nem tanto.
Não consigo. Não sei. Julgo que, no fundo, é o que menos quero. E que essa é a raiz da minha resistência. Crónica e aguda.
Os sentimentos são onde sei viver, onde me sinto menos morto.
Os sentimentos sou eu.
Os melhores.
Os piores.
O beijo.
A bala.
(Ou vice-versa).
Todos os nomes da intranquilidade.


(Miguel Martins in Lérias)

É amargo o coração do poema

É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.


(Herberto Helder)

Cento e noventa e duas horas


Vem, senta aqui...
Assim mesmo, asa avessa, do jeito que estás.
Me deixa te contar dos dezoito mil sóis que me habitam e dos duzentos e sessenta e dois satélites que orbitam teu planeta.
Se tivermos tempo, ainda te direi dos meus sessenta e sete novos tipos de medo,
embora, pelos ponteiros do nosso desajustado relógio,
essas cento e noventa e duas horas,
sem bloqueios,
são tanto poucas para quem muito teme o que sente...
Decerto, como bem te sei
- indomável, teimosa e silvestre que és - 
amanhã, talvez, não haverá mais horas para eu somar.
Então, vem, e façamos do teu jeito, pois não contesto nada do que disseste antes. Sei que estás certa e plena quando me contas sobre amor. Contudo, eu também sei que,
hoje, ele não é sempre assim,
como os humanistas, religiosos e poetas,
um dia, descreveram-no.
Meus olhos... Tu vês?
Eles te alegram, assustam ou fazem chorar?
Minhas rugas... Vês?
São marcas deixadas pelas garras do tempo,
que estórias de princesas habilidosas e príncipes mocorongos não irão,
ao colo,
ninar.
Porque o amor, Sherazade, é desatento às atitudes
e comportamentos;
às omissões,
às inverdades.
Ele precisa ceder a outras vicissitudes e confiar no que mais clama por atenção,
coisas que parecem inúteis num conto de fadas, mas que pesam nas mãos de um ourives como eu,
que esculpe suas bodas de ouro
no mármore dos anos.
O amor não é invencível, Camille.
Atenta:
O que mais vês?
Repara nos fios de cabelo que já não tenho...
Sabes tão bem que eu escolhi perdê-los.
Toca-lhes a imagem do que é a brevidade da vida,
amolada e refletida em lâminas de aço.
Sente... Teus finos dedos conhecem os caminhos de leveza do meu voo
e a costa do mar onde dorme oceano.
Escuta a canção,
alça tuas asas,
no alto 
e dança...
Dança no varal de cordas,
junto aos fios,
aos cachos,
às garças e gaivotas
que afinam a voz de seus bicos
nas ondas sonoras
da minha máquina de cortar.
Decerto, tantas vezes mais
sonharás 
com orquídeas negras e rosas
trepadeiras
entrelaçando raízes sobre umbrais
de janelas,
na primavera,
ou rastejando comigo entre folhagens,
faíscas de velas.
Agora vês?
Podes ver o céu onde escrevo com pó de estrelas o poema pela lua derramado?
Pioggia, enquanto o que está em oculto germinar detalhes que parecem bobos, não me entrego mais ao amor como outrora a ti me entreguei.
Por fim, aceito o que propões.
Então vai, vai... Vai logo!
Se isso é o que desejas.
Mas, dessa feita,
quando um dia partirmos
eu
tu
o amor e toda
nossa estranheza
Sega não mais haverá.
Jogaremos asfalto sobre os campos,
enquanto os pássaros
migrarão com suas sementes para o reduto das memórias renegadas;
e celebrarei esse dia como aquele em que o amor, para mim, não fez nada.
Porém, sei que tu
- Ah... Como tão bem sei! -
não visitarás meu túmulo com flores arrancadas, se a morte não pede para ser adornada com mais morte.
E as tuas memórias jamais renegadas,
com sementes não serão plantadas,
pois, tal pássaros,
renasceremos asas delas.

(Mell Shirley Soares)

Ferro

Canhões,
Longos canhões de aço,
Apontando das belonaves 
Em nome do deus da guerra.
Retos, brilhantes, polidos canhões,
Cavalgados por marujos em túnicas brancas, 
Rostos bronzeados, cabelos revoltos, dentes
                                                 [ brancos,
Sorridentes marujos em túnicas brancas
Sentados nos canhões, entoando hinos e
                                     [ refrões de guerra.

Pás,
Amplas pás de ferro,
Cavando valas oblongas, 
Levantando terra e tufos de grama. 

            Você é 
            Testemunha —
            A pá é irmã do canhão. 

Carl Sandburg    (Tradução: Carlos Machado)


Percalços da Poetisa


a poetisa chega à alfândega e o funcionário da polícia federal logo desconfia. pede-lhe que abra as palavras. "isso pode demorar", pensa a poetisa. as palavras estão carregadas de significado até o máximo grau possível. o funcionário pergunta-lhe se ela sabe quanto significado pode trazer nas palavras. a poetisa diz que sim. o funcionário da polícia federal balança a cabeça e diz que infelizmente vai ter de registrar a infração.


(Angélica Freitas)

Descrição de um lugar

Sou um reflexo no vidro. Olho-me
Fixamente, e o poema capta-me nesta atitude.
Pudesse eu conhecer-me como se conhece
o poema…
Deixo um retrato de mim, morto,
há um ano por esta altura. Que me aconteceu,
entretanto? De quem é este corpo
que me é estranho, pálido habitante de um movimento
indeciso e aparente? Quem sinto quando me toco,
quem me dorme, quem me pensa,
quem me escreve? O meu rosto encobre um pronome. Vivo
uma sintaxe corrupta no patamar marítimo
do mito. Quem me impede o sentimento? Quem me abre
um caminho que não sigo, condenado a outro
de mim próprio?
No entanto, estou aqui. Entre mim e o poema,
opaco a ambos, sem nada para dizer.

(Nuno Júdice)

O excesso mais perfeito

Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura
e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente
da pureza do granito, e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo. E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)
preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico
a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos, de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguração
do seu olhar. Dourado.
Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.
Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu, carregada
de nada—


(Ana Luísa Amaral)

Epigrama

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.


(Cecília Meireles)

O lugar da casa

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.


Eugénio de Andrade

no princípio era

não dormia sem o escuro absoluto,
doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.

No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.


Filipa Leal


Duas almas


Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
Entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
Vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
Se banhem na nascente da alvorada.

E amanhã quando a luz do sol dourar, radiosa,
Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
Podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua,
Hás de levar contigo uma saudade minha...

(Alceu Wamosy)

Queixas de um utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.


(José Miguel Silva)


Parte, e tu verás

Parte, e tu verás 
Como as coisas que eram, não são mais 
E o amor dos que te esperam 
Parece ter ficado para trás 
E tudo o que te deram 
Se desfaz. 

Parte, e tu verás 
Como se quedam mudos os que ficam 
Como se petrificam 
Os adeuses que ficaram a te acenar no cais 
E como momentos que passaram apenas 
Perecem tempos imemoriais. 

Parte, e tu verás 
Como o que era real, resta impreciso 
Como é preciso ir por onde vais 
Com razão, sem razão, como é preciso 
Que andes por onde estás. 

Parte, e tu verás 
Como insensivelmente esquecerás 
Como a matéria de que é feito o tempo 
Se esgarça, se dilui, se liquefaz 
E qualquer novo sentimento 
Te compraz 

Repara como um novo sofrimento 
Te dá paz 
Repara como vem o esquecimento 
E como o justificas 
E como mentes insensivelmente 
Porque és, porque estás 

Ah, eterno limite do presente 
Ah, corpo, cárcere, onde faz 
0 amor que parte e sente 
Saudade, e tenta, mas 
Para viver, subitamente, mente 
Que já não sabe mais 
Vida, o presente; morte, o ausente - 
Parte, e tu verás...


Vinicius de Moraes (in Poemas Esparsos)


Primeiras letras

Com as toupeiras, aprendemos a fazer túneis.
Com os castores, aprendemos a fazer diques.
Com os pássaros, aprendemos a fazer casas.
Com as aranhas, aprendemos a tecer.
Com o tronco que rolava encosta abaixo, aprendemos a roda.
Com o tronco que boiava à deriva, aprendemos o barco.
Com o vento, aprendemos a vela.
Quem nos tem ensinado os muitíssimos males?
Com quem aprendemos a atormentar o próximo e a humilhar ao mundo?

Eduardo Galeano 

Canção breve



Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia. 

Eugénio de Andrade