VII

Lembra-te que há um querer doloroso
e de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Não caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Porque me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?


(Hilda Hilst)

O vento

O vento é um pedaço de oxigênio disfarçado de fantasma,
 que vagueia a assobiar uma canção que nunca passa de moda. 

(Alejandra Pizarnik)


A parede branco-gelo

A parede branco-gelo 
Indica a temperatura externa.
É tão inverno quanto sou.
Se, nesta parede fria, um quadro eu fosse
De moldura externa seria árvore seca:
Galhos sem flor, folha, fruto e cor
De arte interna seria neve branca:
Tinta-luz sem vestígios, pedágios, caminhos e amor

(Gustavo Abud Priedols)


Incompletude

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

(Manoel de Barros)

Suspiro

Apenas hoje compreendi a luta do pássaro contra o vento 
Compreendi o valor da semente que invade o concreto e concretiza a primavera 

O valor do sorriso no porta-retrato 
O terço à cabeceira numa prece nata 
O tapete à porta dando boas vindas e a esperança que retrata

Hoje compreendi o orvalho derramando-se quieto
A areia ali daquela praia contando-me histórias 
Compreendi a linha em branco, divisória 
Dos meus suspiros inculpes 

Compreendi nas coisas miúdas e silenciosas
Quase sagradas, agregando pequenos segredos 
A estratégia para viver um pouco mais 
Quando se tem medo de perder a esperança. 

(Cristhina Rangel)


Não há outro caminho

Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho. 



Rui Pires Cabral

Legenda dos Dias


O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída, 
Leva uma crença vaga, indefinida, 
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim, 
Mais ele avança, mais distante é o fim, 
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera, 
Numa eterna esperança que se adia...


Raul de Leoni

Cavalgada

Meu sangue corre como um rio
num grande galope,
num ritmo bravio,
para onde acena a tua mão.

Pelas suas ondas revoltas,
seguem desesperadamente
todas as minhas estrelas soltas,
com a máxima cintilação.

Ouve, no tumulto sombrio,
passar a torrente fantástica!
E, na luta da luz com as trevas,
todos os sonhos que me levas,
dize, ao menos, para onde vão!


Cecília Meireles



A Casa e o Velho


soleira da porta
rachada criando matinho

beirada de janela
cheia de musgo
quem se importa?

mureta e degrau
de terra batida

telhado quebrado
meio torto
meio capenga
serve
de ninho de passarinho

azulejo azul
antigo e encardido
jogado num canto
esquecido no depois

sofazinho rasgado
era florido
aquele quase estofado

cortina desfiada
de renda
mulher rendeira
mulher rendá

o gato no fogão
esquentando a pança

a galinha na panela
estrangulada numa galinhada

o radinho de pilha
que nem toca mais
só chia e chia 
como água remexida
sobre a louça
desbeiçada
e amanhecida

um fio de luz
querendo entrar
pelos buracos 
do pau a pique
meio na parede
meio no barro

o cachorro
corre magro
arrastando a linguiça
que defumava 
na brasa
rasa do fogo apagado

e o mosquito
passa fome
distraído e sem zumbido
tudo agora sem sentido

mas lá está
ele 
assuntando o céu

tem um rosto
ressecado de sol
tão antigo
debaixo do chapéu
esfiapado de palha seca
sumido nas carnes
insatisfeitas da face

se tivesse dentes
naquela boca escancarada
os rangeria

se tivesse lágrimas
naqueles olhos fundos
as choraria

quem retorna?
ninguém

quem ele espera?
ninguém

nesse cenário
sem nada de novo
bate um coração de penumbra
num peito
espantado e resistente
que medita no sentido
que a vida tem


(Mírian Cerqueira Leite)




As fontes

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser

(Sophia de Mello Breyner)

Frases

Clair de lune, chiaro de luna, entro de lunia…
jamais os franceses, os italianos e os espanhóis
saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de
um trago numa palavra só.

 (Mário Quintana)

Tu

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.


Nuno Júdice

A Implosão da Mentira (Fragmento 2)

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricaturalmente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial/mente,
mente partidária/mente,
mente incivil/mente,
mente tropical/mente,
mente incontinente/mente,
mente hereditária/mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país de mentira
diária/mente.


Affonso Romano de Sant'Anna



quem tem olhos...

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele 
soprando sulcos na pele 
soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

Viviane Mosé

Ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Moraes

À tona da pele

hoje tive uma ideia na banheira, mas
por pouco tempo: infelizmente
não me apareceu no cérebro, como é habitual, mas
sim à tona da pele
de modo que a água do chuveiro a
levou ralo abaixo
dela restando apenas flocos de espuma e
outra ideia irresistível
quantas não andarão por aí mergulhadas
nos esgotos nas estações de tratamento de água
(algumas bem precisam de ser desinfectadas)
sem mencionar rios riachos ribeiros mares e
à conta de tudo isso
quantas ideias não bebemos num simples copo de água


Bénédicte Houart in Vida: Variações II

Flores

Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.



(Mia Couto)


Habitation

Marriage is not
a house or even a tent

it is before that, and colder:

the edge of the forest, the edge
of the desert 
the unpainted stairs 
at the back where we squat 
outside, eating popcorn

the edge of the receding glacier

where painfully and with wonder
at having survived even
this far

we are learning to make fire 


(Margaret Atwood)


Epigrama


És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.


Cecília Meireles


The unending gift


Um pintor nos prometeu um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti,
como outras vezes, a tristeza de
compreender que somos como um sonho.
Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei num lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo
uma coisa a mais, uma das vaidades ou
hábitos da casa; agora é ilimitada,
incessante, capaz de qualquer forma e
qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como
uma música e estará comigo até o fim.
Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal.)


Jorge Luís Borges (in Elogio de la Sombra) tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques