Shakespeare

Shakespeare criou o mundo em sete dias.
No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma.
No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos
E os restantes sentimentos –
Que deu a Hamlet, a Júlio César, a António, a Cleópatra e a Ofélia,
A Otelo e a outros,
Para que fossem seus donos, eles e os seus descendentes,
Pelos séculos dos séculos.
No terceiro dia juntou todos os homens
E ensinou-lhes os sabores:
O sabor da felicidade, do amor, do desespero
O sabor ciúme, da glória e assim por diante,
Até esgotar todos os sabores.
Por esse tempo chegaram também uns indivíduos
Que se tinham atrasado.
O criador afagou-lhes compassivo a cabeça,
E disse que só lhes restava
Tornarem-se críticos literários
E contestarem a sua obra.
O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso.
Soltou os palhaços
Para darem cambalhotas,
E deixou os reis, os imperadores
E outros desgraçados divertirem-se.
Ao sexto dia resolveu alguns problemas administrativos:
Forjou uma tempestade,
E ensinou ao rei lear
O modo de usar uma coroa de palha.
Com os restos da criação do mundo
Fez o Ricardo III.
Ao sétimo dia viu se havia algo mais a fazer.
Os diretores de teatro já tinham coberto a terra de cartazes,
E Shakespeare concluiu que depois de tanto esforço
Também ele merecia assistir ao espetáculo.
Mas antes disso, esfalfado de todo,
Foi morrer um pouco.


Marin Sorescu 


Alma

Que te devolvam a alma
Homem do nosso tempo.
Pede isso a Deus
Ou às coisas que acreditas
À terra, às águas, à noite
Desmedida,
Uiva se quiseres,
Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa,
Pede à mulher
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a tua boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida
Escancara a tua boca
Regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA.


Hilda Hilst


Último brinde

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz…

Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada veem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.


Anna Akhmatova  (tradução de Rubens Figueiredo)

Rubra


Acho que tenho atração por naufrágios
por adágios e por pílulas de utopia

Desejo o poema arrebatado!
irado e alucinado de endorfinas

Queria escrever o amor
mas hoje me parece impossível
ele desbota e pinga sem parar!

Emparedada na linha, só a vírgula
e essa maciça corrupção verbal
Subjugo ao caos os pratos frios
repudio, regurgito e me irrito!

Escrevo então um livro de ossos
depois o afogo num lago qualquer.
Também sei pintar desprezo
e presas a ele, voam as manhãs...

Uma doce condenação ao silêncio
onde a lâmina dança
entre a aorta e a jugular!

Pulsa! jorra, molha e seca
num vermelho vivo quase morto

Beirando o espetacular!

Márcia Poesia de Sá - 2014

Zona Hermética

De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas. O poeta
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo 
Reluz com a sua obra. Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele 
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco... E, aquele 
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

Manoel de Barros

Uma importância danada

Não te arrependas de nada.
Um verso está sempre certo
mesmo quando errado. A verdade
também, mesmo quando dói

ou fere ou parece inoportuna.
A verdade nunca é inoportuna.
O teu inconformismo é o preço
da nossa libertação e teus versos

florescem no coração do povo.
Não. Não te arrependas de nada.
Não torças o verso, não obrigues
a palavra: um poeta está

sempre certo. Não permitas que o óxido
dos políticos entre na lâmina
dos teus versos. Um poeta não se vende,
não se compra, não se emenda.

A um poeta corta-se-lhe a cabeça.
E uma cabeça cortada não dói, mas
tem uma importância danada.


Rui Knopfli

The Hollow Men

I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us -- if at all -- not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

[…]

IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death's twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

[…]

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.

T.S. Eliot

...


Os Homens Ocos

I
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussuramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sobra sem cor,
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

[...]

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos esquivos à fala
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança 
De homens vazios.

[...]

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um gemido.


T. S. Eliot. “The hollow men”. Em: Obra completa. Vol. I. – Poesia. Tradução de Ivan Junqueira

Pelo sonho é que vamos

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.


Sebastião da Gama

Sedução


A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado 



Mar

I

De todos os cantos do mundo

Amo com um amor mais forte e mais profundo

Aquela praia extasiada e nua,

Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.



II

Cheiro a terra as árvores e o vento

Que a Primavera enche de perfumes

Mas neles só quero e só procuro

A selvagem exaltação das ondas

Subindo para os astros como um grito puro.



Sophia de Mello Breyner 

O medo da travessia das ruas

(ao meu pai)

Ouço vozes
as mesmas que ouvias
revisitando passados
de herois e algozes
e das bruxarias

tuas mãos sem segredos
seguram as minhas
no dia abençoado
por um sol de poesia

sinto ainda teu abraço
atávico laço
doce e apertado
amor desvelado

sinto aquele medo
o mesmo que sentias
nos ciclos da lua
da travessia das ruas
na rota dos desenredos

talvez seja cedo
para perfurar o espaço
riscar o tempo num traço
e ter contigo outro dia.


Wasil Sacharuk


Prefiro

Prefiro cinema.
Prefiro gatos.
Prefiro-me a gostar dos homens
em vez de amar a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.

No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados a cada dia.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países consquistadores.
Prefiro ter objecções.

Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fada dos Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.

Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do Ser Ter a sua razão.


Wislawa Szymborska


De baunilha e mirto

Ao ver as mãos inertes do moinho
pôs-se a imaginar o quão bom seria
um vento liso de promessas breves
fizesse ninho em cada um dos dedos

Solicitou serviço ao senhor das horas
- que facilita o caminhar das coisas -
mandasse um sopro em seta sussurrado
em notas altas de baunilha e mirto

Envolto pelo leve aroma quixotesco
o sopro, engravidando ventanias,
beijou os nãos que assenhoram o tempo
sob um casto campo de rubras tulipas


Lena Ferreira

Testamento de Ismael Nery


Esperei até hoje para que vos me descobrísseis. Quis dar-vos o prazer de vos sentir crescer. A minha excessiva proximidade impediu, porém, que me olhásseis como realmente sou. Contar-vos-ei agora a minha história, e descreverei o meu físico para que disto tireis o proveito necessário e justifiqueis a minha e a vossa existência.
Pertenço a esta espécie de homens que não constroem nem destroem, mas que explicam toda a construção e toda a destruição. Eu sou um predestinado, como foram também, meus predecessores e como serão os meus sucessores. Através dos séculos deveremos desenvolver o gene que no princípio da vida recebemos. Nós somos os grandes sacrificados que sofrem por todo o erro e atraso dos homens. Somos os homens que amam e consolam: não somos amados nem consolados. Se não fossemos portadores do germe de que vos falei, há muito que a nossa raça teria acabado violentamente. Quando tudo tiver atingido seu fim, aí começara nossa visível utilidade. O homem agora distribui suas esperanças na arte e na ciência. Chegará um tempo em que a arte e a ciência não bastarão mais para suprir a ânsia crescente de compreensão que a humanidade tem. Toda a arte resume-se em suprir as necessidades científicas, toda a ciência resume-se num estudo do equilíbrio da vida e numa tentativa formidável de conhecimento da matéria da vida. Ah! Se nós nos pudéssemos conhecer, ou se, pelo menos, pudéssemos chegar a conhecer um outro homem! A solidão do homem é o que mais o apavora na vida. Os homens se olham como desconhecidos com as mesmas roupas. Vivemos desconfiados – tudo fazemos para garantir o que possuímos, com medo dos ladrões de toda espécie que vemos em todos os homens. 
Inventamos o direito e a polícia; pomos em nossas casas grades de ferro e portas de bronze. O homem se esquece de que o que possui moralmente não é acessível aos ladrões, mas aumenta seu desassossego comas suas posses fiscais, esquecendo a ciência por ele já conquistada. Para que guardais uma mulher que não é vossa? Para que vos bateis por uma ideia que não sentis? Para que duas casas com um só corpo? Para que o sustento de uma vida sem consolo? Ah, a esperança! Que é a esperança? Tenhamos esperança – aumentamos a esperança – eu em Deus e vós em mim e em meus sucessores. Um conselho vos dou, com a autoridade que me conferem as rugas de minha testa, o meu olhar febril e minhas mãos mutiladas: não façais o que vos causar nojo, mesmo que tal nojo seja mínimo. Orientai vossa ciência para conseguirdes um aumento micrométrico de vossas sensibilidades. Já reparastes, meus irmãos, que vivemos num mundo em que existem soldados, juízes e prostitutas? Onde se encarcera um homem pelo depoimento da testemunha, ou se enforca um outro por insultar um líder? Existem testemunhas? Existem líderes? Que é a vontade do povo? Que é o bem geral? Já fizestes, com a ciência que tendes, a psicologia de um chefe? Por que não acreditar em Deus, quando acreditais até nos regimes políticos? 
A humanidade, como as plantas, precisa de estrume. Dos nossos corpos renasceram aqueles corpos gloriosos que encerram as almas dos poetas, aquele de que nós já trazemos o germe. Tudo foi feito no princípio – porém tudo só existirá realmente em tempos diversos. Os poetas serão os últimos homens a existir, porque neles é que se manifesta a vocação transcendente do homem. 
Todo o homem recita um poema na véspera de sua morte. A humanidade recitará também o seu nas vésperas da sua, pela boca de todos os homens que nesse tempo serão poetas.
– “Mirabili Dominus in opera ens”. (Novembro – 1933)

Ismael Nery


então queres ser um escritor?


se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.


Charles Bukowski
(Tradução: Manuel A. Domingos)

A Miragem


Não direi que a tua visão desapareceu dos meus olhos sem vida
Nem que a tua presença se diluiu na névoa que veio.
Busquei inutilmente acorrentar-te a um passado de dores
Inutilmente.
Vieste - tua sombra sem carne me acompanha
Como o tédio da última volúpia.
Vieste - e contigo um vago desejo de uma volta inútil
E contigo uma vaga saudade…
És qualquer coisa que ficará na minha vida sem termo
Como uma aflição para todas as minhas alegrias.
Tu és a agonia de todas as posses
És o frio de toda a nudez
E vã será toda a tentativa de me libertar da tua lembrança.

Mas quando cessar em mim todo o desejo de vida
E quando eu não for mais que o cansaço da minha caminhada pela areia
Eu sinto que me terás como me tinhas no passado -
Sinto que me virás oferecer a água mentirosa
Da miragem.
Talvez num ímpeto eu prefira colar a boca à areia estéril
Num desejo de aniquilamento.
Mas não. Embora sabendo que nunca alcançarei a tua imagem
Que estará suspensa e me prometerá água
Embora sabendo que tu és a que foge
Eu me arrastarei para os teus braços.


Vinicius de Moraes 

Sem nada de meu



Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.

Rui Knopfli







Certeza



Se é real a luz branca 
desta lâmpada, real 
a mão que escreve, são reais 
os olhos que olham o escrito? 

Duma palavra à outra 
o que digo desvanece-se. 
Sei que estou vivo 
entre dois parênteses. 

Octavio Paz


Complicação

As ondas indo, as ondas vindo - as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.


Mário Dionísio 


Não quero ser outra


Pintei os cabelos de castanho
tirei o terrível vermelho
percebi o erro tamanho
ao tentar ser quem dá medo

voltei a ser a mesma
mulher despreocupada
encontrei no meu íntimo
a melhor das jornadas

não quero ser outra
magoar quem me magoa
sou eu e nada me tira
a coragem de ser boa

nunca quis o mal de ninguém
nem mesmo de quem me maltrata
não quero ser um refém
daquilo que é cruel e que mata

quero respirar o ar puro
encontrar sentido no mar
sei que assim me curo
dessa doença de amar.


Dhenova Poeta (Andréa Iunes)


O que se foi



O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?


Ferreira Gullar


O que me dói

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão ...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.


Fernando Pessoa
(in Cancioneiro)

Soneto do Amigo



Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...


Vinicius de Moraes


Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Manoel de Barros

Sobre o amor

Sabe penso que amor é uma concha sem pérola. É, no amor não dá tempo de ferir ao ponto que a mágoa se transforme numa ferida, o grão de areia dolorido, passa bem rápido e vai embora. Se não for assim não é amor.... o amor é uma concha vazia dessas onde cabe o mar, mas não cabe mágoa. O vazio de um infinito inteiro para recomeçar a jornada.

(Cristhina Rangel)

Os Animais Carnívoros


Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.


Herberto Helder

A Manhã do Poema


Amanhece,
tônus de tez fresca,
sem o friso das rugas
apenas o som da hora

rosto sem esperas,
ou verdugos.

Que ninguém ouse atar os urros,
do ventre que vibra,
até o avesso,
para acordar um olhar !

Amanhece,
entre as cavas dos poros.
e em que pese a pausa,
de palma e poema,

Haja a voz delirante,
ate alguém bisbilhotar !

A vida valsa com o verso arfante,

Então açoite todos os dilemas
e encontre um coração para morar !


Nina Araújo

126

Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o crepúsculo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.

Ricardo Reis

Mulher Cúbica

arte de Pablo Picasso (Mulher Jovem)


Ela dobra esquinas e cacos
Pontiagudos
De vidro
Com os olhos.
Caminha
À procura dela
Por ruas que a incompreensão
Sedimenta e escancara
Apáticas, Sádicas,
Portas e janelas
Na cara.
Ela é ovelha negra perdida
Em meio a um rebanho
De carneirinhos de nuvens alados
E lobos disfarçados
Querendo sexo
Sobre leitos armados
Com as pontas de punhais
De seus complexos.
Por isso, esconde-se
Num quarto escuro
De lua
E a solidão trancafia a porta
Com sensações confusas.
Delas saltam no silêncio
Palavras que coaxam, piam, ladrem...
Um vazio insondável,
Uma melancolia infinda.
Na face, na lâmina 
Dos espelhos paralelos,
No olho mágico,
Ela é só
Uma poetisa
Que não se encontrou
Ainda.


Valdeci Almeida

A Luis Antonio de Villena

Umas centenas de livros, uma casa na praia,
móveis que o coração foi envelhecendo
e que tornaram o mundo hospitaleiro,
fetiches de alguma viagem, talismãs
que nada puderam contra o mundo,
um punhado de cartas de uns quantos amigos,
uma ou outra carta secreta, inconfessável,
papéis ordenados, papéis sem sentido
medicamentos, quadros, roupa usada
e roupa por usar, várias contas de banco,
uma viúva aturdida, um automóvel,
uma amante aturdida, um pente com cabelos,
uma caligrafia que perdeu a firmeza da sua mão,
um odor familiar a caminho do nada.
Este é o inventário dos bens de um morto,
e como todo o censo e todas as listas
supõe um exercício de modéstia.
As nossas coisas, que às vezes pareciam proteger-nos,
habitar-nos o mundo que habitávamos,
num relance se convertem
num prolixo catálogo de absurdos,
rotas apagadas de um mapa inexistente,
pássaros dissecados cujos olhos
não sabem recordar um céu que já ardeu.


Carlos Marzal  (tradução de Nuno Dempster)


this is the kind of thing you see



Love blurs your vision; but after it recedes, you can see more clearly than ever. It’s like the tide going out, revealing whatever’s been thrown away and sunk: broken bottles, old gloves, rusting pop cans, nibbled fishbodies, bones. This is the kind of thing you see if you sit in the darkness with open eyes, not knowing the future. The ruin you’ve made.


(Margaret Atwood in "Cat's Eye")

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte. 
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.


Cecília Meireles

Nada mudou

Nada mudou
podes vir
de novo e com
o mesmo nome.

Em qualquer lugar
a distância para a morte
é a mesma.

Desigual é apenas
a vida que perdemos…


Vítor Matos e Sá

Domador


Andei a colher alguns bons motivos
de amor colhe flor plantador colhe rosa
nos campos férteis de um recomeço
Andei a sentir o espírito travesso

Estive inclinado a riscar uma prosa
plantaflor colhe amor colhedor lenitivo
que tivesse um enfoque mais positivo
Estive a buscar a essência poderosa

Andei a esgueirar de qualquer tropeço
de medo arremedo arredor arremesso
em meio ao ciclone dessa rebordosa
Andei a tentar ser mais digno e altivo

Estive a pensar no valor de estar vivo
pensa amor sabedor pensador polvorosa
para relembrar o que sempre esqueço
Estive ocupado em pensar ao avesso

Assim descobri que a vida é curiosa
catamor cataflor catador e cativo
que basta um contato mais sensitivo
Andei a domar minha alma teimosa.


Wasil Sacharuk

Cacos de Vidro


Vou
desconstruir-me
e
reconstruir-me
tão infinitas vezes
até que um dia
seja absolutamente
impossível
me reconhecer...
E compreender-me será, como já é...
inconcebível.


Márcia Poesia de Sá.
A primeira vez que entrei num poema não fechei a porta. O poema apanhou tudo. Nunca mais pude sair.


(Vasco Gato)


A Forma Justa


Sei que seria possível construir o mundo justo 
As cidades poderiam ser claras e lavadas 
Pelo canto dos espaços e das fontes 
O céu o mar e a terra estão prontos 
A saciar a nossa fome do terrestre 
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia 
Cada dia a cada um a liberdade e o reino 
— Na concha na flor no homem e no fruto 
Se nada adoecer a própria forma é justa 
E no todo se integra como palavra em verso 
Sei que seria possível construir a forma justa 
De uma cidade humana que fosse 
Fiel à perfeição do universo 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo 



Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

Jornada

A medida que passa o tempo
diminuem as palavras
prolongam-se os silêncios
delimitam-se as estradas
estiradas nos pensamentos.
Já tão vagos os desejos
tão preguiçosos os planos
o futuro, barco incerto
onde as perdas ou os ganhos
só valem se muito perto
e as carências são poucas.
Mas há rosas no deserto
e voos em asas loucas...

Marisa Schmidt

As Palavras Interditas


Os navios existem e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios.  
Sem nenhum destino flutuam nas cidades, 
partem no vento, regressam nos rios.  

Na areia branca, onde o tempo começa, 
uma criança passa de costas para o mar. 
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.  
É preciso partir, é preciso ficar.  

Os hospitais cobrem-se de cinza. 
Ondas de sombra quebram nas esquinas. 
Amo-te... E abrem-se janelas 
mostrando a brancura das cortinas. 

As palavras que te envio são interditas 
até, meu amor, pelo halo das searas;  
se alguma regressasse, nem já reconhecia 
o teu nome nas minhas curvas claras. 

Dói-me esta água, este ar que se respira,  
dói-me esta solidão de pedra escura, 
e estas mãos noturnas onde aperto  
os meus dias quebrados na cintura.  

E a noite cresce apaixonadamente. 
Nas suas margens vivas, desenhadas,  
cada homem tem apenas para dar 
um horizonte de cidades bombardeadas. 



Eugénio de Andrade


Sentimento do Tempo

Os sapatos envelheceram depois de usados 
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados 
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés. 
As coisas estavam mortas, muito mortas, 
Mas a vida tem outras portas, muitas portas. 
Na terra, três ossos repousavam 
Mas há imagens que não podia explicar; me ultrapassavam. 
As lágrimas correndo podiam incomodar 
Mas ninguém sabe dizer porque deve passar 
Como um afogado entre as correntes do mar. 
Ninguém sabe dizer porque o eco embrulha a voz 
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós. 
Fizeram muitas vezes minha fotografia 
Mas meus pais não souberam impedir 
Que o sorriso se mudasse em zombaria 
E um coração ardente em coisa fria. 
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro 
Onde só existe a cal de um muro. 
Costumo ver nos guindastes do porto 
O esqueleto funesto de outro mundo morto 
Mas não sei ver coisas mais simples como a água. 
Fugi e encontrei a cruz do assassinado 
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado, 
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso. 
Meus pássaros caíam sem sentidos. 
No olhar do gato passavam muitas horas 
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora. 
Não sabia que o tempo cava na face 
Um caminho escuro, onde a formiga passe 
Lutando com a folha. 
O tempo é meu disfarce. 


Paulo Mendes Campos (in Antologia Poética)


Quero apenas


Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.
Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

Olga Savary