Despedidas
Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm os que amando tudo o que perderam
já não mentem.
Affonso Romano de Sant'Anna
Mar sonoro
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Não se chora apenas
Não se chora apenas
com a noite estendida sobre o sono dos homens,
com o silêncio pulsando em poros de imperceptíveis silvos
trêmulos, sussurrantes, urdindo a trama de inúmeros aléns.
Não se chora apenas
com a solidão concentrada em firmes bosques,
num chão de sombras por onde as lágrimas se embebam,
e nem a palidez das estrelas seja um breve indício de presença.
Não se chora sempre de cara virada para um tranquilo muro.
Nem sempre se pode dizer: é da ausência, é da noite,
é do silêncio, é do deserto...
da planície vazia, do mar fatigante, do assombro enorme da treva...
Chora-se em pleno dia, à luz do sol, diante do mundo povoado.
Caem lágrimas em pedras quentes, com borboletas, flores, gorjeios,
nuvens brancas, moças cantando, janelas abertas, ruas alegres.
Alguma coisa em nós é maior e mais grave que as expansões da vida,
alguma coisa é maior que o candelabro azul do dia
com flores, pássaros, canções entrelaçados nos seus doze braços.
Nem é de nós, nem nos pertence.
Sentimos que é da terra e dos homens,
da desordem do tempo,
da espada das paixões sobre o peito do sonho.
Cecília Meireles
com a noite estendida sobre o sono dos homens,
com o silêncio pulsando em poros de imperceptíveis silvos
trêmulos, sussurrantes, urdindo a trama de inúmeros aléns.
Não se chora apenas
com a solidão concentrada em firmes bosques,
num chão de sombras por onde as lágrimas se embebam,
e nem a palidez das estrelas seja um breve indício de presença.
Não se chora sempre de cara virada para um tranquilo muro.
Nem sempre se pode dizer: é da ausência, é da noite,
é do silêncio, é do deserto...
da planície vazia, do mar fatigante, do assombro enorme da treva...
Chora-se em pleno dia, à luz do sol, diante do mundo povoado.
Caem lágrimas em pedras quentes, com borboletas, flores, gorjeios,
nuvens brancas, moças cantando, janelas abertas, ruas alegres.
Alguma coisa em nós é maior e mais grave que as expansões da vida,
alguma coisa é maior que o candelabro azul do dia
com flores, pássaros, canções entrelaçados nos seus doze braços.
Nem é de nós, nem nos pertence.
Sentimos que é da terra e dos homens,
da desordem do tempo,
da espada das paixões sobre o peito do sonho.
Cecília Meireles
À mesa do café
O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui
à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer segredamos
mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo.
José Tolentino Mendonça
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui
à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer segredamos
mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo.
José Tolentino Mendonça
Alento
Quando mais nada houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.
E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.
Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.
Caio Fernando Abreu
Biografia
Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas,
e não serei eu.
Repetirás o que ouviste,
o que leste de mim, e mostrarás meu retrato,
e nada disso serei eu.
Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias,
e continuarei ausente.
Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
isso seria eu.
Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente.
Como me poderão encontrar?
Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, segundo o giro da luz,
nós mesmos nos procuramos.
E por entre as circunstâncias fluímos,
leves e livres como a cascata pelas pedras.
Que mortal nos poderia prender?
(Cecília Meireles)
De Longe Te Hei-de Amar
De longe te hei-de amar
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.
Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.
Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?
E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.
(Cecília Meireles)
Lasca Inútil
Eu apoiei o braço na mesinha do microondas. E arranquei sem querer a tira de madeira.
Busquei colar, mas faltava um pedaço ínfimo, para reconstituir integralmente a peça. A lasquinha inútil, que não enxergava onde estava, era a responsável pela liga. Vasculhei o chão com as mãos, e nada.
Fiquei me encarando no reflexo do microondas, como se procurasse um rosto que não o meu.
As relações de amor são assim: perdem-se por uma lasca.
É algo que nenhum dos dois percebeu como importante, mas que fará a maior falta para encaixar as partes das personalidades. É algo desprovido de valor isoladamente, só que conservava intacta a superfície e a promessa de uma vida conjunta.
As duas extremidades apresentam uma fissura irremediável. Quem diria que uma lasca fosse quebrar o móvel? Uma lasquinha boba, uma lasquinha de ralos centímetros.
A lasca é a construção da destruição, é a fabricação do vazio. Lasca é um erro que não existia no começo do romance, é um atrito, um desgaste, uma falha da soberba dos movimentos. É pensar que conquistou a pessoa e, desse jeito, perdê-la definitivamente – esquece que ela ainda aguarda alguma surpresa e que a mesinha não é de ferro. É acreditar que ela sempre estará ali segurando o microondas ou as expectativas. É o que deixou de ser dito por achar que haveria tempo de sobra. É o que deixou de ser sentido por achar que poderia ser feito no dia seguinte. A paciência é maravilhosa na solidão, e perversa na vida a dois.
A lasca é o tarde demais: a fissura, a falta de uma sobra. É a roldana de um poço fechado, é a maçaneta que cai ao abrir a porta, é a aldrava que não gira quando a janela pede vento.
O amor engasga, a fé engasga, a esperança engasga. É a separação por confiar que nada seria capaz de separar o casal.
A lasca é o egoísmo de querer cuidar somente de si e realizar os próprios sonhos enquanto o outro espera. Não há maior egoísmo do que fazer o outro esperar resolvermos os nossos problemas ou ambições. Ou se resolve junto, ou a ruptura virá impiedosamente.
A maior parte dos casais confunde o eterno com o imutável. Imutável é a surdez do tédio, a monotonia de não sair do lugar. Eterno é viver mudando para nunca cansar de amar.
Não visualizava a lasca porque ela havia entrado na pele de minha mão. A lasca é uma farpa que entra na carne dos relacionamentos. E machuca com a violência do vidro partido e jamais refeito.
Fabrício Carpinejar (publicado no jornal Zero Hora)
O tamanho da gente
O homem acha o Cosmos infinitamente grande
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural...
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho...
(Mario Quintana)
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural...
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho...
(Mario Quintana)
Falsa Imagem
Se te disserem que sou dura - Mentem!
Eles não sabem desses meus colchões de nuvens
Não sabem da mansidão com que me aconchego à tua imagem
Eles não sabem a doçura dos meus beijos
Não sabem da minha pele em flor
Não sabem desse amor que lhe guardo
Se me veem fria feita estátua
É porquê não supõem
Que por detrás da minha face pálida
Há uma paixão indisfarçável
E que me dissipo feito brisa
Para alcançá-lo de forma que me sinta
Perdida nesse vento que toca seu cabelo
E que por desespero, ou desesperança
Fico a remoer como criança
Um plano mirabolante para tê-lo
E em desassossego gemo íntima e estática
Pra que não percebam os calafrios
De amor ou quase morte que me tomam
Ou calada, quieta em meu canto repito que te amo.
Cristhina Rangel
Do sonho
O dia acordou.
Levantou-se na ponta dos pés
e viu o mundo
ainda deitado com os sonhos
e encantações da noite.
Subiu aos montes,
deslizou pelas colinas
e escorreu para a cidade
apressado.
Apagou os candeeiros das ruas
esganou
sombras escondidas nos pátios e nas esquinas,
e depois de repartir pelos humanos
angústias e problemas
encarregou-os de o levar até ao fim.
Depois deu pela minha ausência
(estava ainda no meio do sonho
a negociar uma felicidade),
abriu a minha janela fechada
e com todo o seu peso caiu sobre mim
interrompendo as negociações.
Kiki Dimoulá
Levantou-se na ponta dos pés
e viu o mundo
ainda deitado com os sonhos
e encantações da noite.
Subiu aos montes,
deslizou pelas colinas
e escorreu para a cidade
apressado.
Apagou os candeeiros das ruas
esganou
sombras escondidas nos pátios e nas esquinas,
e depois de repartir pelos humanos
angústias e problemas
encarregou-os de o levar até ao fim.
Depois deu pela minha ausência
(estava ainda no meio do sonho
a negociar uma felicidade),
abriu a minha janela fechada
e com todo o seu peso caiu sobre mim
interrompendo as negociações.
Kiki Dimoulá
Sampa
São Paulo quando aflora em olhos poéticos
é porta
janela: descoberta;
é a pétala que acena no meio do concreto,
o recosto para o sonho do alado retirante,
rap incendiando o trânsito
abraço na sombra de um vento que passa
é a estátua em movimento digerindo aplausos
o sorriso compartilhado na aquarela de rostos e monumentos
pássaro de fogo riscando na noite seu canto
estrela que aceita o flerte das manhãs com seus sotaques variados
São Paulo é palco de almas
liberdade que tatua suas cores vivas
em cada muro que acolhe o grito e a luta de seu povo
mar de esperança que seduz com suas vagas.
Rogério Germani
é porta
janela: descoberta;
é a pétala que acena no meio do concreto,
o recosto para o sonho do alado retirante,
rap incendiando o trânsito
abraço na sombra de um vento que passa
é a estátua em movimento digerindo aplausos
o sorriso compartilhado na aquarela de rostos e monumentos
pássaro de fogo riscando na noite seu canto
estrela que aceita o flerte das manhãs com seus sotaques variados
São Paulo é palco de almas
liberdade que tatua suas cores vivas
em cada muro que acolhe o grito e a luta de seu povo
mar de esperança que seduz com suas vagas.
Rogério Germani
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar
(Daniel Faria)
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar
(Daniel Faria)
I am not yours
I am not yours, not lost in you,
Not lost, although I long to be
Lost as a candle lit at noon,
Lost as a snowflake in the sea.
You love me, and I find you still
A spirit beautiful and bright,
Yet I am I, who long to be
Lost as a light is lost in light.
Oh plunge me deep in love – put out
My senses, leave me deaf and blind,
Swept by the tempest of your love,
A taper in a rushing wind.
(Sara Teasdale)
Eu não sou tua, não me perco em você,
Não me perco, embora vá desejar
Perder-me como uma vela acesa ao meio-dia,
Perder-me como um floco de neve no mar.
Você me ama, e eu te acho ainda
Um espírito belo e brilhante,
Mas sou eu, quem vai desejar
Perder-me como uma luz na luz radiante.
Ah, mergulhe-me fundo no amor – apague
Meus sentidos, deixe-me surda e sem visão,
Varrida pela tempestade do seu amor,
Uma vela em meio a um furacão.
Not lost, although I long to be
Lost as a candle lit at noon,
Lost as a snowflake in the sea.
You love me, and I find you still
A spirit beautiful and bright,
Yet I am I, who long to be
Lost as a light is lost in light.
Oh plunge me deep in love – put out
My senses, leave me deaf and blind,
Swept by the tempest of your love,
A taper in a rushing wind.
(Sara Teasdale)
Eu não sou tua, não me perco em você,
Não me perco, embora vá desejar
Perder-me como uma vela acesa ao meio-dia,
Perder-me como um floco de neve no mar.
Você me ama, e eu te acho ainda
Um espírito belo e brilhante,
Mas sou eu, quem vai desejar
Perder-me como uma luz na luz radiante.
Ah, mergulhe-me fundo no amor – apague
Meus sentidos, deixe-me surda e sem visão,
Varrida pela tempestade do seu amor,
Uma vela em meio a um furacão.
Vejo o teu rosto quotidiano
Vejo o teu rosto quotidiano
como se a penumbra
tivesse olhos
ou como se as raízes pudessem ver
através da sombra
Estou no húmus da casa
no húmus do silêncio
e vejo através das vértebras
de uma luz subterrânea
o teu rosto de terra
Há sempre muros e muros
e o nevoeiro dos dias
mas tu és a chama
sobre a mesa posta
Vem a noite e as serpentes
envolvem as lâmpadas
e reduzem o espaço
Cada um procura
na palma das mãos
os grãos verdes do mar
O monstro vago da noite
desfoca o nosso olhar
e os joelhos vacilam
O teu rosto persiste
como se o teu torso fosse
o tronco de uma árvore
(Antonio Ramos Rosa)
como se a penumbra
tivesse olhos
ou como se as raízes pudessem ver
através da sombra
Estou no húmus da casa
no húmus do silêncio
e vejo através das vértebras
de uma luz subterrânea
o teu rosto de terra
Há sempre muros e muros
e o nevoeiro dos dias
mas tu és a chama
sobre a mesa posta
Vem a noite e as serpentes
envolvem as lâmpadas
e reduzem o espaço
Cada um procura
na palma das mãos
os grãos verdes do mar
O monstro vago da noite
desfoca o nosso olhar
e os joelhos vacilam
O teu rosto persiste
como se o teu torso fosse
o tronco de uma árvore
(Antonio Ramos Rosa)
Centelha
Cá no meu peito onde antes habitava o amor, Izabela,
hoje há apenas murmúrios insignificantes, e lágrimas
A vida não é mais qual antes...
O amor morreu! - E com ele os sorrisos limpos -
Sinto ter sido não apenas aqui dentro;
Assim que Deus se foi este não aguentou, feneceu.
Sim, pasme, o amor não sobreviveu!
O que resta vivo dele ainda é a paixão
com um sei lá quanto de ternura e belas palavras!
Mas veja Izabela, as palavras também já agonizam
E não tarda para que morram...
Dos velhos pensadores sobra o eco em grunhidos
E os novos homens são velhos discípulos
Os únicos que não morrem nesta vida Izabela: os discípulos.
Ah! Estes são fiéis, e imortais!
Eles, em seus delírios poéticos...
Eles, e seus conceitos herméticos
Eles e os seus pré-conceitos éticos.
A roda não mais roda a roda
A quadra não enquadra...
Enquanto estas criaturas teimam fermentar as raízes
Insanos vivem... A recriar, reescrever, reeditar...
Os iconólatras e os Iconoclastas refugiam-se no submundo;
E o amor morto Izabela, é o fantasma mais digno
Do sagrado - e do profano! -
(Suzana Rabelo)
hoje há apenas murmúrios insignificantes, e lágrimas
A vida não é mais qual antes...
O amor morreu! - E com ele os sorrisos limpos -
Sinto ter sido não apenas aqui dentro;
Assim que Deus se foi este não aguentou, feneceu.
Sim, pasme, o amor não sobreviveu!
O que resta vivo dele ainda é a paixão
com um sei lá quanto de ternura e belas palavras!
Mas veja Izabela, as palavras também já agonizam
E não tarda para que morram...
Dos velhos pensadores sobra o eco em grunhidos
E os novos homens são velhos discípulos
Os únicos que não morrem nesta vida Izabela: os discípulos.
Ah! Estes são fiéis, e imortais!
Eles, em seus delírios poéticos...
Eles, e seus conceitos herméticos
Eles e os seus pré-conceitos éticos.
A roda não mais roda a roda
A quadra não enquadra...
Enquanto estas criaturas teimam fermentar as raízes
Insanos vivem... A recriar, reescrever, reeditar...
Os iconólatras e os Iconoclastas refugiam-se no submundo;
E o amor morto Izabela, é o fantasma mais digno
Do sagrado - e do profano! -
(Suzana Rabelo)
Shakespeare
Shakespeare criou o mundo em sete dias.
No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma.
No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos
E os restantes sentimentos –
Que deu a Hamlet, a Júlio César, a António, a Cleópatra e a Ofélia,
A Otelo e a outros,
Para que fossem seus donos, eles e os seus descendentes,
Pelos séculos dos séculos.
No terceiro dia juntou todos os homens
E ensinou-lhes os sabores:
O sabor da felicidade, do amor, do desespero
O sabor ciúme, da glória e assim por diante,
Até esgotar todos os sabores.
Por esse tempo chegaram também uns indivíduos
Que se tinham atrasado.
O criador afagou-lhes compassivo a cabeça,
E disse que só lhes restava
Tornarem-se críticos literários
E contestarem a sua obra.
O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso.
Soltou os palhaços
Para darem cambalhotas,
E deixou os reis, os imperadores
E outros desgraçados divertirem-se.
Ao sexto dia resolveu alguns problemas administrativos:
Forjou uma tempestade,
E ensinou ao rei lear
O modo de usar uma coroa de palha.
Com os restos da criação do mundo
Fez o Ricardo III.
Ao sétimo dia viu se havia algo mais a fazer.
Os diretores de teatro já tinham coberto a terra de cartazes,
E Shakespeare concluiu que depois de tanto esforço
Também ele merecia assistir ao espetáculo.
Mas antes disso, esfalfado de todo,
Foi morrer um pouco.
Marin Sorescu
No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma.
No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos
E os restantes sentimentos –
Que deu a Hamlet, a Júlio César, a António, a Cleópatra e a Ofélia,
A Otelo e a outros,
Para que fossem seus donos, eles e os seus descendentes,
Pelos séculos dos séculos.
No terceiro dia juntou todos os homens
E ensinou-lhes os sabores:
O sabor da felicidade, do amor, do desespero
O sabor ciúme, da glória e assim por diante,
Até esgotar todos os sabores.
Por esse tempo chegaram também uns indivíduos
Que se tinham atrasado.
O criador afagou-lhes compassivo a cabeça,
E disse que só lhes restava
Tornarem-se críticos literários
E contestarem a sua obra.
O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso.
Soltou os palhaços
Para darem cambalhotas,
E deixou os reis, os imperadores
E outros desgraçados divertirem-se.
Ao sexto dia resolveu alguns problemas administrativos:
Forjou uma tempestade,
E ensinou ao rei lear
O modo de usar uma coroa de palha.
Com os restos da criação do mundo
Fez o Ricardo III.
Ao sétimo dia viu se havia algo mais a fazer.
Os diretores de teatro já tinham coberto a terra de cartazes,
E Shakespeare concluiu que depois de tanto esforço
Também ele merecia assistir ao espetáculo.
Mas antes disso, esfalfado de todo,
Foi morrer um pouco.
Marin Sorescu
Alma
Que te devolvam a alma
Homem do nosso tempo.
Pede isso a Deus
Ou às coisas que acreditas
À terra, às águas, à noite
Desmedida,
Uiva se quiseres,
Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa,
Pede à mulher
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a tua boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida
Escancara a tua boca
Regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA.
Hilda Hilst
Homem do nosso tempo.
Pede isso a Deus
Ou às coisas que acreditas
À terra, às águas, à noite
Desmedida,
Uiva se quiseres,
Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa,
Pede à mulher
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a tua boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida
Escancara a tua boca
Regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA.
Hilda Hilst
Último brinde
Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz…
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada veem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
Anna Akhmatova (tradução de Rubens Figueiredo)
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz…
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada veem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
Anna Akhmatova (tradução de Rubens Figueiredo)
Rubra
Acho que tenho atração por naufrágios
por adágios e por pílulas de utopia
Desejo o poema arrebatado!
irado e alucinado de endorfinas
Queria escrever o amor
mas hoje me parece impossível
ele desbota e pinga sem parar!
Emparedada na linha, só a vírgula
e essa maciça corrupção verbal
Subjugo ao caos os pratos frios
repudio, regurgito e me irrito!
Escrevo então um livro de ossos
depois o afogo num lago qualquer.
Também sei pintar desprezo
e presas a ele, voam as manhãs...
Uma doce condenação ao silêncio
onde a lâmina dança
entre a aorta e a jugular!
Pulsa! jorra, molha e seca
num vermelho vivo quase morto
Beirando o espetacular!
Márcia Poesia de Sá - 2014
Zona Hermética
De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas. O poeta
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo
Reluz com a sua obra. Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco... E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
Manoel de Barros
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas. O poeta
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo
Reluz com a sua obra. Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco... E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
Manoel de Barros
Uma importância danada
Não te arrependas de nada.
Um verso está sempre certo
mesmo quando errado. A verdade
também, mesmo quando dói
ou fere ou parece inoportuna.
A verdade nunca é inoportuna.
O teu inconformismo é o preço
da nossa libertação e teus versos
florescem no coração do povo.
Não. Não te arrependas de nada.
Não torças o verso, não obrigues
a palavra: um poeta está
sempre certo. Não permitas que o óxido
dos políticos entre na lâmina
dos teus versos. Um poeta não se vende,
não se compra, não se emenda.
A um poeta corta-se-lhe a cabeça.
E uma cabeça cortada não dói, mas
tem uma importância danada.
Rui Knopfli
Um verso está sempre certo
mesmo quando errado. A verdade
também, mesmo quando dói
ou fere ou parece inoportuna.
A verdade nunca é inoportuna.
O teu inconformismo é o preço
da nossa libertação e teus versos
florescem no coração do povo.
Não. Não te arrependas de nada.
Não torças o verso, não obrigues
a palavra: um poeta está
sempre certo. Não permitas que o óxido
dos políticos entre na lâmina
dos teus versos. Um poeta não se vende,
não se compra, não se emenda.
A um poeta corta-se-lhe a cabeça.
E uma cabeça cortada não dói, mas
tem uma importância danada.
Rui Knopfli
The Hollow Men
I
We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar
Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;
Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us -- if at all -- not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.
[…]
IV
The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms
In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river
Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death's twilight kingdom
The hope only
Of empty men.
[…]
This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.
T.S. Eliot
...
Os Homens Ocos
I
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussuramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sobra sem cor,
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
[...]
IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos esquivos à fala
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.
[...]
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um gemido.
T. S. Eliot. “The hollow men”. Em: Obra completa. Vol. I. – Poesia. Tradução de Ivan Junqueira
We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar
Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;
Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us -- if at all -- not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.
[…]
IV
The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms
In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river
Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death's twilight kingdom
The hope only
Of empty men.
[…]
This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.
T.S. Eliot
...
Os Homens Ocos
I
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussuramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sobra sem cor,
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
[...]
IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos esquivos à fala
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.
[...]
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um gemido.
T. S. Eliot. “The hollow men”. Em: Obra completa. Vol. I. – Poesia. Tradução de Ivan Junqueira
Pelo sonho é que vamos
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama
Sedução
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
Adélia Prado
Mar
I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exaltação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
Sophia de Mello Breyner
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exaltação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
Sophia de Mello Breyner
O medo da travessia das ruas
(ao meu pai)
Ouço vozes
as mesmas que ouvias
revisitando passados
de herois e algozes
e das bruxarias
tuas mãos sem segredos
seguram as minhas
no dia abençoado
por um sol de poesia
sinto ainda teu abraço
atávico laço
doce e apertado
amor desvelado
sinto aquele medo
o mesmo que sentias
nos ciclos da lua
da travessia das ruas
na rota dos desenredos
talvez seja cedo
para perfurar o espaço
riscar o tempo num traço
e ter contigo outro dia.
Wasil Sacharuk
Ouço vozes
as mesmas que ouvias
revisitando passados
de herois e algozes
e das bruxarias
tuas mãos sem segredos
seguram as minhas
no dia abençoado
por um sol de poesia
sinto ainda teu abraço
atávico laço
doce e apertado
amor desvelado
sinto aquele medo
o mesmo que sentias
nos ciclos da lua
da travessia das ruas
na rota dos desenredos
talvez seja cedo
para perfurar o espaço
riscar o tempo num traço
e ter contigo outro dia.
Wasil Sacharuk
Prefiro
Prefiro cinema.
Prefiro gatos.
Prefiro-me a gostar dos homens
em vez de amar a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados a cada dia.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países consquistadores.
Prefiro ter objecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fada dos Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do Ser Ter a sua razão.
Wislawa Szymborska
Prefiro gatos.
Prefiro-me a gostar dos homens
em vez de amar a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados a cada dia.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países consquistadores.
Prefiro ter objecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fada dos Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do Ser Ter a sua razão.
Wislawa Szymborska
De baunilha e mirto
Ao ver as mãos inertes do moinho
pôs-se a imaginar o quão bom seria
um vento liso de promessas breves
fizesse ninho em cada um dos dedos
Solicitou serviço ao senhor das horas
- que facilita o caminhar das coisas -
mandasse um sopro em seta sussurrado
em notas altas de baunilha e mirto
Envolto pelo leve aroma quixotesco
o sopro, engravidando ventanias,
beijou os nãos que assenhoram o tempo
sob um casto campo de rubras tulipas
Lena Ferreira
pôs-se a imaginar o quão bom seria
um vento liso de promessas breves
fizesse ninho em cada um dos dedos
Solicitou serviço ao senhor das horas
- que facilita o caminhar das coisas -
mandasse um sopro em seta sussurrado
em notas altas de baunilha e mirto
Envolto pelo leve aroma quixotesco
o sopro, engravidando ventanias,
beijou os nãos que assenhoram o tempo
sob um casto campo de rubras tulipas
Lena Ferreira
Testamento de Ismael Nery
Esperei até hoje para que vos me descobrísseis. Quis dar-vos o prazer de vos sentir crescer. A minha excessiva proximidade impediu, porém, que me olhásseis como realmente sou. Contar-vos-ei agora a minha história, e descreverei o meu físico para que disto tireis o proveito necessário e justifiqueis a minha e a vossa existência.
Pertenço a esta espécie de homens que não constroem nem destroem, mas que explicam toda a construção e toda a destruição. Eu sou um predestinado, como foram também, meus predecessores e como serão os meus sucessores. Através dos séculos deveremos desenvolver o gene que no princípio da vida recebemos. Nós somos os grandes sacrificados que sofrem por todo o erro e atraso dos homens. Somos os homens que amam e consolam: não somos amados nem consolados. Se não fossemos portadores do germe de que vos falei, há muito que a nossa raça teria acabado violentamente. Quando tudo tiver atingido seu fim, aí começara nossa visível utilidade. O homem agora distribui suas esperanças na arte e na ciência. Chegará um tempo em que a arte e a ciência não bastarão mais para suprir a ânsia crescente de compreensão que a humanidade tem. Toda a arte resume-se em suprir as necessidades científicas, toda a ciência resume-se num estudo do equilíbrio da vida e numa tentativa formidável de conhecimento da matéria da vida. Ah! Se nós nos pudéssemos conhecer, ou se, pelo menos, pudéssemos chegar a conhecer um outro homem! A solidão do homem é o que mais o apavora na vida. Os homens se olham como desconhecidos com as mesmas roupas. Vivemos desconfiados – tudo fazemos para garantir o que possuímos, com medo dos ladrões de toda espécie que vemos em todos os homens.
Inventamos o direito e a polícia; pomos em nossas casas grades de ferro e portas de bronze. O homem se esquece de que o que possui moralmente não é acessível aos ladrões, mas aumenta seu desassossego comas suas posses fiscais, esquecendo a ciência por ele já conquistada. Para que guardais uma mulher que não é vossa? Para que vos bateis por uma ideia que não sentis? Para que duas casas com um só corpo? Para que o sustento de uma vida sem consolo? Ah, a esperança! Que é a esperança? Tenhamos esperança – aumentamos a esperança – eu em Deus e vós em mim e em meus sucessores. Um conselho vos dou, com a autoridade que me conferem as rugas de minha testa, o meu olhar febril e minhas mãos mutiladas: não façais o que vos causar nojo, mesmo que tal nojo seja mínimo. Orientai vossa ciência para conseguirdes um aumento micrométrico de vossas sensibilidades. Já reparastes, meus irmãos, que vivemos num mundo em que existem soldados, juízes e prostitutas? Onde se encarcera um homem pelo depoimento da testemunha, ou se enforca um outro por insultar um líder? Existem testemunhas? Existem líderes? Que é a vontade do povo? Que é o bem geral? Já fizestes, com a ciência que tendes, a psicologia de um chefe? Por que não acreditar em Deus, quando acreditais até nos regimes políticos?
A humanidade, como as plantas, precisa de estrume. Dos nossos corpos renasceram aqueles corpos gloriosos que encerram as almas dos poetas, aquele de que nós já trazemos o germe. Tudo foi feito no princípio – porém tudo só existirá realmente em tempos diversos. Os poetas serão os últimos homens a existir, porque neles é que se manifesta a vocação transcendente do homem.
Todo o homem recita um poema na véspera de sua morte. A humanidade recitará também o seu nas vésperas da sua, pela boca de todos os homens que nesse tempo serão poetas.
– “Mirabili Dominus in opera ens”. (Novembro – 1933)
Ismael Nery
então queres ser um escritor?
se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.
Charles Bukowski
(Tradução: Manuel A. Domingos)
A Miragem
Não direi que a tua visão desapareceu dos meus olhos sem vida
Nem que a tua presença se diluiu na névoa que veio.
Busquei inutilmente acorrentar-te a um passado de dores
Inutilmente.
Vieste - tua sombra sem carne me acompanha
Como o tédio da última volúpia.
Vieste - e contigo um vago desejo de uma volta inútil
E contigo uma vaga saudade…
És qualquer coisa que ficará na minha vida sem termo
Como uma aflição para todas as minhas alegrias.
Tu és a agonia de todas as posses
És o frio de toda a nudez
E vã será toda a tentativa de me libertar da tua lembrança.
Mas quando cessar em mim todo o desejo de vida
E quando eu não for mais que o cansaço da minha caminhada pela areia
Eu sinto que me terás como me tinhas no passado -
Sinto que me virás oferecer a água mentirosa
Da miragem.
Talvez num ímpeto eu prefira colar a boca à areia estéril
Num desejo de aniquilamento.
Mas não. Embora sabendo que nunca alcançarei a tua imagem
Que estará suspensa e me prometerá água
Embora sabendo que tu és a que foge
Eu me arrastarei para os teus braços.
Vinicius de Moraes
Sem nada de meu
Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.
Rui Knopfli
Certeza
Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?
Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.
Octavio Paz
Complicação
As ondas indo, as ondas vindo - as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.
Mário Dionísio
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.
Mário Dionísio
Não quero ser outra
Pintei os cabelos de castanho
tirei o terrível vermelho
percebi o erro tamanho
ao tentar ser quem dá medo
voltei a ser a mesma
mulher despreocupada
encontrei no meu íntimo
a melhor das jornadas
não quero ser outra
magoar quem me magoa
sou eu e nada me tira
a coragem de ser boa
nunca quis o mal de ninguém
nem mesmo de quem me maltrata
não quero ser um refém
daquilo que é cruel e que mata
quero respirar o ar puro
encontrar sentido no mar
sei que assim me curo
dessa doença de amar.
Dhenova Poeta (Andréa Iunes)
O que se foi
O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.
Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.
Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.
Então por que me faz
o coração bater tão forte?
Ferreira Gullar
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