O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão ...
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.
São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.
Fernando Pessoa
(in Cancioneiro)
Soneto do Amigo
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes
Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.
Manoel de Barros
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.
Manoel de Barros
Sobre o amor
Sabe penso que amor é uma concha sem pérola. É, no amor não dá tempo de ferir ao ponto que a mágoa se transforme numa ferida, o grão de areia dolorido, passa bem rápido e vai embora. Se não for assim não é amor.... o amor é uma concha vazia dessas onde cabe o mar, mas não cabe mágoa. O vazio de um infinito inteiro para recomeçar a jornada.
(Cristhina Rangel)
Os Animais Carnívoros
Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.
Herberto Helder
A Manhã do Poema
Amanhece,
tônus de tez fresca,
sem o friso das rugas
apenas o som da hora
rosto sem esperas,
ou verdugos.
Que ninguém ouse atar os urros,
do ventre que vibra,
até o avesso,
para acordar um olhar !
Amanhece,
entre as cavas dos poros.
e em que pese a pausa,
de palma e poema,
Haja a voz delirante,
ate alguém bisbilhotar !
A vida valsa com o verso arfante,
Então açoite todos os dilemas
e encontre um coração para morar !
Nina Araújo
126
Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o crepúsculo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.
Ricardo Reis
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o crepúsculo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.
Ricardo Reis
Mulher Cúbica
![]() |
| arte de Pablo Picasso (Mulher Jovem) |
Ela dobra esquinas e cacos
Pontiagudos
De vidro
Com os olhos.
Caminha
À procura dela
Por ruas que a incompreensão
Sedimenta e escancara
Apáticas, Sádicas,
Portas e janelas
Na cara.
Ela é ovelha negra perdida
Em meio a um rebanho
De carneirinhos de nuvens alados
E lobos disfarçados
Querendo sexo
Sobre leitos armados
Com as pontas de punhais
De seus complexos.
Por isso, esconde-se
Num quarto escuro
De lua
E a solidão trancafia a porta
Com sensações confusas.
Delas saltam no silêncio
Palavras que coaxam, piam, ladrem...
Um vazio insondável,
Uma melancolia infinda.
Na face, na lâmina
Dos espelhos paralelos,
No olho mágico,
Ela é só
Uma poetisa
Que não se encontrou
Ainda.
Valdeci Almeida
A Luis Antonio de Villena
Umas centenas de livros, uma casa na praia,
móveis que o coração foi envelhecendo
e que tornaram o mundo hospitaleiro,
fetiches de alguma viagem, talismãs
que nada puderam contra o mundo,
um punhado de cartas de uns quantos amigos,
uma ou outra carta secreta, inconfessável,
papéis ordenados, papéis sem sentido
medicamentos, quadros, roupa usada
e roupa por usar, várias contas de banco,
uma viúva aturdida, um automóvel,
uma amante aturdida, um pente com cabelos,
uma caligrafia que perdeu a firmeza da sua mão,
um odor familiar a caminho do nada.
Este é o inventário dos bens de um morto,
e como todo o censo e todas as listas
supõe um exercício de modéstia.
As nossas coisas, que às vezes pareciam proteger-nos,
habitar-nos o mundo que habitávamos,
num relance se convertem
num prolixo catálogo de absurdos,
rotas apagadas de um mapa inexistente,
pássaros dissecados cujos olhos
não sabem recordar um céu que já ardeu.
Carlos Marzal (tradução de Nuno Dempster)
móveis que o coração foi envelhecendo
e que tornaram o mundo hospitaleiro,
fetiches de alguma viagem, talismãs
que nada puderam contra o mundo,
um punhado de cartas de uns quantos amigos,
uma ou outra carta secreta, inconfessável,
papéis ordenados, papéis sem sentido
medicamentos, quadros, roupa usada
e roupa por usar, várias contas de banco,
uma viúva aturdida, um automóvel,
uma amante aturdida, um pente com cabelos,
uma caligrafia que perdeu a firmeza da sua mão,
um odor familiar a caminho do nada.
Este é o inventário dos bens de um morto,
e como todo o censo e todas as listas
supõe um exercício de modéstia.
As nossas coisas, que às vezes pareciam proteger-nos,
habitar-nos o mundo que habitávamos,
num relance se convertem
num prolixo catálogo de absurdos,
rotas apagadas de um mapa inexistente,
pássaros dissecados cujos olhos
não sabem recordar um céu que já ardeu.
Carlos Marzal (tradução de Nuno Dempster)
this is the kind of thing you see
Love blurs your vision; but after it recedes, you can see more clearly than ever. It’s like the tide going out, revealing whatever’s been thrown away and sunk: broken bottles, old gloves, rusting pop cans, nibbled fishbodies, bones. This is the kind of thing you see if you sit in the darkness with open eyes, not knowing the future. The ruin you’ve made.
(Margaret Atwood in "Cat's Eye")
Despedida
Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.
Cecília Meireles
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.
Cecília Meireles
Nada mudou
Nada mudou
podes vir
de novo e com
o mesmo nome.
Em qualquer lugar
a distância para a morte
é a mesma.
Desigual é apenas
a vida que perdemos…
Vítor Matos e Sá
podes vir
de novo e com
o mesmo nome.
Em qualquer lugar
a distância para a morte
é a mesma.
Desigual é apenas
a vida que perdemos…
Vítor Matos e Sá
Domador
Andei a colher alguns bons motivos
de amor colhe flor plantador colhe rosa
nos campos férteis de um recomeço
Andei a sentir o espírito travesso
Estive inclinado a riscar uma prosa
plantaflor colhe amor colhedor lenitivo
que tivesse um enfoque mais positivo
Estive a buscar a essência poderosa
Andei a esgueirar de qualquer tropeço
de medo arremedo arredor arremesso
em meio ao ciclone dessa rebordosa
Andei a tentar ser mais digno e altivo
Estive a pensar no valor de estar vivo
pensa amor sabedor pensador polvorosa
para relembrar o que sempre esqueço
Estive ocupado em pensar ao avesso
Assim descobri que a vida é curiosa
catamor cataflor catador e cativo
que basta um contato mais sensitivo
Andei a domar minha alma teimosa.
Wasil Sacharuk
Cacos de Vidro
Vou
desconstruir-me
e
reconstruir-me
tão infinitas vezes
até que um dia
seja absolutamente
impossível
me reconhecer...
E compreender-me será, como já é...
inconcebível.
Márcia Poesia de Sá.
A Forma Justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"
Jornada
A medida que passa o tempo
diminuem as palavras
prolongam-se os silêncios
delimitam-se as estradas
estiradas nos pensamentos.
Já tão vagos os desejos
tão preguiçosos os planos
o futuro, barco incerto
onde as perdas ou os ganhos
só valem se muito perto
e as carências são poucas.
Mas há rosas no deserto
e voos em asas loucas...
Marisa Schmidt
diminuem as palavras
prolongam-se os silêncios
delimitam-se as estradas
estiradas nos pensamentos.
Já tão vagos os desejos
tão preguiçosos os planos
o futuro, barco incerto
onde as perdas ou os ganhos
só valem se muito perto
e as carências são poucas.
Mas há rosas no deserto
e voos em asas loucas...
Marisa Schmidt
As Palavras Interditas
Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.
Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
Eugénio de Andrade
Sentimento do Tempo
Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar; me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer porque deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer porque o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
E um coração ardente em coisa fria.
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.
Paulo Mendes Campos (in Antologia Poética)
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar; me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer porque deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer porque o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
E um coração ardente em coisa fria.
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.
Paulo Mendes Campos (in Antologia Poética)
Quero apenas
Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.
Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.
Olga Savary
Aplauso de anjo (outras eras)
E são assim as ruelas que nos levam ao marco zero de Recife.
Estreitas, repletas de casarios esguios, com olhares horizontais no tempo
Ruas cravejadas de pedras, cinzas como os invernos
E sérias como a história...
Ruas que namoram as pontes
e que inevitavelmente conversam sobre os tempos
quando as noites abraçam o rio e as vermelhas luzes
queimam suas bordas, num dourado que se move.
Uma cor ou outra, ainda desbotada, se exibe e sorri um sorriso tímido
E são assim as ruelas que nos levam aos marcos zero de nós
Apertadas pelos anos, curvilíneas como o destino
e grávidas de contos e contos d'outras histórias
Passeiam por nós, em suas carruagens de vento.
E são assim as estradas por onde passam os anos
rodovias de experiências tantas, onde crescemos em quilômetros
mas onde também, nos distanciamos tanto de nós...
Vamos assim, pela vida caminhando como se fora possível
traçar uma reta infinda, quando a terra e a lua e o sol
todos os dias nos mostram a forma cíclica da vida.
E são assim as ruelas que nos levam ao marco zero do Recife.
enclausuradas entre prédios, calmas como a brisa que faz arabescos
decididas como a vida e seus infindos atropelos e acertos
seguem, e seguem sempre como um mar
E ao chegar, no marco zero da vida...
uma amplidão é reconstruída, numa praça onde uma bússola aponta!
lá, o vento é amigo do rei, a brisa dança balé, o rio gargalha preguiçoso
e neste lugar onde a vida se faz um marco!
Quem sabe nós também não possamos descansar de tanto asfalto!
recolorir o gris na retina empoeirada, umedecer o riso...
para sentarmos no chão, ouvir os dias e contar histórias
onde a beleza e a fé sejam as madrinhas do conto maior.
E das ruelas que antecedem o marco zero
se ouvirão aplausos e risos dos anjos d'outras eras.
Enquanto no horizonte, lentamente raia um novo sol.
Márcia Poesia de Sá
No Silêncio da Manhã
No silêncio da manhã que se inicia
eu elevo o pensamento, ensolarado
por um céu de brilho intenso azulejado
sob as nuvens que o vento acaricia
Logo sinto responder-me a energia
de um sol que me abraça com cuidado
de um sol zeloso que ia preocupado
com meu riso disfarçado de alegria
Retirando o ranço dos resmungos tristes
embalou a sombra do que não existe
enviando cordialmente ao passado
No silêncio da manhã, meu peito leve
pronuncia uma oração sincera e breve:
gratidão pelo presente renovado.
Lena Ferreira
eu elevo o pensamento, ensolarado
por um céu de brilho intenso azulejado
sob as nuvens que o vento acaricia
Logo sinto responder-me a energia
de um sol que me abraça com cuidado
de um sol zeloso que ia preocupado
com meu riso disfarçado de alegria
Retirando o ranço dos resmungos tristes
embalou a sombra do que não existe
enviando cordialmente ao passado
No silêncio da manhã, meu peito leve
pronuncia uma oração sincera e breve:
gratidão pelo presente renovado.
Lena Ferreira
Poesia Silva
Essa uma poesia Silva
Sem dilema
Sem problemas cardiovasculares
Sem problemas oculares
Sem lugares para aguar
Essa é uma poesia Silva
Poderia ser Lima, mas não rima
Poderia ser poesia delicada
De Florbela Espanca
Poderia exibir o busto
As ancas
Poderia ser alva, salva
Mas é Silva e calva
Essa é uma poesia Silva
Poderia ser Oliveira
Ferreira
Teixeira
Caixeira
Pereira
Mas é uma poesia Silva
Salva pelo gongo
Bêbada, cai aos tombos
Poderia ser uma poesia relva
Uma poesia selva
Uma poesia vulva
Cheia de ressalvas
Mas é uma poesia Silva
Não é uma poesia Malva
Não é uma poesia Dalva
Não é uma poesia que sirva
Não é uma poesia que ferva
Que ame
Que clame
Não é uma poesia de inhame
Batata, trigo ou macaxeira
Não é uma poesia caveira
É uma poesia que não serve pra nada
É uma poesia perdida
Varrida
Jogada
No meio da estrada
De ida
É uma poesia Silva
Comum
Mas que cabe em todas as pessoas
Até na pessoa do seu Oshamun
Oshamun Silva
Mas cabe melhor na pessoa do seu José
Que besta não é...
E ganhou do Drummond um poema
De dilema...
Fim da Silva... Vamos para outro tema.
Radyr Gonçalves
The End
Not every man knows what he shall sing at the end,
Watching the pier as the ship sails away, or what it will
seem like
When he’s held by the sea’s roar, motionless, there at the
end,
Or what he shall hope for once it is clear that he’ll never
go back.
When the time has passed to prune the rose or caress the
cat,
When the sunset torching the lawn and the full moon icing it
down
No longer appear, not every man knows what he’ll discover
instead.
When the weight of the past leans against nothing, and the
sky
Is no more than remembered light, and the stories of cirrus
And cumulus come to a close, and all the birds are suspended
in flight,
Not every man knows what is waiting for him, or what he
shall sing
When the ship he is on slips into darkness, there at the
end.
Mark Strand (in The
Continuous Life)
Soneto para construir janelas
(para Paulo Henriques Britto)
Erguer, antes de tudo, uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada
são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida, quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,
nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.
Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.
Gregorio Duvivier
Retrato de mulher
Tem de ser à escolha.
Tem que mudar para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale a pena tentar.
Olhos tem, se necessário, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos de água sem motivo.
Dorme com ele como qualquer uma, única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum, um.
Ingênua, mas a melhor a aconselhar.
Frágil, mas carregará o fardo.
Não tem a cabeça no lugar, mas há-de ter.
Lê Jaspers e revistas femininas, mas constroi uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardal com a asa partida,
o seu próprio dinheiro para uma viagem longa e distante,
o cutelo da carne, a compressa e um cálice de vodka.
Para onde corre assim, não estará cansada?
De maneira nenhuma, um pouco, muito, não importa.
Ou o ama, ou teima em amá-lo.
Para o bem, para o mal e por amor de Deus.
Wislawa Szymborska
Tem que mudar para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale a pena tentar.
Olhos tem, se necessário, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos de água sem motivo.
Dorme com ele como qualquer uma, única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum, um.
Ingênua, mas a melhor a aconselhar.
Frágil, mas carregará o fardo.
Não tem a cabeça no lugar, mas há-de ter.
Lê Jaspers e revistas femininas, mas constroi uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardal com a asa partida,
o seu próprio dinheiro para uma viagem longa e distante,
o cutelo da carne, a compressa e um cálice de vodka.
Para onde corre assim, não estará cansada?
De maneira nenhuma, um pouco, muito, não importa.
Ou o ama, ou teima em amá-lo.
Para o bem, para o mal e por amor de Deus.
Wislawa Szymborska
A mão que esconde mais do que oferece
A mão que esconde mais do que oferece,
os olhos de presa dominando o caçador.
E os teus lábios que murmuram a prece
de quem só reza no instante do amor.
E se falasse dos teus olhos, dos teus braços
desse corpo em que me perco e te ganho,
não mais acabaria o que tem de acabar;
uma respiração de suspiros e de abraços
neste canto em que és tudo o que eu tenho,
nesta viagem em que não tem fundo o mar.
Nuno Júdice
Lunalva
Se quiserem saber quem sou
- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente
Se quiserem saber do meu destino
- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada
Se quiserem saber donde venho
- Não sei donde venho
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas
Não
Não me amem tão depressa
"Não me compreendam tão depressa"
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão cotidiano
O pão que trago comigo
- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão de beber
Do Fogo e do Sangue
Carlos Nejar
- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente
Se quiserem saber do meu destino
- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada
Se quiserem saber donde venho
- Não sei donde venho
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas
Não
Não me amem tão depressa
"Não me compreendam tão depressa"
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão cotidiano
O pão que trago comigo
- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão de beber
Do Fogo e do Sangue
Carlos Nejar
Um poema
Um poema
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema
sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste
Solitário
Único
Ferido de mortal beleza.
(Mário Quintana)
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema
sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste
Solitário
Único
Ferido de mortal beleza.
(Mário Quintana)
A mão
Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puff.
Wislawa Szymborska
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puff.
Wislawa Szymborska
O medo
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios vadiamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo…
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes…
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
Carlos Drummond de Andrade
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios vadiamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo…
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes…
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
Carlos Drummond de Andrade
Madrigal Melancólico
O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti, Não é a
mãe que já perdi. Não é a
irmã que já perdi. E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza, Não é o
profundo instinto maternal Em teu flanco
aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
Manuel Bandeira
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti, Não é a
mãe que já perdi. Não é a
irmã que já perdi. E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza, Não é o
profundo instinto maternal Em teu flanco
aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
Manuel Bandeira
so goodnight
Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar porque não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.
José Miguel Silva e Manuel de Freitas in Walkmen
O Espelho
Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
Mia Couto
Jack Kerouac's letter to his ex-wife
I have lots of things to teach you now,
in case we ever meet,
concerning the message that was transmitted to me
under a pine tree in North Carolina
on a cold winter moonlit night.
It said that Nothing Ever Happened, so don’t worry.
It’s all like a dream.
Everything is ecstasy, inside.
We just don’t know it because of our thinking-minds.
But in our true blissful essence of mind is known
that everything is alright forever and forever and forever.
Close your eyes,
let your hands and nerve-ends drop,
stop breathing for 3 seconds,
listen to the silence inside the illusion of the world,
and you will remember the lesson you forgot,
which was taught in immense milky ways
of cloudy innumerable worlds
long ago and not even at all.
It is all one vast awakened thing.
I call it the golden eternity.
It is perfect.
We were never really born,
we will never really die.
It has nothing to do with the imaginary idea
of a personal self,
other selves,
many selves everywhere,
or one universal self.
Self is only an idea, a mortal idea.
That which passes through everything, is one thing.
It’s a dream already ended.
There’s nothing from staring at mountains months on end.
They never show any expression,
they are like empty space.
Do you think the emptiness of space will ever crumble away.
Mountains will crumble, but the emptiness of space,
which is the one universal essence of mind,
the one vast awakenerhood,
empty and awake,
will never crumble away because it was never born.
The world you see is just a movie in your mind.
--Jack Kerouac
in case we ever meet,
concerning the message that was transmitted to me
under a pine tree in North Carolina
on a cold winter moonlit night.
It said that Nothing Ever Happened, so don’t worry.
It’s all like a dream.
Everything is ecstasy, inside.
We just don’t know it because of our thinking-minds.
But in our true blissful essence of mind is known
that everything is alright forever and forever and forever.
Close your eyes,
let your hands and nerve-ends drop,
stop breathing for 3 seconds,
listen to the silence inside the illusion of the world,
and you will remember the lesson you forgot,
which was taught in immense milky ways
of cloudy innumerable worlds
long ago and not even at all.
It is all one vast awakened thing.
I call it the golden eternity.
It is perfect.
We were never really born,
we will never really die.
It has nothing to do with the imaginary idea
of a personal self,
other selves,
many selves everywhere,
or one universal self.
Self is only an idea, a mortal idea.
That which passes through everything, is one thing.
It’s a dream already ended.
There’s nothing from staring at mountains months on end.
They never show any expression,
they are like empty space.
Do you think the emptiness of space will ever crumble away.
Mountains will crumble, but the emptiness of space,
which is the one universal essence of mind,
the one vast awakenerhood,
empty and awake,
will never crumble away because it was never born.
The world you see is just a movie in your mind.
--Jack Kerouac
Quando eu semeio luz
Quando eu semeio luz
no meu chão, dia-a-dia,
um minúsculo facho reluz
e no cotidiano se irradia.
São pequenos atos de amor.
Luminescências aos pedaços,
que distribuo ao meu redor,
em palavras, beijos, abraços.
Brilhos gerando novos faróis,
de outros semeadores,
que juntos, formamos sóis,
iluminando dias melhores.
Rosemarie Schossig Torres
no meu chão, dia-a-dia,
um minúsculo facho reluz
e no cotidiano se irradia.
São pequenos atos de amor.
Luminescências aos pedaços,
que distribuo ao meu redor,
em palavras, beijos, abraços.
Brilhos gerando novos faróis,
de outros semeadores,
que juntos, formamos sóis,
iluminando dias melhores.
Rosemarie Schossig Torres
O nome próprio da vida
Antes que tudo se acabe
E que a Amazônia seque,
Antes que a nação da sombra
O seu lado escuro exiba
E a natureza fique
Abalada pelo homem
Que age ofendendo a terra
Que hoje, aviltando os ares
Emerge a sujar as águas
A poluir os lugares
Dantes chamados de verdes,
Antes que o globo arrebente
E o fogaréu arrebate
As cores, os constelados
Lugares da minha mente...
Antes que a desmemória
Desarrume e desaloje
Os pensamentos, os intentos
Os sentimentos por dentro,
Antes que, de vez, me cale
Antes que o viver se abale
E o Senhor da Vida fale...
Antes que todos se espantem
Que as vozes nada mais cantem
Que os ouvidos não escutem
Que os olhos não percebam
Que a língua já não fale
Que as narinas não arejem
Antes que não mais vicejem
As letras tontas na pauta
Que a palavra arquiteta...
Antes que nosso planeta
Exploda em som obscuro,
Muito antes que este muro
Na violência desabe
Forjando o pó e monturo
No que a gente come e bebe,
Muito antes de tudo isso
Que está previsto e estudado
Do triste descompromisso
Com que se tem atuado...
Se o homem ventos semeia
E a natureza despreza,
Em dobro, o revide anseia
E um mar de força e grandeza
Embebe a insensatez
Humilha com vendavais
Arrasa na muita- vez,
Com furacões ancestrais...
Antes que se rompa o dique
Das geleiras lá do Ártico
E os mares, maiores fiquem
Num desmesurado pórtico,
Antes que se incendeie
A cor de nossa bandeira
E de todas as bandeiras
E que as bocas já não bebam,
Muito antes que se quebrem
Nossos significados,
Palavras anoitecidas
Nossos dias não celebrem,
É necessário inscrever
No relâmpago que fere
O bojo da eternidade,
Onde estendo a mão pequena
Com letra de camponesa
Numa estrofe amanhecida
Erguendo, na letra acesa
O nome próprio da Vida.
Aline de Mello Brandão
As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
(Eugénio de Andrade)
1
Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos,
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores,
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
nem o remorso
De ter vivido.
Odes de Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa) - no. 1
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos,
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores,
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
nem o remorso
De ter vivido.
Odes de Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa) - no. 1
Vendedor de Sonhos
Oi, vendedor, por favor,
soube que vendia sonhos:
quero uma dúzia dos bons
e, não me guarde rancor,
eu não os quero estranhos.
Sonhos belos, bem sonhados,
se for possível. Isto posto,
não quero escuro ou desgosto.
Quando eu não mais sonhar,
os sonhos encomendados,
traga-os, mas com cuidados.
Não se esqueça de embalar
como frágil, meu pedido:
não traga sonho quebrado
ou com o prazo vencido.
Meus senhor, por gentileza
trate-os com delicadeza,
serão meus últimos, veja
que eu ainda esteja
respirando a lucidez.
Caso isso não suceder,
doe todos de uma vez
a quem souber merecer.
Aline de Mello Brandão
soube que vendia sonhos:
quero uma dúzia dos bons
e, não me guarde rancor,
eu não os quero estranhos.
Sonhos belos, bem sonhados,
se for possível. Isto posto,
não quero escuro ou desgosto.
Quando eu não mais sonhar,
os sonhos encomendados,
traga-os, mas com cuidados.
Não se esqueça de embalar
como frágil, meu pedido:
não traga sonho quebrado
ou com o prazo vencido.
Meus senhor, por gentileza
trate-os com delicadeza,
serão meus últimos, veja
que eu ainda esteja
respirando a lucidez.
Caso isso não suceder,
doe todos de uma vez
a quem souber merecer.
Aline de Mello Brandão
When we two parted
When we two parted
In silence and tears;
Half broken-hearted
To sever for years
Pale grew thy cheek and cold,
Colder thy kiss;
Truly that hour foretold
Sorrow to this.
The dew of the morning
Sunk chill on my brow –
It felt like the warning
Of what I feel now,
Thy vows are all broken,
And light is thy fame;
I hear thy name spoken,
And share in its shame.
They name thee before me,
A knell to mine ear;
A shudder comes o’er me –
Why wert thou so dear?
They know not I know thee
Who knows thee too well –
Long, long shall I rue thee,
Too deeply to tell.
In secret we met –
In silence I grieve,
That thy heart could forget,
Thy spirit deceive,
If I should meet thee
After long years,
How should I greet thee? –
With silence and tears.
Lord Byron
Sobre o poema
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
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