No silêncio da manhã que se inicia
eu elevo o pensamento, ensolarado
por um céu de brilho intenso azulejado
sob as nuvens que o vento acaricia
Logo sinto responder-me a energia
de um sol que me abraça com cuidado
de um sol zeloso que ia preocupado
com meu riso disfarçado de alegria
Retirando o ranço dos resmungos tristes
embalou a sombra do que não existe
enviando cordialmente ao passado
No silêncio da manhã, meu peito leve
pronuncia uma oração sincera e breve:
gratidão pelo presente renovado.
Lena Ferreira
Poesia Silva
Essa uma poesia Silva
Sem dilema
Sem problemas cardiovasculares
Sem problemas oculares
Sem lugares para aguar
Essa é uma poesia Silva
Poderia ser Lima, mas não rima
Poderia ser poesia delicada
De Florbela Espanca
Poderia exibir o busto
As ancas
Poderia ser alva, salva
Mas é Silva e calva
Essa é uma poesia Silva
Poderia ser Oliveira
Ferreira
Teixeira
Caixeira
Pereira
Mas é uma poesia Silva
Salva pelo gongo
Bêbada, cai aos tombos
Poderia ser uma poesia relva
Uma poesia selva
Uma poesia vulva
Cheia de ressalvas
Mas é uma poesia Silva
Não é uma poesia Malva
Não é uma poesia Dalva
Não é uma poesia que sirva
Não é uma poesia que ferva
Que ame
Que clame
Não é uma poesia de inhame
Batata, trigo ou macaxeira
Não é uma poesia caveira
É uma poesia que não serve pra nada
É uma poesia perdida
Varrida
Jogada
No meio da estrada
De ida
É uma poesia Silva
Comum
Mas que cabe em todas as pessoas
Até na pessoa do seu Oshamun
Oshamun Silva
Mas cabe melhor na pessoa do seu José
Que besta não é...
E ganhou do Drummond um poema
De dilema...
Fim da Silva... Vamos para outro tema.
Radyr Gonçalves
The End
Not every man knows what he shall sing at the end,
Watching the pier as the ship sails away, or what it will
seem like
When he’s held by the sea’s roar, motionless, there at the
end,
Or what he shall hope for once it is clear that he’ll never
go back.
When the time has passed to prune the rose or caress the
cat,
When the sunset torching the lawn and the full moon icing it
down
No longer appear, not every man knows what he’ll discover
instead.
When the weight of the past leans against nothing, and the
sky
Is no more than remembered light, and the stories of cirrus
And cumulus come to a close, and all the birds are suspended
in flight,
Not every man knows what is waiting for him, or what he
shall sing
When the ship he is on slips into darkness, there at the
end.
Mark Strand (in The
Continuous Life)
Soneto para construir janelas
(para Paulo Henriques Britto)
Erguer, antes de tudo, uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada
são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida, quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,
nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.
Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.
Gregorio Duvivier
Retrato de mulher
Tem de ser à escolha.
Tem que mudar para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale a pena tentar.
Olhos tem, se necessário, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos de água sem motivo.
Dorme com ele como qualquer uma, única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum, um.
Ingênua, mas a melhor a aconselhar.
Frágil, mas carregará o fardo.
Não tem a cabeça no lugar, mas há-de ter.
Lê Jaspers e revistas femininas, mas constroi uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardal com a asa partida,
o seu próprio dinheiro para uma viagem longa e distante,
o cutelo da carne, a compressa e um cálice de vodka.
Para onde corre assim, não estará cansada?
De maneira nenhuma, um pouco, muito, não importa.
Ou o ama, ou teima em amá-lo.
Para o bem, para o mal e por amor de Deus.
Wislawa Szymborska
Tem que mudar para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale a pena tentar.
Olhos tem, se necessário, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos de água sem motivo.
Dorme com ele como qualquer uma, única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum, um.
Ingênua, mas a melhor a aconselhar.
Frágil, mas carregará o fardo.
Não tem a cabeça no lugar, mas há-de ter.
Lê Jaspers e revistas femininas, mas constroi uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardal com a asa partida,
o seu próprio dinheiro para uma viagem longa e distante,
o cutelo da carne, a compressa e um cálice de vodka.
Para onde corre assim, não estará cansada?
De maneira nenhuma, um pouco, muito, não importa.
Ou o ama, ou teima em amá-lo.
Para o bem, para o mal e por amor de Deus.
Wislawa Szymborska
A mão que esconde mais do que oferece
A mão que esconde mais do que oferece,
os olhos de presa dominando o caçador.
E os teus lábios que murmuram a prece
de quem só reza no instante do amor.
E se falasse dos teus olhos, dos teus braços
desse corpo em que me perco e te ganho,
não mais acabaria o que tem de acabar;
uma respiração de suspiros e de abraços
neste canto em que és tudo o que eu tenho,
nesta viagem em que não tem fundo o mar.
Nuno Júdice
Lunalva
Se quiserem saber quem sou
- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente
Se quiserem saber do meu destino
- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada
Se quiserem saber donde venho
- Não sei donde venho
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas
Não
Não me amem tão depressa
"Não me compreendam tão depressa"
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão cotidiano
O pão que trago comigo
- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão de beber
Do Fogo e do Sangue
Carlos Nejar
- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente
Se quiserem saber do meu destino
- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada
Se quiserem saber donde venho
- Não sei donde venho
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas
Não
Não me amem tão depressa
"Não me compreendam tão depressa"
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão cotidiano
O pão que trago comigo
- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão de beber
Do Fogo e do Sangue
Carlos Nejar
Um poema
Um poema
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema
sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste
Solitário
Único
Ferido de mortal beleza.
(Mário Quintana)
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema
sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste
Solitário
Único
Ferido de mortal beleza.
(Mário Quintana)
A mão
Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puff.
Wislawa Szymborska
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puff.
Wislawa Szymborska
O medo
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios vadiamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo…
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes…
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
Carlos Drummond de Andrade
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios vadiamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo…
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes…
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
Carlos Drummond de Andrade
Madrigal Melancólico
O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti, Não é a
mãe que já perdi. Não é a
irmã que já perdi. E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza, Não é o
profundo instinto maternal Em teu flanco
aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
Manuel Bandeira
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti, Não é a
mãe que já perdi. Não é a
irmã que já perdi. E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza, Não é o
profundo instinto maternal Em teu flanco
aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
Manuel Bandeira
so goodnight
Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar porque não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.
José Miguel Silva e Manuel de Freitas in Walkmen
O Espelho
Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
Mia Couto
Jack Kerouac's letter to his ex-wife
I have lots of things to teach you now,
in case we ever meet,
concerning the message that was transmitted to me
under a pine tree in North Carolina
on a cold winter moonlit night.
It said that Nothing Ever Happened, so don’t worry.
It’s all like a dream.
Everything is ecstasy, inside.
We just don’t know it because of our thinking-minds.
But in our true blissful essence of mind is known
that everything is alright forever and forever and forever.
Close your eyes,
let your hands and nerve-ends drop,
stop breathing for 3 seconds,
listen to the silence inside the illusion of the world,
and you will remember the lesson you forgot,
which was taught in immense milky ways
of cloudy innumerable worlds
long ago and not even at all.
It is all one vast awakened thing.
I call it the golden eternity.
It is perfect.
We were never really born,
we will never really die.
It has nothing to do with the imaginary idea
of a personal self,
other selves,
many selves everywhere,
or one universal self.
Self is only an idea, a mortal idea.
That which passes through everything, is one thing.
It’s a dream already ended.
There’s nothing from staring at mountains months on end.
They never show any expression,
they are like empty space.
Do you think the emptiness of space will ever crumble away.
Mountains will crumble, but the emptiness of space,
which is the one universal essence of mind,
the one vast awakenerhood,
empty and awake,
will never crumble away because it was never born.
The world you see is just a movie in your mind.
--Jack Kerouac
in case we ever meet,
concerning the message that was transmitted to me
under a pine tree in North Carolina
on a cold winter moonlit night.
It said that Nothing Ever Happened, so don’t worry.
It’s all like a dream.
Everything is ecstasy, inside.
We just don’t know it because of our thinking-minds.
But in our true blissful essence of mind is known
that everything is alright forever and forever and forever.
Close your eyes,
let your hands and nerve-ends drop,
stop breathing for 3 seconds,
listen to the silence inside the illusion of the world,
and you will remember the lesson you forgot,
which was taught in immense milky ways
of cloudy innumerable worlds
long ago and not even at all.
It is all one vast awakened thing.
I call it the golden eternity.
It is perfect.
We were never really born,
we will never really die.
It has nothing to do with the imaginary idea
of a personal self,
other selves,
many selves everywhere,
or one universal self.
Self is only an idea, a mortal idea.
That which passes through everything, is one thing.
It’s a dream already ended.
There’s nothing from staring at mountains months on end.
They never show any expression,
they are like empty space.
Do you think the emptiness of space will ever crumble away.
Mountains will crumble, but the emptiness of space,
which is the one universal essence of mind,
the one vast awakenerhood,
empty and awake,
will never crumble away because it was never born.
The world you see is just a movie in your mind.
--Jack Kerouac
Quando eu semeio luz
Quando eu semeio luz
no meu chão, dia-a-dia,
um minúsculo facho reluz
e no cotidiano se irradia.
São pequenos atos de amor.
Luminescências aos pedaços,
que distribuo ao meu redor,
em palavras, beijos, abraços.
Brilhos gerando novos faróis,
de outros semeadores,
que juntos, formamos sóis,
iluminando dias melhores.
Rosemarie Schossig Torres
no meu chão, dia-a-dia,
um minúsculo facho reluz
e no cotidiano se irradia.
São pequenos atos de amor.
Luminescências aos pedaços,
que distribuo ao meu redor,
em palavras, beijos, abraços.
Brilhos gerando novos faróis,
de outros semeadores,
que juntos, formamos sóis,
iluminando dias melhores.
Rosemarie Schossig Torres
O nome próprio da vida
Antes que tudo se acabe
E que a Amazônia seque,
Antes que a nação da sombra
O seu lado escuro exiba
E a natureza fique
Abalada pelo homem
Que age ofendendo a terra
Que hoje, aviltando os ares
Emerge a sujar as águas
A poluir os lugares
Dantes chamados de verdes,
Antes que o globo arrebente
E o fogaréu arrebate
As cores, os constelados
Lugares da minha mente...
Antes que a desmemória
Desarrume e desaloje
Os pensamentos, os intentos
Os sentimentos por dentro,
Antes que, de vez, me cale
Antes que o viver se abale
E o Senhor da Vida fale...
Antes que todos se espantem
Que as vozes nada mais cantem
Que os ouvidos não escutem
Que os olhos não percebam
Que a língua já não fale
Que as narinas não arejem
Antes que não mais vicejem
As letras tontas na pauta
Que a palavra arquiteta...
Antes que nosso planeta
Exploda em som obscuro,
Muito antes que este muro
Na violência desabe
Forjando o pó e monturo
No que a gente come e bebe,
Muito antes de tudo isso
Que está previsto e estudado
Do triste descompromisso
Com que se tem atuado...
Se o homem ventos semeia
E a natureza despreza,
Em dobro, o revide anseia
E um mar de força e grandeza
Embebe a insensatez
Humilha com vendavais
Arrasa na muita- vez,
Com furacões ancestrais...
Antes que se rompa o dique
Das geleiras lá do Ártico
E os mares, maiores fiquem
Num desmesurado pórtico,
Antes que se incendeie
A cor de nossa bandeira
E de todas as bandeiras
E que as bocas já não bebam,
Muito antes que se quebrem
Nossos significados,
Palavras anoitecidas
Nossos dias não celebrem,
É necessário inscrever
No relâmpago que fere
O bojo da eternidade,
Onde estendo a mão pequena
Com letra de camponesa
Numa estrofe amanhecida
Erguendo, na letra acesa
O nome próprio da Vida.
Aline de Mello Brandão
As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
(Eugénio de Andrade)
1
Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos,
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores,
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
nem o remorso
De ter vivido.
Odes de Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa) - no. 1
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos,
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores,
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
nem o remorso
De ter vivido.
Odes de Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa) - no. 1
Vendedor de Sonhos
Oi, vendedor, por favor,
soube que vendia sonhos:
quero uma dúzia dos bons
e, não me guarde rancor,
eu não os quero estranhos.
Sonhos belos, bem sonhados,
se for possível. Isto posto,
não quero escuro ou desgosto.
Quando eu não mais sonhar,
os sonhos encomendados,
traga-os, mas com cuidados.
Não se esqueça de embalar
como frágil, meu pedido:
não traga sonho quebrado
ou com o prazo vencido.
Meus senhor, por gentileza
trate-os com delicadeza,
serão meus últimos, veja
que eu ainda esteja
respirando a lucidez.
Caso isso não suceder,
doe todos de uma vez
a quem souber merecer.
Aline de Mello Brandão
soube que vendia sonhos:
quero uma dúzia dos bons
e, não me guarde rancor,
eu não os quero estranhos.
Sonhos belos, bem sonhados,
se for possível. Isto posto,
não quero escuro ou desgosto.
Quando eu não mais sonhar,
os sonhos encomendados,
traga-os, mas com cuidados.
Não se esqueça de embalar
como frágil, meu pedido:
não traga sonho quebrado
ou com o prazo vencido.
Meus senhor, por gentileza
trate-os com delicadeza,
serão meus últimos, veja
que eu ainda esteja
respirando a lucidez.
Caso isso não suceder,
doe todos de uma vez
a quem souber merecer.
Aline de Mello Brandão
When we two parted
When we two parted
In silence and tears;
Half broken-hearted
To sever for years
Pale grew thy cheek and cold,
Colder thy kiss;
Truly that hour foretold
Sorrow to this.
The dew of the morning
Sunk chill on my brow –
It felt like the warning
Of what I feel now,
Thy vows are all broken,
And light is thy fame;
I hear thy name spoken,
And share in its shame.
They name thee before me,
A knell to mine ear;
A shudder comes o’er me –
Why wert thou so dear?
They know not I know thee
Who knows thee too well –
Long, long shall I rue thee,
Too deeply to tell.
In secret we met –
In silence I grieve,
That thy heart could forget,
Thy spirit deceive,
If I should meet thee
After long years,
How should I greet thee? –
With silence and tears.
Lord Byron
Sobre o poema
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
Similitudes
Tenho o pé na terra
e os olhos no vento
busco só a resposta
do outro lado da porta
a noite é de tempestade
raios, trovões, ventania
e eu aqui
o pé no chão
e ainda é a mesma
a mesma estrela
que me guia
eu te vi no retrato
um sorriso suave
no olhar, lá no fundo
uma tristeza sem jeito
abafada no tempo
esquecida? não tão cedo
na expressão firme
a responsabilidade
de quem ama
e levanta da cama
mesmo no inverno mais frio
e vai olhar a cria
pede com esperança
pra estrela do norte
desejando sorte
de ter mais um dia
Tenho o pé no chão
e o coração na chuva
sei a proposta
relâmpago, trovão, agonia
o pé na terra
o coração no chão
e a vida por um fio.
Dhenova Poeta (Andréa Iunes)
02/03/2009
e os olhos no vento
busco só a resposta
do outro lado da porta
a noite é de tempestade
raios, trovões, ventania
e eu aqui
o pé no chão
e ainda é a mesma
a mesma estrela
que me guia
eu te vi no retrato
um sorriso suave
no olhar, lá no fundo
uma tristeza sem jeito
abafada no tempo
esquecida? não tão cedo
na expressão firme
a responsabilidade
de quem ama
e levanta da cama
mesmo no inverno mais frio
e vai olhar a cria
pede com esperança
pra estrela do norte
desejando sorte
de ter mais um dia
Tenho o pé no chão
e o coração na chuva
sei a proposta
relâmpago, trovão, agonia
o pé na terra
o coração no chão
e a vida por um fio.
Dhenova Poeta (Andréa Iunes)
02/03/2009
One Heart
It is late afternoon and I have just returned from
the longer version of my walk nobody knows
about. For the first time in nearly a month, and
everything changed. It is the end of March, once
more I have lived. This morning a young woman
described what it’s like shooting coke with a baby
in your arms. The astonishing windy and altering light
and clouds and water were, at certain moment,
You.
There is only one heart in my body, have mercy
on me.
The brown leaves buried all winter creatureless feet
running over dead grass beginning to green, the first scent-
less violet here and there, returned, the first star noticed all
at once as one stands staring into the black water.
Thank You for letting me live for a little as one of the
sane; thank You for letting me know what this is
like. Thank You for letting me look at your frightening
blue sky without fear, and your terrible world without
terror, and your loveless psychotic and hopelessly lost
with this love.
Franz Wright
Existe a Noite
Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.
Hilda Hilst, in Do Desejo
Na Noite Terrível
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem sperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.
Álvaro de Campos
Dreams
Hold fast to dreams
For if dreams die
Life is a broken-winged bird
That cannot fly.
Hold fast to dreams
For when dreams go
Life is a barren field
Frozen with snow.
Langston Hughes
SENHORAS E SENHORES: O PRODUTO MAIS DIABÓLICO DA HUMANIDADE
O que mais dói não é – desengana-te – a infelicidade. A infelicidade dói. Magoa. Martiriza. É intensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar. Mas a infelicidade não é o que mais dói. A infelicidade é infeliz – mas não é o que mais dói.
O que mais dói é a subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que não se faz felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A subfelicidade não magoa – vai magoando; a subfelicidade não martiriza – vai martirizando. Não é intensa – mas é imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar – mas em silêncio, em surdina, em anonimato. Como se não fosse. Mas é: a subfelicidade é. A subfelicidade faz-te ficar refém do que tens – mas nem assim te impede de te sentires apeado do que não tens e gostarias de ter. Do que está ali, sempre ali, sempre à mão de semear – e que, mesmo assim, nunca consegues tocar. A subfelicidade é o piso -1 da felicidade. E não há elevador algum que te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as escadas. Anda daí.
Sair da subfelicidade é um drama. Um pesadelo. Sair da subfelicidade é mais difícil do que sair da infelicidade. Para sair da infelicidade, toda a gente sabe – tu mesmo o sabes: tens de tomar medidas drásticas. Medidas radicais. Porque a infelicidade é, também ela, radical. Mas sair da subfelicidade é uma batalha interior muito mais dolorosa. Desde logo, porque não sabes se queres, mesmo, sair da subfelicidade. Porque é na subfelicidade que consegues ter a certeza de que evitas a desilusão – terás, no máximo, a subdesilusão; porque é na subfelicidade que consegues ter a certeza de que evitas a perda – terás, no máximo, a subperda. Estás a ficar perdido com o que te digo?
A subfelicidade é o produto mais diabólico que a humanidade criou. Formatado pela consciência, o homem assimilou um conceito que, na verdade, não existe: o da felicidade segura. Espero que estejas bem seguro nessa cadeira quando leres o que aí vem no próximo parágrafo.
A felicidade segura não existe. A felicidade segura é segura, sim – mas não é felicidade. A felicidade pacífica é pacífica, sim – mas não é felicidade. A felicidade, quando é felicidade, assolapa, euforiza, arrebata. E não deixa respirar, e não deixa sequer pensar. A felicidade, quando é felicidade, é só felicidade. E tudo o que existe, quando existe felicidade, é a felicidade. Só ela e tu. Ela em ti. Ela em todo o tu. A felicidade, para ser felicidade, não tem estratos, não tem razão. Ou é ou não é. A felicidade é animal, de facto – mas é ainda mais demencial. Deixa-te louco de felicidade, maluco de alegria, passado dos cornos. Só quando estás dentro da felicidade é que estás fora de ti. Liberto do corpo, da matéria, da sensação – e imerso naquela indizível comunhão. Tu e a felicidade. Já a sentiste, não?
Não há como dizer de outra maneira: se estás acomodado à subfelicidade, se tens medo de ser feliz e preferes a certeza de seres subfeliz: és um triste de todo o tamanho. A subfelicidade é uma tristeza. Uma tristeza de hábitos, de rotinas, de sorrisos – uma tristeza que inibe a surpresa, o imprevisível, a gargalhada. Uma tristeza que te faz refém do que fazes e te impede de te seres o que és. Olha em redor: a toda a volta há pessoas subfelizes, pessoas que dizem “vai-se andando”, pessoas que dizem “tem de ser”, pessoas que dizem “eu até gosto dele”, pessoas que dizem “sou feliz” com os olhos cheios de “queria ser feliz”, pessoas que dizem “é a vida”. Mas não é. A vida não é a quase felicidade. A vida não é a subfelicidade. E, se é a primeira vez que vês isso, fica entendido o que sentes. Ou subentendido, pelo menos.
--------------------------------
in "Eu Sou Deus", de Pedro Chagas Freitas
A púrpura dos dias
falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfazer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos.
ao longe, a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra
- nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser-se feliz.
Vasco Gato
Carícia
A pele é o mar:
aqui desaguam
os rios da vida.
A pele é o cântaro:
aqui se guardam
todas as águas,
chuvas de alegria
ou lágrimas.
A pele é o mapa:
aqui se gravam
todos os ventos.
Escreva na pele do outro,
com a ponta dos dedos,
o alfabeto mais antigo,
sussurro,
estrela,
carícia.
Roseana Murray
Já não há domingos
Todas as vidas gastei
para morrer contigo.
E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.
Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.
Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.
Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?
Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.
Todas as mortes gastei
para viver contigo.
Mia Couto
para morrer contigo.
E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.
Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.
Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.
Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?
Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.
Todas as mortes gastei
para viver contigo.
Mia Couto
Contabilidade
venho para te cortar os
dedos em moedas pequenas e
com elas pagar ao coração o
mal que me fizeste
o pior amor é este, o que já é
feito de ódio também. o pior amor
é este, o que já é feito de ódio também. o
pior é o amor é este, o que
já é feito de ódio também
valter hugo mãe
Escárnio Perfumado
Quando no enleio
De receber umas notícias tuas,
Vou-me ao correio,
Que é lá no fim da mais cruel das ruas,
Vendo tão fartas,
D'uma fartura que ninguém colige,
As mãos dos outros, de jornais e cartas
E as minhas, nuas - isso dói, me aflige...
E em tom de mofa,
Julgo que tudo me escarnece, apoda,
Ri, me apostrofa,
Pois fico só e cabisbaixo, inerme,
A noite andar-me na cabeça, em roda,
Mais humilhado que um mendigo, um verme...
Cruz e Sousa
Mulher à Janela
Está afundada na sua janela
contemplando as brasas do anoitecer, ainda possível.
Tudo se consumou no seu destino, inalterável a partir de agora,
tal como o mar num quadro,
e no entanto o céu continua a passar com as suas angélicas procissões.
Nenhum pato selvagem interrompeu o voo para oeste;
lá longe continuarão a florescer as ameixoeiras brancas, como se nada fosse,
e alguém há-de erguer a sua casa algures
sobre a poeira e o fumo de outra casa.
Inóspito este mundo.
Áspero este lugar de nunca mais.
Por uma fissura do coração sai um pássaro negro e é noite
-ou será um deus caído agonizando sobre o mundo?-,
mas ninguém o viu, ninguém sabe,
nem aquele que acredita que dos laços desfeitos nascem asas belíssimas,
os nós instantâneos do acaso, a aventura imortal,
embora cada pegada encerre com um selo todos os paraísos prometidos.
Ela ouviu em cada passo a condenação.
Agora não é mais do que uma mulher imóvel, alheada, na sua janela,
a simples arquitectura da sombra asilada na sua pele,
como se alguma vez uma fronteira, um muro, um silêncio, um adeus,
tivessem sido o verdadeiro limite,
o abismo final entre uma mulher e um homem.
Olga Orozco
contemplando as brasas do anoitecer, ainda possível.
Tudo se consumou no seu destino, inalterável a partir de agora,
tal como o mar num quadro,
e no entanto o céu continua a passar com as suas angélicas procissões.
Nenhum pato selvagem interrompeu o voo para oeste;
lá longe continuarão a florescer as ameixoeiras brancas, como se nada fosse,
e alguém há-de erguer a sua casa algures
sobre a poeira e o fumo de outra casa.
Inóspito este mundo.
Áspero este lugar de nunca mais.
Por uma fissura do coração sai um pássaro negro e é noite
-ou será um deus caído agonizando sobre o mundo?-,
mas ninguém o viu, ninguém sabe,
nem aquele que acredita que dos laços desfeitos nascem asas belíssimas,
os nós instantâneos do acaso, a aventura imortal,
embora cada pegada encerre com um selo todos os paraísos prometidos.
Ela ouviu em cada passo a condenação.
Agora não é mais do que uma mulher imóvel, alheada, na sua janela,
a simples arquitectura da sombra asilada na sua pele,
como se alguma vez uma fronteira, um muro, um silêncio, um adeus,
tivessem sido o verdadeiro limite,
o abismo final entre uma mulher e um homem.
Olga Orozco
quando as serpentes
quando as serpentes paguem para ser serpentes
e o sol para ganhar seu pão recorra à greve -
quando o espinho olhe a rosa com suspeita
e o arco-íris faça seguro contra a neve
quando tordo nenhum puder cantar enquanto
todos os mochos não fizerem a censura
- e os mares tenham que fechar para balanço
se as ondas não tiverem posto a assinatura
quando o carvalho pedir vênia ao vidoeiro
para gerar seu fruto - o vale casse a vista
dos montes, porque são altos, e fevereiro
acuse março de ser terrorista
então acreditaremos nessa incrível
humanidade inanimal (e só aí)
e.e.cummings (tradução de Augusto de Campos)
O perigo do dragão
Me falaram do perigo do dragão
o homem não
consegue se livrar da castidade
da religião
da lei imposta da moralidade.
Dentro de mim mora o dragão
da natureza
espontâneo e suficiente
e por mais que me obriguem a fugir
não há nada que me tente
tanto.
Tem o caráter do fogo
o nervo, o temperamento
do proibido
e rompe a linha do extremo
além do sentido.
Dança o movimento sublime
ultrapassa o cerco
o limite, o crime, o desatino
além da nossa dualidade
na dimensão perigosa
de onde se extrai o destino.
Tudo está contido em tudo, cada coisa
se transforma em outra
contínuo o fio da ação
cada um carrega em si o seu oposto
a vida é o germe da destruição.
Bruna Lombardi
Onde amanhece
Mas levo comigo tudo
o que recuso.
Sinto colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.
Nuno Júdice
Amor Pacífico e Fecundo
Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.
Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!
Rabindranath Tagore
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.
Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!
Rabindranath Tagore
Anseios
Só quero lembrar
se o tempo for todo meu.
Só anseio lembrança
se não houver passado.
Bruma e espuma,
apagam o tempo em que não amei.
E eu amei
para ser tudo, todos, sempre.
Para te visitar
esquecerei a terra
e apagarei as estrelas.
E irei pelos teus olhos,
até o mundo voltar a ter princípio.
Sou eu, dirás,
E o tempo será lembrado.
Mia Couto
O Livro dos Amantes
I
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
II
Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
III
Príncipe secreto da aventura
em meus olhos um dia começada e finita.
Onda de amargura numa água tranquila.
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta.
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem
reacendendo em cadência e em passagem
a lua que trazia e que apagou.
IV
Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.
V
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
VI
Aumentámos a vida com palavras
água a correr num fundo tão vazio.
As vidas são histórias aumentadas.
Há que ser rio.
Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
Mas pede tudo.
VII
Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.
Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.
Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.
Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.
VIII
Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto e o sabor.
IX
Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
Natália Correia in Poemas (1955)
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