Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos Numa palpitação de flores e de ninhos. Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos (Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos. Verão. (Lembras-te Dulce?) À beira-mar, sozinhos, Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos; E o outono desfolhava os roseirais vizinhos, Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos... Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos, Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos, (Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor... Carne, que queres mais? Coração, que mais queres? Passas as estações e passam as mulheres... E eu tenho amado tanto! e não conheço o Amor!
A esperança me chama, e eu salto a bordo como se fosse a primeira viagem. Se não conheço os mapas, escolho o imprevisto: qualquer sinal é um bom presságio.
Seja como for, eu vou, pois quase sempre acredito: ando de olhos fechados feito criança brincando de cega. Mais de uma vez saio ferida ou quase afogada, mas não desisto.
A dor eventual é o preço da vida: passagem, seguro e pedágio.
Plantaremos estes arbustos que darão flor apenas daqui a três anos. Plantaremos estas árvores que darão fruto um dia, mas só depois de dez anos. Não plantaremos jardins de amor, porque imediatamente abrem tristeza e saudade. Não plantaremos lembranças porque estão desde já e para sempre carregadas de lágrimas.
Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.
Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.
Sim, foi por mim que gritei. Declamei, Atirei frases em volta. Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz, A carvão, a sangue, a giz, Sátiras e epigramas nas paredes Que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi Que nada me dariam do infinito que pedi, - Que ergui mais alto o meu grito E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas, Eis a razão das épi trági-cómicas empresas Que, sem rumo, Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava Era, como qualquer, ter o que desejava. Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo, Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado Sair deste meu ser formal e condenado, Erigi contra os céus o meu imenso Engano De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio! Nu a teus pés, abro o meu seio Procurei fugir de mim, Mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou, Sofro por este chão que aos pés se me pegou, Sofro por não poder fugir. Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!
Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação! (Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...) Senhor dá-me o poder de estar calado, Quieto, maniatado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei, Nunca os usei nem usarei, Se nada do que levo a efeito vale, Que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim, Era por um de nós. E assim, Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade, Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior Do que a própria imensa dor De compreender como é egoísta A minha máxima conquista...
Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros, E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á, E sobre mim de novo descerá...
Sim, descerá da tua mão compadecida, Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida. E uma terra sem flor e uma pedra sem nome Saciarão a minha fome.
Diálogo com o ser amado o semelhante o diferente o indiferente o oposto o adversário o surdo-mudo o possesso o irracional o vegetal o mineral o inominado
Diálogo consigo mesmo com a noite os astros os mortos as ideias o sonho o passado o mais que futuro
Escolhe teu diálogo e tua melhor palavra ou teu melhor silêncio. Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos.
Todos os dias quando acordo, Não tenho mais o tempo que passou Mas tenho muito tempo: Temos todo o tempo do mundo.
Todos os dias antes de dormir, Lembro e esqueço como foi o dia: "Sempre em frente, Não temos tempo a perder".
Nosso suor sagrado É bem mais belo que esse sangue amargo E tão sério E selvagem E selvagem E selvagem
Veja o sol dessa manhã tão cinza: A tempestade que chega é da cor dos teus Olhos castanhos Então me abraça forte E diz mais uma vez Que já estamos distantes de tudo: Temos nosso próprio tempo.
Não tenho medo do escuro, Mas deixe as luzes acesas agora, O que foi escondido é o que se escondeu, E o que foi prometido, ninguem prometeu
Nem foi tempo perdido; Somos tão jovens tao jovens tao jovens
Agora, o cheiro áspero das flores leva-me os olhos por dentro de suas pétalas. Eram assim teus cabelos; tuas pestanas eram assim, finas e curvas.
As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo, tinham a mesma exalação de água secreta, de talos molhados, de pólen, de sepulcro e de ressurreição. E as borboletas sem voz dançavam assim veludosamente.
Restituiu-te na minha memória, por dentro das flores! Deixa virem teus olhos, como besouros de ônix, tua boca de malmequer orvalhado, e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios, com suas estrelas e cruzes, e muitas coisas tão estranhamente escritas nas suas nervuras nítidas de folha - e incompreensíveis, incompreensíveis.
Recomeça... Se puderes Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres Nesse caminho duro Do futuro Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar Sempre a sonhar E vendo Acordado, O logro da aventura.
És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde com lucidez, te reconheças.
A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a guarda. E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos e tristes se separam; e quando aqueles que se odeiam têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...
Rainer Maria Rilke (tradução de Maria João Costa Pereira)
Que fazes por aqui, ó gato? Que ambiguidade vens explorar? Senhor de ti, avanças, cauto, meio agastado e sempre a disfarçar o que afinal não tens e eu te empresto, ó gato, pesado lento e lesto, fofo no pêlo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada? Qual o crime de que foste testemunha? Que deus te deu a repentina unha que rubrica esta mão, aquela cara? Gato, cúmplice de um medo ainda sem palavras, sem enredos, quem somos nós, teus donos ou teus servos?
A couraça das palavras protege o nosso silêncio e esconde aquilo que somos
Que importa falarmos tanto? Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras. Sons vazios de mensagem, são como a fria mortalha do cotidiano morto. Como pássaros cansados, que não encontraram pouso certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem: o tempo madura os frutos, branqueia nossos cabelos. Mas o homem noturno espera a aurora da nossa boca.
II
Se mãos estranhas romperem a veste que nos esconde, acharão uma verdade em forma não revelável. (E os homens têm olhos sujos, não podem ver através.)
Mas um dia chegará em que a oferenda dos deuses, dada em forma de silêncio, em palavra transformaremos.
E se porventura a dermos ao mundo, tal como a flor que se oferta - humilde e pura - , teremos então cumprido a missão que é dada ao poeta. E como são onda e mar, seremos palavra e homem.
Deixa que o olhar do mundo enfim devasse Teu grande amor que é teu maior segredo! Que terias perdido, se, mais cedo, Todo o afeto que sentes se mostrasse?
Basta de enganos! Mostra-me sem medo Aos homens, afrontando-os face a face: Quero que os homens todos, quando eu passe, Invejosos, apontem-me com o dedo.
Olha: não posso mais! Ando tão cheio Deste amor, que minh'alma se consome De te exaltar aos olhos do universo...
Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio: E, fatigado de calar teu nome, Quase o revelo no final de um verso.
Lugar sem comportamento é o coração. Ando em vias de ser compartilhado. Ajeito as nuvens no olho. A luz das horas me desproporciona. Sou qualquer coisa judiada de ventos. Meu fanal e um poente com andorinhas. Desenvolvo meu ser até encostar na pedra. Repousa uma garoa sobre a noite. Aceito no meu fado o escurecer. No fim da treva uma coruja entrava.
Pergunto-te onde se acha a minha vida. Em que dia fui eu. Que hora existiu formada de uma verdade minha bem possuída.
Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.
E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida por esperanças hereditárias? E de cada pergunta minha vai nascendo a sombra imensa que envolve a posição dos olhos de quem pensa.
Já não sei mais a diferença de ti, de mim, da coisa perguntada, do silêncio da coisa irrespondida.
Não quero achar o que os outros perderam: as moedas no chão, os guarda-chuvas esquecidos nos ônibus, e a vida deixada por engano sobre o asfalto. Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não irrompesse com suas sombras e cigarras e cascatas. Quero, sonho e admiro o inédito como a noite no caracol de uma escada contudo perto das constelações se eu pudesse vê-las de outro planeta.
Não me comove o irretornável nem o tempo caído. Em jogo descoberto, crio minha emoção e à janela contemplo a noite formal e eu mesmo sou ogiva aberta aos grandes astros. O que se perdeu, vai-se embora, como os anéis separados das mãos, como a ventania se afasta das bandeiras no momento das bonanças. Sono perdido; zonas de transição que serão eternamente minhas; luz oculta em covil não me volto para achar-vos. E sempre adiante busco minha paisagem impor-se nas paliçadas alheias.
Já não necessito de ti Tenho a companhia noturna dos animais e a peste Tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio De outras galáxias, e o remorso.....
.....um dia pressenti a música estelar das pedras abandonei-me ao silêncio..... é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração não, não preciso mais de mim possuo a doença dos espaços incomensuráveis e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto deixei de estar disponível, perdoa-me se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.
Como a vida muda. Como a vida é muda. Como a vida é nula. Como a vida é nada. Como a vida é tudo. Tudo que se perde mesmo sem ter ganho. Como a vida é senha de outra vida nova que envelhece antes de romper o novo. Como a vida é outra sempre outra, outra não a que é vivida. Como a vida é vida ainda quando morte esculpida em vida. Como a vida é forte em suas algemas. Como dói a vida quando tira a veste de prata celeste. Como a vida é isto misturado àquilo. Como a vida é bela sendo uma pantera de garra quebrada. Como a vida é louca estúpida, mouca e no entanto chama a torrar-se em chama. Como a vida chora de saber que é vida e nunca nunca nunca leva a sério o homem, esse lobisomem. Como a vida ri a cada manhã de seu próprio absurdo e a cada momento dá de novo a todos uma prenda estranha. Como a vida joga de paz e de guerra povoando a terra de leis e fantasmas. Como a vida toca seu gasto realejo fazendo da valsa um puro Vivaldi. Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida em flor e formiga em seixo rolado peito desolado coração amante. E como se salva a uma só palavra escrita no sangue desde o nascimento: amor, vidamor!
A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso, não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a partir da página em branco Como escrita de poema obstinado?
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas
Como alguém que por mares desconhecidos viajou, assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria; os dias cheios estão sobre as suas mesas mas para mim a distância é puro sonho.
Penetra profundamente no meu rosto um mundo, tão desabitado talvez como uma lua; mas eles não deixam um único pensamento só, e todas as suas palavras são habitadas.
As coisas que de longe trouxe comigo parecem muito raras, comparadas com as suas —: na sua vasta pátria são feras, aqui sustém a respiração, por vergonha.
Rainer Maria Rilke in O Livro das Imagens (Tradução de Maria João Costa Pereira)
Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...
Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força de dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...
Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir , se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...
Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano, Firmo o projeto, aqui isolado, Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, O tique-taque estalado das máquinas de escrever. Que náusea da vida! Que abjeção esta regularidade! Que sono este ser assim!
Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros (Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância), Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho, Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve, Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.
Outrora.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Temos todos duas vidas: A verdadeira, que é a que sonhamos na infância, E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa; A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros, Que é a prática, a útil, Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes, Há só ilustrações de infância: Grandes livros coloridos, para ver mas não ler; Grandes páginas de cores para recordar mais tarde. Na outra somos nós, Na outra vivemos; Nesta morremos, que é o que viver quer dizer; Neste momento, pela náusea, vivo na outra…
Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Há tanto tempo que me entendo tua, exilada do meu elemento de origem: ar, não mais terra, o meu de escolha, mas água, teu elemento, aquele que é do amor e do amar.
Se a outro pertencia, pertenço agora a este signo: da liquidez, do aguaceiro. E a ele me entrego, desaguada, sem medir margens, unindo a toda esta água do teu signo minha água primitiva e desatada.
Esta epiderme há muitos muitos anos me cobre: guarda algumas cicatrizes, outras não lembra mais, e até mistura uns caminhos da infância a outros de agora.
As unhas não direi que são as mesmas com que o seio nutriz terei vincado: são mais duras, mais feias e mais sujas — pois nem sempre de amor e entrega foi o chão em que plantei, colhi nem sempre.
Se os dentes não gastei, gastei meus olhos entrevendo paisagens, vendo coisas, cegando-me ante sésamos de sombra.
A alma apanhou demais e vai pejada, mas vão leves as mãos cheias de nada.