Silêncio e Palavra

I

A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos

Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.

Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.

Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.

II

Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)

Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transformaremos.

E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta - humilde e pura - ,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.


Thiago de Mello



X - Deixa que o olhar do mundo

Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.


Olavo Bilac

2.2

Lugar sem comportamento é o coração.
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho.
A luz das horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos.
Meu fanal e um poente com andorinhas.
Desenvolvo meu ser até encostar na pedra.
Repousa uma garoa sobre a noite.
Aceito no meu fado o escurecer.
No fim da treva uma coruja entrava.


Manoel de Barros in O Livro das Ignorãças

Pergunto-te onde se acha a minha vida

Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.


Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.


E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.


Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.


Cecília Meireles

Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!


José Régio

No lugar dos palácios...

No lugar dos palácios desertos e em ruínas

À beira do mar,

Leiamos, sorrindo, os segredos dos sinais

De quem sabe amar.


Qualquer que ele seja, o destino daqueles

Que o amor levou

Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,

Qualquer fosse o vôo.


Por certo eles foram mais reais e felizes.


Álvaro de Campos

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um outubro

e quanto mais amada mais desisto:

quanto mais tu me despes mais me cubro

e quanto mais me escondo mais me avisto.


E sei que mais te enleio e te deslumbro

porque se mais me ofusco mais existo.

Por dentro me ilumino, sol oculto,

por fora te ajoelho, corpo místico.


Não me acordes. Estou morta na quermesse

dos teus beijos. Etérea, a minha espécie

nem teus zelos amantes a demovem.


Mas quanto mais em nuvem me desfaço

mais de terra e de fogo é o abraço

com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correa


Pequeno Poema Didático

O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.


A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa.


Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre…
Todas as horas são horas extremas!

Mário Quintana

Poema


É estranho que ainda te reconheça e te acene desesperadamente

como um náufrago.

Renasces a cada instante

– nenhuma revelação te destrói ou te diminui, –

e te apresentas a mim

como se eu só te visse em sonho.

Ainda que fosses um mito eu não te amaria tanto.


Emílio Moura

Teu corpo seja brasa

teu corpo seja brasa

e o meu a casa

que se consome no fogo


um incêndio basta

pra consumar esse jogo

uma fogueira chega

pra eu brincar de novo.


Alice Ruiz

Por que nome chamaremos



Por que nome chamaremos

quando nos sentirmos pálidos

sobre os abismos supremos?


De que rosto, olhar, instante,

veremos brilhar as âncoras

para as mãos agonizantes?


Que salvação vai ser essa,

com tão fortes asas súbitas,

na definitiva pressa?


Ó grande urgência do aflito!

Ecos de misericórdia

procuram lágrima e grito,


– andam nas ruas do mundo,

pondo sedas de silêncio

em lábios de moribundo.


Cecília Meireles


O Alvo

Não quero achar o que os outros perderam:
as moedas no chão,
os guarda-chuvas esquecidos nos ônibus,
e a vida deixada por engano sobre o asfalto.
Ao que ninguém viu, aspiro;
ao que existiria em forma de mar e árvore,
se a natureza habitual não irrompesse
com suas sombras e cigarras e cascatas.
Quero, sonho e admiro o inédito
como a noite no caracol de uma escada
contudo perto das constelações
se eu pudesse vê-las de outro planeta.


Não me comove o irretornável nem o tempo caído.
Em jogo descoberto, crio minha emoção
e à janela contemplo a noite formal
e eu mesmo sou ogiva aberta aos grandes astros.
O que se perdeu, vai-se embora,
como os anéis separados das mãos,
como a ventania se afasta das bandeiras
no momento das bonanças.
Sono perdido;
zonas de transição que serão eternamente minhas;
luz oculta em covil
não me volto para achar-vos.
E sempre adiante busco minha paisagem impor-se
nas paliçadas alheias.

Lêdo Ivo

Desencanto

Eu faço versos como quem chora

De desalento. . . de desencanto. . .

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.


Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.


E nestes versos de angústia rouca,

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.


– Eu faço versos como quem morre.


Manuel Bandeira

..............

Bucólica

A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;


De casas de moradia

Caídas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;


De poeira;

De sombra de uma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma mãe que faz a trança à filha.


Miguel Torga


Cantarei o Amor

Acima de tudo

cantarei o amor


O de Cristo e Confúcio, o de Romeu e D. Juan,

acima de tudo cantarei o amor .


Em todos os momentos, lascivos ou gloriosos,

mansos ou eróticos,

unindo dois ou arrastando milhões,

nascido da ternura ou da revolta,

procriando seres ou idéias,

acima de tudo cantarei o amor.


O amor

-cimento e força -

que constrói e ilumina

que convoca e conquista,

- bola de neve do Bem inevitável -

acima de tudo cantarei o amor.


E o tirarei do coração

como a hóstia do cálice

ou o sol, da manhã,

ou a espada, da bainha,

- fulcro para a alavanca do meu verso

mover o mundo -


acima de tudo cantarei o amor.


J.G. de Araújo Jorge


Poema da Despedida

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs

Eu já devolvi as chaves da minha porta

E desisto de qualquer direito à minha casa.

Fomos vizinhos durante muito tempo

E recebi mais do que pude dar.

Agora vai raiando o dia

E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro

Apagou-se.

Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.

Não indaguem sobre o que levo comigo.

Sigo de mãos vazias e o coração confiante.


Rabindranath Tagore.


A lição de poesia

1.


Toda a manhã consumida

como um sol imóvel

diante da folha em branco:

princípio do mundo, lua nova.


Já não podias desenhar

sequer uma linha;

um nome, sequer uma flor

desabrochava no verão da mesa:


nem no meio-dia iluminado,

cada dia comprado,

do papel, que pode aceitar,

contudo, qualquer mundo.


2.


A noite inteira o poeta

em sua mesa, tentando

salvar da morte os monstros

germinados em seu tinteiro.


Monstros, bichos, fantasmas

de palavras, circulando,

urinando sobre o papel,

sujando-o com seu carvão.


Carvão de lápis, carvão

da idéia fixa, carvão

da emoção extinta, carvão

consumido nos sonhos.


3.


A luta branca sobre o papel

que o poeta evita,

luta branca onde corre o sangue

de suas veias de água salgada.


A física do susto percebida

entre os gestos diários;

susto das coisas jamais pousadas

porém imóveis - naturezas vivas.


E as vinte palavras recolhidas

as águas salgadas do poeta

e de que se servirá o poeta

em sua máquina útil.


Vinte palavras sempre as mesmas

de que conhece o funcionamento,

a evaporação, a densidade

menor que a do ar.


João Cabral de Melo Neto

Ofício de Amar

Já não necessito de ti
Tenho a companhia noturna dos animais e a peste
Tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio
De outras galáxias, e o remorso.....

.....um dia pressenti a música estelar das pedras
abandonei-me ao silêncio.....
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.



Al Berto

Parolagem da Vida


Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

Carlos Drummond de Andrade


Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)

São uma parte de mim, como este rosto

De têmporas e olhos já cinzentos

Que em vão vou procurando nos espelhos

E que percorro com a minha mão côncava.

Não sem alguma lógica amargura

Entendo que as palavras essenciais,

As que me exprimem, estarão nessas folhas

Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.

Mais vale assim. As vozes desses mortos

Dir-me-ão para sempre.


Jorge Luis Borges in A Rosa Profunda

Natureza Íntima

(Ao filósofo Farias Brito)


Cansada de observar-se na corrente

Que os acontecimentos refletia,

Reconcentrando-se em si mesma, um dia,

A Natureza olhou-se interiormente!


Baldada introspecção! Noumenalmente

O que Ela, em realidade, ainda sentia

Era a mesma imortal monotonia

De sua face externa indiferente!


E a Natureza disse com desgosto:

"Terei somente, porventura, rosto?!

"Serei apenas mera crusta espessa?!


"Pois é possível que Eu, causa do Mundo,

"Quanto mais em mim mesma me aprofundo,

"Menos interiormente me conheça?!"


Augusto dos Anjos

8


parem

eu confesso

sou poeta


cada manhã que nasce

me nasce

uma rosa na face


parem

eu confesso

sou poeta


só meu amor é meu deus


eu sou o seu profeta.


Paulo Leminski

..........

Faz-me o favor

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!

Supor o que dirá

Tua boca velada

É ouvir-te já.


É ouvir-te melhor

Do que o dirias.

O que és não vem à flor

Das caras e dos dias.


Tu és melhor -- muito melhor!

Do que tu. Não digas nada. Sê

Alma do corpo nu

Que do espelho se vê.


Mário Cesariny


Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos


Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso, não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?


Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas

O Solitário

Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.


Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.


As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.



Rainer Maria Rilke in O Livro das Imagens
(Tradução de Maria João Costa Pereira)

Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente,

e me ouves de longe, minha voz não te toca.

Parece que os olhos tivessem de ti voado

e parece que um beijo te fechara a boca.


Como todas as coisas estão cheias da minha alma

emerge das coisas, cheia da minha alma.

Borboleta de sonho, pareces com minha alma,

e te pareces com a palavra melancolia.


Gosto de ti quando calas e estás como distante.

E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.

E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:

Deixa-me que me cale com o silêncio teu.


Deixa-me que te fale também com o teu silêncio

claro como uma lâmpada, simples como um anel.

És como a noite, calada e constelada.

Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.


Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.

Distante e dolorosa como se tivesses morrido.

Uma palavra então, um sorriso bastam.

E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.


Pablo Neruda


Consciência Cósmica


Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...



Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força de dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...



Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir , se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...


João Guimarães Rosa


Dois Rumos

Mentir, eis o problema:

minto de vez em quando

ou sempre, por sistema?


Se mentir todo dia,

erguerei um castelo

em alta serrania


contra toda escalada,

e mais ninguém no mundo

me atira seta ervada?


Livre estarei, e dentro

de mim outra verdade

rebrilhará no centro?


Ou mentirei apenas

no varejo da vida,

sem alívio de penas,


sem suporte e armadura

ante o império dos grandes,

frágil, frágil criatura?


Pensarei ainda nisto.

Por enquanto não sei

se me exponho ou resisto,


se componho um casulo

e nele me agasalho,

tornando o resto nulo,


ou adiro à suposta

verdade contingente

que, de verdade, mente.


Carlos Drummond de Andrade in 'Boitempo'

O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos

Como um divino vinho de Falerno!

Poisando em ti o meu amor eterno

Como poisam as folhas sobre os lagos...


Os meus sonhos agora são mais vagos...

O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...

E a Vida já não é o rubro inferno

Todo fantasmas tristes e pressagos!


A vida, meu Amor, quer vivê-la!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,

Bocas unidas hemos de bebê-la!


Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...

O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...


Florbela Espanca

Datilografia

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra…

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Álvaro de Campos

Signo


Há tanto tempo que me entendo tua,
exilada do meu elemento de origem: ar,
não mais terra, o meu de escolha,
mas água, teu elemento, aquele
que é do amor e do amar.


Se a outro pertencia, pertenço agora a este
signo: da liquidez, do aguaceiro. E a ele
me entrego, desaguada, sem medir margens,
unindo a toda esta água do teu signo
minha água primitiva e desatada.


Olga Savary

Inventário

Esta epiderme há muitos muitos anos
me cobre: guarda algumas cicatrizes,
outras não lembra mais, e até mistura
uns caminhos da infância a outros de agora.

As unhas não direi que são as mesmas
com que o seio nutriz terei vincado:
são mais duras, mais feias e mais sujas
— pois nem sempre de amor e entrega foi
o chão em que plantei, colhi nem sempre.

Se os dentes não gastei, gastei meus olhos
entrevendo paisagens, vendo coisas,
cegando-me ante sésamos de sombra.

A alma apanhou demais e vai pejada,
mas vão leves as mãos cheias de nada.

Geir Campos


No Turbilhão

(A Jaime Batalha Reis)


No meu sonho desfilam as visões,

Espectros dos meus próprios pensamentos,

Como um bando levado pelos ventos,

Arrebatado em vastos turbilhões...


N'uma espiral, de estranhas contorsões,

E d'onde saem gritos e lamentos,

Vejo-os passar, em grupos nevoentos,

Distingo-lhes, a espaços, as feições...


— Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,

Que me fitais com formidável calma,

Levados na onda turva do escarcéu,


Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?

Quem sois, visões misérrimas e atrozes?

Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...


Antero de Quental in Sonetos


A Palavra

Já não quero dicionários

consultados em vão.

Quero só a palavra

que nunca estará neles

nem se pode inventar.


Que resumiria o mundo

e o substituiria.

Mais sol do que o sol,

dentro da qual vivêssemos

todos em comunhão,

mudos,

saboreando-a.


Carlos Drummond de Andrade

Assim choram os deuses

Os deuses desterrados.
Os irmãos de Saturno,
Às vezes, no crepúsculo
Vêm espreitar a vida.



Vêm então ter conosco
Remorsos e saudades
E sentimentos falsos.
É a presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria vencida,
Longínqua e inativa.



Vêm, inúteis forças,
Solicitar em nós
As
dores e os cansaços,

Que nos tiram da mão,
Como a um bêbedo mole,
A taça da alegria.



Vêm fazer-nos crer,
Despeitadas ruínas
De primitivas forças,
Que o mundo é mais extenso
Que o que se vê e palpa,
Para que ofendamos
A Júpiter e a Apolo.



Assim até à beira
Terrena do horizonte
Hiperion no crepúsculo
Vem chorar pelo carro
Que Apolo lhe roubou.



E o poente tem cores
Da dor dum deus longínquo,
E ouve-se soluçar
Para além das esferas...
Assim choram os deuses.



Ricardo Reis, in Odes

Amargura

Ah! não ser compreendido é a tortura do Artista!

Ofegante, rompendo os joelhos pelas fragas,

Vê, debalde, fulgir, nas nuvens de ametista,

A miragem do ideal, entre as estrelas magas...


Arqueja; o vendaval de angústias que o contrista

Vem-lhe aos olhos sangrar em tristezas pressagas...

Alça a vista: arde o céu tão longe! Baixa a vista:

Tão longe os corações a rolar como as vagas!


E ele, que tem o azul preso no crânio aflito,

Abre em astros de sangue a noite dos abrolhos,

Ergue constelações de rimas no infinito...


Soluça de aflição no deserto profundo,

Tendo os astros no olhar e a noite sobre os olhos,

Tendo os mundos nas mãos sem nada ter no Mundo!...


Moacir de Almeida