Por que nome chamaremos



Por que nome chamaremos

quando nos sentirmos pálidos

sobre os abismos supremos?


De que rosto, olhar, instante,

veremos brilhar as âncoras

para as mãos agonizantes?


Que salvação vai ser essa,

com tão fortes asas súbitas,

na definitiva pressa?


Ó grande urgência do aflito!

Ecos de misericórdia

procuram lágrima e grito,


– andam nas ruas do mundo,

pondo sedas de silêncio

em lábios de moribundo.


Cecília Meireles


O Alvo

Não quero achar o que os outros perderam:
as moedas no chão,
os guarda-chuvas esquecidos nos ônibus,
e a vida deixada por engano sobre o asfalto.
Ao que ninguém viu, aspiro;
ao que existiria em forma de mar e árvore,
se a natureza habitual não irrompesse
com suas sombras e cigarras e cascatas.
Quero, sonho e admiro o inédito
como a noite no caracol de uma escada
contudo perto das constelações
se eu pudesse vê-las de outro planeta.


Não me comove o irretornável nem o tempo caído.
Em jogo descoberto, crio minha emoção
e à janela contemplo a noite formal
e eu mesmo sou ogiva aberta aos grandes astros.
O que se perdeu, vai-se embora,
como os anéis separados das mãos,
como a ventania se afasta das bandeiras
no momento das bonanças.
Sono perdido;
zonas de transição que serão eternamente minhas;
luz oculta em covil
não me volto para achar-vos.
E sempre adiante busco minha paisagem impor-se
nas paliçadas alheias.

Lêdo Ivo

Desencanto

Eu faço versos como quem chora

De desalento. . . de desencanto. . .

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.


Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.


E nestes versos de angústia rouca,

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.


– Eu faço versos como quem morre.


Manuel Bandeira

..............

Bucólica

A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;


De casas de moradia

Caídas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;


De poeira;

De sombra de uma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma mãe que faz a trança à filha.


Miguel Torga


Cantarei o Amor

Acima de tudo

cantarei o amor


O de Cristo e Confúcio, o de Romeu e D. Juan,

acima de tudo cantarei o amor .


Em todos os momentos, lascivos ou gloriosos,

mansos ou eróticos,

unindo dois ou arrastando milhões,

nascido da ternura ou da revolta,

procriando seres ou idéias,

acima de tudo cantarei o amor.


O amor

-cimento e força -

que constrói e ilumina

que convoca e conquista,

- bola de neve do Bem inevitável -

acima de tudo cantarei o amor.


E o tirarei do coração

como a hóstia do cálice

ou o sol, da manhã,

ou a espada, da bainha,

- fulcro para a alavanca do meu verso

mover o mundo -


acima de tudo cantarei o amor.


J.G. de Araújo Jorge


Poema da Despedida

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs

Eu já devolvi as chaves da minha porta

E desisto de qualquer direito à minha casa.

Fomos vizinhos durante muito tempo

E recebi mais do que pude dar.

Agora vai raiando o dia

E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro

Apagou-se.

Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.

Não indaguem sobre o que levo comigo.

Sigo de mãos vazias e o coração confiante.


Rabindranath Tagore.


A lição de poesia

1.


Toda a manhã consumida

como um sol imóvel

diante da folha em branco:

princípio do mundo, lua nova.


Já não podias desenhar

sequer uma linha;

um nome, sequer uma flor

desabrochava no verão da mesa:


nem no meio-dia iluminado,

cada dia comprado,

do papel, que pode aceitar,

contudo, qualquer mundo.


2.


A noite inteira o poeta

em sua mesa, tentando

salvar da morte os monstros

germinados em seu tinteiro.


Monstros, bichos, fantasmas

de palavras, circulando,

urinando sobre o papel,

sujando-o com seu carvão.


Carvão de lápis, carvão

da idéia fixa, carvão

da emoção extinta, carvão

consumido nos sonhos.


3.


A luta branca sobre o papel

que o poeta evita,

luta branca onde corre o sangue

de suas veias de água salgada.


A física do susto percebida

entre os gestos diários;

susto das coisas jamais pousadas

porém imóveis - naturezas vivas.


E as vinte palavras recolhidas

as águas salgadas do poeta

e de que se servirá o poeta

em sua máquina útil.


Vinte palavras sempre as mesmas

de que conhece o funcionamento,

a evaporação, a densidade

menor que a do ar.


João Cabral de Melo Neto

Ofício de Amar

Já não necessito de ti
Tenho a companhia noturna dos animais e a peste
Tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio
De outras galáxias, e o remorso.....

.....um dia pressenti a música estelar das pedras
abandonei-me ao silêncio.....
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.



Al Berto

Parolagem da Vida


Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

Carlos Drummond de Andrade


Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)

São uma parte de mim, como este rosto

De têmporas e olhos já cinzentos

Que em vão vou procurando nos espelhos

E que percorro com a minha mão côncava.

Não sem alguma lógica amargura

Entendo que as palavras essenciais,

As que me exprimem, estarão nessas folhas

Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.

Mais vale assim. As vozes desses mortos

Dir-me-ão para sempre.


Jorge Luis Borges in A Rosa Profunda

Natureza Íntima

(Ao filósofo Farias Brito)


Cansada de observar-se na corrente

Que os acontecimentos refletia,

Reconcentrando-se em si mesma, um dia,

A Natureza olhou-se interiormente!


Baldada introspecção! Noumenalmente

O que Ela, em realidade, ainda sentia

Era a mesma imortal monotonia

De sua face externa indiferente!


E a Natureza disse com desgosto:

"Terei somente, porventura, rosto?!

"Serei apenas mera crusta espessa?!


"Pois é possível que Eu, causa do Mundo,

"Quanto mais em mim mesma me aprofundo,

"Menos interiormente me conheça?!"


Augusto dos Anjos

8


parem

eu confesso

sou poeta


cada manhã que nasce

me nasce

uma rosa na face


parem

eu confesso

sou poeta


só meu amor é meu deus


eu sou o seu profeta.


Paulo Leminski

..........

Faz-me o favor

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!

Supor o que dirá

Tua boca velada

É ouvir-te já.


É ouvir-te melhor

Do que o dirias.

O que és não vem à flor

Das caras e dos dias.


Tu és melhor -- muito melhor!

Do que tu. Não digas nada. Sê

Alma do corpo nu

Que do espelho se vê.


Mário Cesariny


Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos


Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso, não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?


Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas

O Solitário

Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.


Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.


As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.



Rainer Maria Rilke in O Livro das Imagens
(Tradução de Maria João Costa Pereira)

Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente,

e me ouves de longe, minha voz não te toca.

Parece que os olhos tivessem de ti voado

e parece que um beijo te fechara a boca.


Como todas as coisas estão cheias da minha alma

emerge das coisas, cheia da minha alma.

Borboleta de sonho, pareces com minha alma,

e te pareces com a palavra melancolia.


Gosto de ti quando calas e estás como distante.

E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.

E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:

Deixa-me que me cale com o silêncio teu.


Deixa-me que te fale também com o teu silêncio

claro como uma lâmpada, simples como um anel.

És como a noite, calada e constelada.

Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.


Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.

Distante e dolorosa como se tivesses morrido.

Uma palavra então, um sorriso bastam.

E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.


Pablo Neruda


Consciência Cósmica


Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...



Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força de dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...



Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir , se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...


João Guimarães Rosa


Dois Rumos

Mentir, eis o problema:

minto de vez em quando

ou sempre, por sistema?


Se mentir todo dia,

erguerei um castelo

em alta serrania


contra toda escalada,

e mais ninguém no mundo

me atira seta ervada?


Livre estarei, e dentro

de mim outra verdade

rebrilhará no centro?


Ou mentirei apenas

no varejo da vida,

sem alívio de penas,


sem suporte e armadura

ante o império dos grandes,

frágil, frágil criatura?


Pensarei ainda nisto.

Por enquanto não sei

se me exponho ou resisto,


se componho um casulo

e nele me agasalho,

tornando o resto nulo,


ou adiro à suposta

verdade contingente

que, de verdade, mente.


Carlos Drummond de Andrade in 'Boitempo'

O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos

Como um divino vinho de Falerno!

Poisando em ti o meu amor eterno

Como poisam as folhas sobre os lagos...


Os meus sonhos agora são mais vagos...

O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...

E a Vida já não é o rubro inferno

Todo fantasmas tristes e pressagos!


A vida, meu Amor, quer vivê-la!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,

Bocas unidas hemos de bebê-la!


Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...

O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...


Florbela Espanca

Datilografia

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra…

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Álvaro de Campos

Signo


Há tanto tempo que me entendo tua,
exilada do meu elemento de origem: ar,
não mais terra, o meu de escolha,
mas água, teu elemento, aquele
que é do amor e do amar.


Se a outro pertencia, pertenço agora a este
signo: da liquidez, do aguaceiro. E a ele
me entrego, desaguada, sem medir margens,
unindo a toda esta água do teu signo
minha água primitiva e desatada.


Olga Savary

Inventário

Esta epiderme há muitos muitos anos
me cobre: guarda algumas cicatrizes,
outras não lembra mais, e até mistura
uns caminhos da infância a outros de agora.

As unhas não direi que são as mesmas
com que o seio nutriz terei vincado:
são mais duras, mais feias e mais sujas
— pois nem sempre de amor e entrega foi
o chão em que plantei, colhi nem sempre.

Se os dentes não gastei, gastei meus olhos
entrevendo paisagens, vendo coisas,
cegando-me ante sésamos de sombra.

A alma apanhou demais e vai pejada,
mas vão leves as mãos cheias de nada.

Geir Campos


No Turbilhão

(A Jaime Batalha Reis)


No meu sonho desfilam as visões,

Espectros dos meus próprios pensamentos,

Como um bando levado pelos ventos,

Arrebatado em vastos turbilhões...


N'uma espiral, de estranhas contorsões,

E d'onde saem gritos e lamentos,

Vejo-os passar, em grupos nevoentos,

Distingo-lhes, a espaços, as feições...


— Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,

Que me fitais com formidável calma,

Levados na onda turva do escarcéu,


Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?

Quem sois, visões misérrimas e atrozes?

Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...


Antero de Quental in Sonetos


A Palavra

Já não quero dicionários

consultados em vão.

Quero só a palavra

que nunca estará neles

nem se pode inventar.


Que resumiria o mundo

e o substituiria.

Mais sol do que o sol,

dentro da qual vivêssemos

todos em comunhão,

mudos,

saboreando-a.


Carlos Drummond de Andrade

Assim choram os deuses

Os deuses desterrados.
Os irmãos de Saturno,
Às vezes, no crepúsculo
Vêm espreitar a vida.



Vêm então ter conosco
Remorsos e saudades
E sentimentos falsos.
É a presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria vencida,
Longínqua e inativa.



Vêm, inúteis forças,
Solicitar em nós
As
dores e os cansaços,

Que nos tiram da mão,
Como a um bêbedo mole,
A taça da alegria.



Vêm fazer-nos crer,
Despeitadas ruínas
De primitivas forças,
Que o mundo é mais extenso
Que o que se vê e palpa,
Para que ofendamos
A Júpiter e a Apolo.



Assim até à beira
Terrena do horizonte
Hiperion no crepúsculo
Vem chorar pelo carro
Que Apolo lhe roubou.



E o poente tem cores
Da dor dum deus longínquo,
E ouve-se soluçar
Para além das esferas...
Assim choram os deuses.



Ricardo Reis, in Odes

Amargura

Ah! não ser compreendido é a tortura do Artista!

Ofegante, rompendo os joelhos pelas fragas,

Vê, debalde, fulgir, nas nuvens de ametista,

A miragem do ideal, entre as estrelas magas...


Arqueja; o vendaval de angústias que o contrista

Vem-lhe aos olhos sangrar em tristezas pressagas...

Alça a vista: arde o céu tão longe! Baixa a vista:

Tão longe os corações a rolar como as vagas!


E ele, que tem o azul preso no crânio aflito,

Abre em astros de sangue a noite dos abrolhos,

Ergue constelações de rimas no infinito...


Soluça de aflição no deserto profundo,

Tendo os astros no olhar e a noite sobre os olhos,

Tendo os mundos nas mãos sem nada ter no Mundo!...


Moacir de Almeida


Neste momento terno e pensativo

Neste momento terno e pensativo

Aqui sentado a sós

Sinto que existem noutras terras outros homens

Ternos e pensativos,

Sinto que posso dar uma espiada

Por cima e avistá-los

Na França, Espanha, Itália e Alemanha

Ou mais longe ainda

No Japão, China ou Rússia,

Falando outros dialetos,

E sinto que se me fosse possível

Conhecer esses homens

Eu poderia bem ligar-me a eles

Como acontece com homens de minha terra,

Ah e sei que poderíamos

Ser irmãos ou amantes

E que com eles eu estaria feliz.


Walt Whitman



Nem sequer sou poeira

Não quero ser quem sou. A avara sorte

Quis-me oferecer o século dezessete,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, dá a véspera,

A palestra do padre ou do barbeiro,

A solidão que o tempo vai deixando

E uma vaga sobrinha analfabeta.

Já sou entrado em anos. Uma página

Casual revelou-me vozes novas,

Amadis e Urganda, a perseguir-me.

Vendi as terras e comprei os livros

Que narram por inteiro essas empresas:

O Graal, que recolheu o sangue humano

Que o Filho derramou pra nos salvar,

Maomé e o seu ídolo de ouro,

Os ferros, as ameias, as bandeiras

E as operações e truques de magia.

Cavaleiros cristãos lá percorriam

Os reinos que há na terra, na vingança

Da ultrajada honra ou querendo impor

A justiça no fio de cada espada.

Queira Deus que um enviado restitua

Ao nosso tempo esse exercício nobre.

Os meus sonhos avistam-no. Senti-o

Na minha carne triste e solitária.

Seu nome ainda não sei. Mas eu, Quijano,

Serei o paladino. Serei sonho.

Nesta casa já velha há uma adarga

Antiga e uma folha de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que ao meu braço prometem a vitória.

Ao meu braço? O meu rosto (que não vi)

Não projeta uma cara em nenhum espelho.

Nem sequer sou poeira. Sou um sonho.


Jorge Luis Borges, in História da Noite

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Soneto XXIV


Agora, peço muito que me ajudes

A retornar ao ponto de partida,

Novos olhos revejam minha vida

Antes que ela transborde dos açudes.


Despirei nesse instante as atitudes,

Minha roupa de estrelas já cerzida,

O chapéu de alvoradas e a esquecida

Capa de chuvas e de ventos rudes.


Comigo ficarão unicamente

Os versos que escrevi e as derradeiras

Flores que desfolhaste em minha mente.


Depois, no grande espelho, a tarde é calma:

– Saber que passo além destas fronteiras,

Com meus disfarces já cobertos de alma!



Paulo Bomfim


Romance XXIV ou Da Bandeira da Inconfidência

.
.
Através de grossas portas,
sentem-se a luzes acesas,
- e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
brilham fardas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns são renós, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio,
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e das colônias inglesas.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados,
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE
ouve-se ao redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus - pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
- e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
"Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias das Gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?"
(Antiguidades de Nîmes
em Vila Rica suspensas!
Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da Independência!
Liberdade - essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.

Cecília Meireles in Romanceiro da Inconfidência

Respiro teu nome

Respiro teu nome,

Que brisa tão pura

Súbito circula

No meu coração!


Respiro teu nome,

Repentinamente,

De mim se desprende

A voz da canção.


Respiro teu nome,

Que nome? Procuro...

- Ah! teu nome é tudo,

E é tudo ilusão.


Respiro teu nome,

Sorte. Vida. Tempo.

Meu contentamento

É límpido e vão.


Respiro teu nome,

Mas teu nome passa.

Alto é o sonho. Rasa,

Minha breve mão.


Cecília Meireles


Repouso

Dá-me tua mão

E eu te levarei aos campos musicados pela

canção das colheitas

Cheguemos antes que os pássaros nos disputem

os frutos,

Antes que os insetos se alimentem das folhas

entreabertas.


Dá-me tua mão

E eu te levarei a gozar a alegria do solo

agradecido,

Te darei por leito a terra amiga

E repousarei tua cabeça envelhecida

Na relva silenciosa dos campos.


Nada te perguntarei,

Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes

E as palavras do meu olhar sobre tua face muito

amada.


Adalgisa Nery


...........

5 de setembro

Quando nos criaram,

as mãos do deus já estavam

cansadas.

Por isso,

somos frágeis e mortais. E amamos,

para resgatar o que no deus

foi sonho.


Alberto da Costa e Silva