Neste momento terno e pensativo

Neste momento terno e pensativo

Aqui sentado a sós

Sinto que existem noutras terras outros homens

Ternos e pensativos,

Sinto que posso dar uma espiada

Por cima e avistá-los

Na França, Espanha, Itália e Alemanha

Ou mais longe ainda

No Japão, China ou Rússia,

Falando outros dialetos,

E sinto que se me fosse possível

Conhecer esses homens

Eu poderia bem ligar-me a eles

Como acontece com homens de minha terra,

Ah e sei que poderíamos

Ser irmãos ou amantes

E que com eles eu estaria feliz.


Walt Whitman



Nem sequer sou poeira

Não quero ser quem sou. A avara sorte

Quis-me oferecer o século dezessete,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, dá a véspera,

A palestra do padre ou do barbeiro,

A solidão que o tempo vai deixando

E uma vaga sobrinha analfabeta.

Já sou entrado em anos. Uma página

Casual revelou-me vozes novas,

Amadis e Urganda, a perseguir-me.

Vendi as terras e comprei os livros

Que narram por inteiro essas empresas:

O Graal, que recolheu o sangue humano

Que o Filho derramou pra nos salvar,

Maomé e o seu ídolo de ouro,

Os ferros, as ameias, as bandeiras

E as operações e truques de magia.

Cavaleiros cristãos lá percorriam

Os reinos que há na terra, na vingança

Da ultrajada honra ou querendo impor

A justiça no fio de cada espada.

Queira Deus que um enviado restitua

Ao nosso tempo esse exercício nobre.

Os meus sonhos avistam-no. Senti-o

Na minha carne triste e solitária.

Seu nome ainda não sei. Mas eu, Quijano,

Serei o paladino. Serei sonho.

Nesta casa já velha há uma adarga

Antiga e uma folha de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que ao meu braço prometem a vitória.

Ao meu braço? O meu rosto (que não vi)

Não projeta uma cara em nenhum espelho.

Nem sequer sou poeira. Sou um sonho.


Jorge Luis Borges, in História da Noite

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Soneto XXIV


Agora, peço muito que me ajudes

A retornar ao ponto de partida,

Novos olhos revejam minha vida

Antes que ela transborde dos açudes.


Despirei nesse instante as atitudes,

Minha roupa de estrelas já cerzida,

O chapéu de alvoradas e a esquecida

Capa de chuvas e de ventos rudes.


Comigo ficarão unicamente

Os versos que escrevi e as derradeiras

Flores que desfolhaste em minha mente.


Depois, no grande espelho, a tarde é calma:

– Saber que passo além destas fronteiras,

Com meus disfarces já cobertos de alma!



Paulo Bomfim


Romance XXIV ou Da Bandeira da Inconfidência

.
.
Através de grossas portas,
sentem-se a luzes acesas,
- e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
brilham fardas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns são renós, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio,
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e das colônias inglesas.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados,
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE
ouve-se ao redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus - pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
- e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
"Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias das Gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?"
(Antiguidades de Nîmes
em Vila Rica suspensas!
Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da Independência!
Liberdade - essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.

Cecília Meireles in Romanceiro da Inconfidência

Respiro teu nome

Respiro teu nome,

Que brisa tão pura

Súbito circula

No meu coração!


Respiro teu nome,

Repentinamente,

De mim se desprende

A voz da canção.


Respiro teu nome,

Que nome? Procuro...

- Ah! teu nome é tudo,

E é tudo ilusão.


Respiro teu nome,

Sorte. Vida. Tempo.

Meu contentamento

É límpido e vão.


Respiro teu nome,

Mas teu nome passa.

Alto é o sonho. Rasa,

Minha breve mão.


Cecília Meireles


Repouso

Dá-me tua mão

E eu te levarei aos campos musicados pela

canção das colheitas

Cheguemos antes que os pássaros nos disputem

os frutos,

Antes que os insetos se alimentem das folhas

entreabertas.


Dá-me tua mão

E eu te levarei a gozar a alegria do solo

agradecido,

Te darei por leito a terra amiga

E repousarei tua cabeça envelhecida

Na relva silenciosa dos campos.


Nada te perguntarei,

Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes

E as palavras do meu olhar sobre tua face muito

amada.


Adalgisa Nery


...........

5 de setembro

Quando nos criaram,

as mãos do deus já estavam

cansadas.

Por isso,

somos frágeis e mortais. E amamos,

para resgatar o que no deus

foi sonho.


Alberto da Costa e Silva

Soneto da Maioridade

O Sol, que pelas ruas da cidade
Revela as marcas do viver humano
Sobre teu belo rosto soberano
Espalha apenas pura claridade.


Nasceste para o Sol; és mocidade
Em plena floração, fruto sem dano
Rosa que enfloresceu, ano por ano
Para uma esplêndida maioridade.

Ao Sol, que é pai do tempo, e nunca mente
Hoje se eleva a minha prece ardente:
Não permita ele nunca que se afoite

A vida em ti, que é sumo de alegria
De maneira que tarde muito a noite
Sobre a manhã radiosa do teu dia.


Vinicius de Moraes

Amar

Amar: Fechei os olhos para não te ver

e a minha boca para não dizer...

E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,

e da minha boca fechada nasceram sussurros

e palavras mudas que te dediquei...


O amor é quando a gente mora um no outro..............


Mario Quintana

O Grito


Se ao menos esta dor servisse

se ela batesse nas paredes

abrisse portas

falasse

se ela cantasse e despenteasse os cabelos


se ao menos esta dor se visse

se ela saltasse fora da garganta como um grito

caísse da janela fizesse barulho

morresse


se a dor fosse um pedaço de pão duro

que a gente pudesse engolir com força

depois cuspir a saliva fora

sujar a rua os carros o espaço o outro

esse outro escuro que passa indiferente

e que não sofre tem o direito de não sofrer


se a dor fosse só a carne do dedo

que se esfrega na parede de pedra

para doer doer doer visível

doer penalizante

doer com lágrimas


se ao menos esta dor sangrasse


Renata Pallottini



Palavras

(...) Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam...

Prosterno-me diante delas...

Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as...

Amo tanto as palavras...

As inesperadas...

As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem...

Vocábulos amados...

Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho...

Persigo algumas palavras...

São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema...

Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas...

E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as...

Deixo-as como estalactites em meu poema;

como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda...

Tudo está na palavra...

Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu...

Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes...

São antiquíssimas e recentíssimas.

Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada...

Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos...

Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo...

Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas...

Por onde passavam a terra ficava arrasada...

Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras.

Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes...o idioma.

Saímos perdendo...

Saímos ganhando...

Levaram o ouro e nos deixaram o ouro...

Levaram tudo e nos deixaram tudo...

Deixaram-nos as palavras.


Pablo Neruda


A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.


Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de vela amarelada,
Como único bem que me ficou.


Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!


Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


Mário Quintana


Iluminados

O amor tem feito coisas

Que até mesmo Deus duvida

Já curou desenganados

Já fechou tanta ferida


O amor junta os pedaços

Quando um coração se quebra

Mesmo que seja de aço

Mesmo que seja de pedra


Fica tão cicatrizado

Que ninguém diz que é colado

Foi assim que fez em mim

Foi assim que fez em nós

Esse amor iluminado...


Ivan Lins

A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mão incríveis

tocar flauta no jardim.


Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou santa.


Eu que rejeito e exprobo

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo dia,

os cabelos entristecidos

a pele assaltada de indecisão.


Quando ele vier, porque é certo que vem,

de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos -

só a mulher entre as coisas envelhece.


De que modo vou abrir a janela, se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?


Adélia Prado


Portugal, meu avozinho

Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?


Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
- Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?


Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho,
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!


Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.


Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes...
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!


Ai! Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!


Manuel Bandeira

Nasci para administrar o à-toa

Nasci para administrar o à-toa

o em vão

o inútil.


Pertenço de fazer imagens.

Opero por semelhanças.

Retiro semelhanças de pessoas com árvores

de pessoas com rãs

de pessoas com pedras

etc etc.


Retiro semelhanças de árvores comigo.

Não tenho habilidade pra clarezas.

Preciso de obter sabedoria vegetal.

(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã

no talo.)

E quando esteja apropriado para pedra, terei também

sabedoria mineral.


Manoel de Barros


Cânticos - XII

Não fales as palavras dos homens.

Palavras com vida humana.

Que nascem, que crescem, que morrem.

Faze a tua palavra perfeita.

Dize somente coisas eternas.

Vive em todos os tempos

Pela tua voz.

Sê o que o ouvido nunca esquece.

Repete-te para sempre.

Em todos os corações.

Em todos os mundos.


Cecília Meireles

XXIX

Nós soubemos passar por esta estrada

da vida a passo cadenciado e certo.

Foi-nos o amor um velho livro aberto,

que nós folheamos de alma deslumbrada.


Findou-se o livro, quando já bem perto

vinha aquela fatal encruzilhada:

dois atalhos contrários. Fatigada,

tomaste o teu; tomei o meu, incerto.


E como duas sombras silenciosas,

vamos revendo as coisas dolorosas,

as tristíssimas coisas desta vida...


Doidos! Nunca pensamos, um segundo,

que, assim, opostos, dando a volta ao mundo,

tornaremos ao ponto de partida!


Guilherme de Almeida in Nós

Do supérfluo

Também as cousas participam

de nossa vida. Um livro. Uma rosa.

Um trecho musical que nos devolve

a horas inaugurais. O crepúsculo

acaso visto num país

que não sendo da terra

evoca apenas a lembrança

de outra lembrança mais longínqua.

O esboço tão-somente de um gesto

de ferina intenção. A graça

de um retalho de lua

a pervagar num reposteiro

A mesa sobre a qual me debruço

cada dia mais temerosa

de meus próprios dizeres.

Tais cousas de íntimo domínio

talvez sejam supérfluas.

No entanto

que tenho a ver contigo

se não leste o livro que li

não viste a rosa que plantei

nem contemplaste o pôr-do-sol

à hora em que o amor se foi?

Que tens a ver comigo

se dentro em ti não prevalecem

as cousas — todavia supérfluas —

do meu intransferível patrimônio?


Henriqueta Lisboa



I wandered lonely as a cloud


I wandered lonely as a cloud

That floats on high o'er vales and hills,

When all at once I saw a crowd,

A host, of golden daffodils;

Beside the lake, beneath the trees,

Fluttering and dancing in the breeze.


Continuous as the stars that shine

And twinkle on the milky way,

They stretched in never-ending line

Along the margin of a bay:

Ten thousand saw I at a glance,

Tossing their heads in sprightly dance.


The waves beside them danced; but they

Out-did the sparkling waves in glee:

A poet could not but be gay,

In such a jocund company:

I gazed--and gazed--but little thought

What wealth the show to me had brought:


For oft, when on my couch I lie

In vacant or in pensive mood,

They flash upon that inward eye

Which is the bliss of solitude;

And then my heart with pleasure fills,

And dances with the daffodils.


William Wordsworth

Apocalipse

Minha divinatória Arte ultrapassa

os séculos efêmeros e nota

Diminuição dinâmica, derrota

Na atual força, integérrima, da Massa.


É a subversão universal que ameaça

A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,

Destrói a ebulição que a água alvorota

E põe todos os astros na desgraça!


São despedaçamentos, derrubadas,

Federações sidéricas quebradas...

E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante,


Espião da cataclísmica surpresa

A única luz tragicamente acesa

Na universalidade agonizante!


Augusto dos Anjos


A Primeira Vez que Entendi


A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.



De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.



A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.



De
lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.


Affonso Romano de Sant'Anna

Dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse


Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.


Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta


Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.


(I)


Hilda Hilst


Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,

Se morremos em tudo o que sentimos

E podemos cantar, é porque estamos

Nus em sangue, embalando a própria dor

Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos

E a alma possuirá esse esplendor

Prometido nas formas que perdemos.


Aqui, deposta enfim a minha imagem,

Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.

No interior das coisas canto nua.


Aqui livre sou eu — eco da lua

E dos jardins, os gestos recebidos

E o tumulto dos gestos pressentidos

Aqui sou eu em tudo quanto amei.


Não pelo meu ser que só atravessei,

Não pelo meu rumor que só perdi,

Não pelos incertos atos que vivi,


Mas por tudo de quanto ressoei

E em cujo amor de amor me eternizei.


Sophia de Mello Breyner


Pensão Familiar

Jardim da pensãozinha burguesa.

Gatos espapaçados ao sol.

A tiririca sitia os canteiros chatos.

O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.

Os girassóis

amarelo!

resistem.

E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.


Um gatinho faz pipi.

Com gestos de garçom de restaurant-Palace

Encobre cuidadosamente a mijadinha.

Sai vibrando com elegância a patinha direita:

- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.


Manuel Bandeira


Apelo

...Mas deixai-me poetar

Em nome dos que não sonham,

Dos que calçam desespero

Em percursos cotidianos,

Dos que cruzam confluências

Com pára-brisas de tédio,

Dos fugitivos, nos bares,

Dos vencidos que se amam,

Dos inocentes que esperam.

...Mas deixai-me poetar

Neste esvair sem sentido

Com palavras indomadas,

Ou com vocábulos mansos.

– Que eu cante a vida que passa

E os destinos sem destino

– Que eu cubra de redondilhas

As damas da madrugada,

E meus versos sejam potros

Onde as crianças galopem,

Lona de circo estelante

Vestindo a fome do mundo,

Valsa brisa em realejo

Na esquina dos desencontros.

Sei da lógica das máquinas,

Das avenidas neuróticas,

Do roubo das alvoradas

E dos anjos que se matam.

Sou feito de tudo e nada.

...Mas deixai-me poetar!


Paulo Bomfim

As casas constroem-se de sombras

As casas constroem-se de sombra

quatro sombras ao alto

longe da esfinge dos astros



Falamos das cidades

dos homens que de tão sós

as despovoam

Das casas nunca

Só as casas solitárias têm história



Giram na noite presas

à face da terra



E vede

a plasticidade das casas

ao sol

a amabilidade das casas

à porta

a incomunicabilidade das casas

sob os bombardeios.



Sebastião Alba



À Vida

Não roubarás minha cor

Vermelha, de rio que estua.

Sou recusa: és caçador.

Persegues: eu sou a fuga.


Não dou minha alma cativa!

Colhido em pleno disparo,

Curva o pescoço o cavalo

Árabe -

E abre a veia da vida.


(Trad. Haroldo de Campos)



Não colherás no meu rosto sem ruga

A cor, violenta correnteza.

És caçadora - eu não sou presa.

És a perseguição - eu sou a fuga.

Não colherás viva minha alma!

Acossado, em pleno tropel,

Arqueia o pescoço e rasga

A veia com os dentes - o corcel

Árabe


(Trad. Augusto de Campos)


Marina Tsvetaeva

Romance LIII ou Das Palavras Aéreas

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Ai, palavras, ai, palavras,

sois de vento, ides no vento,

no vento que não retorna,

e, em tão rápida existência,

tudo se forma e transforma!


Sois de vento, ides no vento,

e quedais, com sorte nova!


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Todo o sentido da vida

principia à vossa porta;

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa:

sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota...


A liberdade das almas,

ai! com letras se elabora...

E dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam...


Detrás de grossas paredes,

de leve, quem vos desfolha?

Pareceis de tênue seda,

sem peso de ação nem de hora...

- e estais no bico das penas,

- e estais na tinta que as molha,

- e estais nas mãos dos juízes,

- e sois o ferro que arrocha,

- e sois o barco para o exílio,

- e sois Moçambique e Angola!


Ai, palavras, ai, palavras,

íeis pela estrada afora,

erguendo asas muito incertas,

entre verdade e galhofa,

desejos do tempo inquieto,

promessas que o mundo sopra...


Ai, palavras, ai, palavras,

mirai-vos: que sois, agora?


- Acusações, sentinelas,

bacamarte, algema escolta;

- o olho ardente da perfídia,

a velar, na noite morte;

- a umidade dos presídios,

- a solidão pavorosa;

- duro ferro de perguntas,

com sangue em cada resposta;

- e a sentença que caminha,

- e a esperança que não volta,

- e o coração que vacila,

- e o castigo que galopa...


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Perdão podíeis ter sido!

- sois madeira que se corta,

- sois vinte degraus de escada,

- sois um pedaço de corda...

- sois povo pelas janelas,

cortejo, bandeiras, tropa...


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro na aragem...

- sois um homem que se enforca!


Cecília Meireles in Romanceiro da Inconfidência

Os meus versos

Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste

O encanto supremo que os ditou?

Acaso, quando os leste, imaginaste

Que era o teu esse olhar que os inspirou?


Adivinhaste? Eu não posso acreditar

Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo.

Tu disseste para ti: "Por um olhar

Somente, embora fosse assim tão lindo,


Ficar amando um homem!... Que loucura!"

- Pois foi o teu olhar; a noite escura,

- (Eu só a ti digo, e muito a medo...)


Que inspirou esses versos! Teu olhar

Que eu trago dentro d'alma a soluçar!

..........................................................

Aí não descubras nunca o meu segredo!


Florbela Espanca