XXIX

Nós soubemos passar por esta estrada

da vida a passo cadenciado e certo.

Foi-nos o amor um velho livro aberto,

que nós folheamos de alma deslumbrada.


Findou-se o livro, quando já bem perto

vinha aquela fatal encruzilhada:

dois atalhos contrários. Fatigada,

tomaste o teu; tomei o meu, incerto.


E como duas sombras silenciosas,

vamos revendo as coisas dolorosas,

as tristíssimas coisas desta vida...


Doidos! Nunca pensamos, um segundo,

que, assim, opostos, dando a volta ao mundo,

tornaremos ao ponto de partida!


Guilherme de Almeida in Nós

Do supérfluo

Também as cousas participam

de nossa vida. Um livro. Uma rosa.

Um trecho musical que nos devolve

a horas inaugurais. O crepúsculo

acaso visto num país

que não sendo da terra

evoca apenas a lembrança

de outra lembrança mais longínqua.

O esboço tão-somente de um gesto

de ferina intenção. A graça

de um retalho de lua

a pervagar num reposteiro

A mesa sobre a qual me debruço

cada dia mais temerosa

de meus próprios dizeres.

Tais cousas de íntimo domínio

talvez sejam supérfluas.

No entanto

que tenho a ver contigo

se não leste o livro que li

não viste a rosa que plantei

nem contemplaste o pôr-do-sol

à hora em que o amor se foi?

Que tens a ver comigo

se dentro em ti não prevalecem

as cousas — todavia supérfluas —

do meu intransferível patrimônio?


Henriqueta Lisboa



I wandered lonely as a cloud


I wandered lonely as a cloud

That floats on high o'er vales and hills,

When all at once I saw a crowd,

A host, of golden daffodils;

Beside the lake, beneath the trees,

Fluttering and dancing in the breeze.


Continuous as the stars that shine

And twinkle on the milky way,

They stretched in never-ending line

Along the margin of a bay:

Ten thousand saw I at a glance,

Tossing their heads in sprightly dance.


The waves beside them danced; but they

Out-did the sparkling waves in glee:

A poet could not but be gay,

In such a jocund company:

I gazed--and gazed--but little thought

What wealth the show to me had brought:


For oft, when on my couch I lie

In vacant or in pensive mood,

They flash upon that inward eye

Which is the bliss of solitude;

And then my heart with pleasure fills,

And dances with the daffodils.


William Wordsworth

Apocalipse

Minha divinatória Arte ultrapassa

os séculos efêmeros e nota

Diminuição dinâmica, derrota

Na atual força, integérrima, da Massa.


É a subversão universal que ameaça

A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,

Destrói a ebulição que a água alvorota

E põe todos os astros na desgraça!


São despedaçamentos, derrubadas,

Federações sidéricas quebradas...

E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante,


Espião da cataclísmica surpresa

A única luz tragicamente acesa

Na universalidade agonizante!


Augusto dos Anjos


A Primeira Vez que Entendi


A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.



De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.



A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.



De
lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.


Affonso Romano de Sant'Anna

Dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse


Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.


Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta


Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.


(I)


Hilda Hilst


Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,

Se morremos em tudo o que sentimos

E podemos cantar, é porque estamos

Nus em sangue, embalando a própria dor

Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos

E a alma possuirá esse esplendor

Prometido nas formas que perdemos.


Aqui, deposta enfim a minha imagem,

Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.

No interior das coisas canto nua.


Aqui livre sou eu — eco da lua

E dos jardins, os gestos recebidos

E o tumulto dos gestos pressentidos

Aqui sou eu em tudo quanto amei.


Não pelo meu ser que só atravessei,

Não pelo meu rumor que só perdi,

Não pelos incertos atos que vivi,


Mas por tudo de quanto ressoei

E em cujo amor de amor me eternizei.


Sophia de Mello Breyner


Pensão Familiar

Jardim da pensãozinha burguesa.

Gatos espapaçados ao sol.

A tiririca sitia os canteiros chatos.

O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.

Os girassóis

amarelo!

resistem.

E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.


Um gatinho faz pipi.

Com gestos de garçom de restaurant-Palace

Encobre cuidadosamente a mijadinha.

Sai vibrando com elegância a patinha direita:

- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.


Manuel Bandeira


Apelo

...Mas deixai-me poetar

Em nome dos que não sonham,

Dos que calçam desespero

Em percursos cotidianos,

Dos que cruzam confluências

Com pára-brisas de tédio,

Dos fugitivos, nos bares,

Dos vencidos que se amam,

Dos inocentes que esperam.

...Mas deixai-me poetar

Neste esvair sem sentido

Com palavras indomadas,

Ou com vocábulos mansos.

– Que eu cante a vida que passa

E os destinos sem destino

– Que eu cubra de redondilhas

As damas da madrugada,

E meus versos sejam potros

Onde as crianças galopem,

Lona de circo estelante

Vestindo a fome do mundo,

Valsa brisa em realejo

Na esquina dos desencontros.

Sei da lógica das máquinas,

Das avenidas neuróticas,

Do roubo das alvoradas

E dos anjos que se matam.

Sou feito de tudo e nada.

...Mas deixai-me poetar!


Paulo Bomfim

As casas constroem-se de sombras

As casas constroem-se de sombra

quatro sombras ao alto

longe da esfinge dos astros



Falamos das cidades

dos homens que de tão sós

as despovoam

Das casas nunca

Só as casas solitárias têm história



Giram na noite presas

à face da terra



E vede

a plasticidade das casas

ao sol

a amabilidade das casas

à porta

a incomunicabilidade das casas

sob os bombardeios.



Sebastião Alba



À Vida

Não roubarás minha cor

Vermelha, de rio que estua.

Sou recusa: és caçador.

Persegues: eu sou a fuga.


Não dou minha alma cativa!

Colhido em pleno disparo,

Curva o pescoço o cavalo

Árabe -

E abre a veia da vida.


(Trad. Haroldo de Campos)



Não colherás no meu rosto sem ruga

A cor, violenta correnteza.

És caçadora - eu não sou presa.

És a perseguição - eu sou a fuga.

Não colherás viva minha alma!

Acossado, em pleno tropel,

Arqueia o pescoço e rasga

A veia com os dentes - o corcel

Árabe


(Trad. Augusto de Campos)


Marina Tsvetaeva

Romance LIII ou Das Palavras Aéreas

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Ai, palavras, ai, palavras,

sois de vento, ides no vento,

no vento que não retorna,

e, em tão rápida existência,

tudo se forma e transforma!


Sois de vento, ides no vento,

e quedais, com sorte nova!


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Todo o sentido da vida

principia à vossa porta;

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa:

sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota...


A liberdade das almas,

ai! com letras se elabora...

E dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam...


Detrás de grossas paredes,

de leve, quem vos desfolha?

Pareceis de tênue seda,

sem peso de ação nem de hora...

- e estais no bico das penas,

- e estais na tinta que as molha,

- e estais nas mãos dos juízes,

- e sois o ferro que arrocha,

- e sois o barco para o exílio,

- e sois Moçambique e Angola!


Ai, palavras, ai, palavras,

íeis pela estrada afora,

erguendo asas muito incertas,

entre verdade e galhofa,

desejos do tempo inquieto,

promessas que o mundo sopra...


Ai, palavras, ai, palavras,

mirai-vos: que sois, agora?


- Acusações, sentinelas,

bacamarte, algema escolta;

- o olho ardente da perfídia,

a velar, na noite morte;

- a umidade dos presídios,

- a solidão pavorosa;

- duro ferro de perguntas,

com sangue em cada resposta;

- e a sentença que caminha,

- e a esperança que não volta,

- e o coração que vacila,

- e o castigo que galopa...


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Perdão podíeis ter sido!

- sois madeira que se corta,

- sois vinte degraus de escada,

- sois um pedaço de corda...

- sois povo pelas janelas,

cortejo, bandeiras, tropa...


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro na aragem...

- sois um homem que se enforca!


Cecília Meireles in Romanceiro da Inconfidência

Os meus versos

Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste

O encanto supremo que os ditou?

Acaso, quando os leste, imaginaste

Que era o teu esse olhar que os inspirou?


Adivinhaste? Eu não posso acreditar

Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo.

Tu disseste para ti: "Por um olhar

Somente, embora fosse assim tão lindo,


Ficar amando um homem!... Que loucura!"

- Pois foi o teu olhar; a noite escura,

- (Eu só a ti digo, e muito a medo...)


Que inspirou esses versos! Teu olhar

Que eu trago dentro d'alma a soluçar!

..........................................................

Aí não descubras nunca o meu segredo!


Florbela Espanca


O sentido

A história não é dos

que lembram, é

dos que esquecem.


E ao gravar bisontes

ou pássaros na rocha,

fomos nomeando

o tempo, antes, bem

antes que ele nos

nomeasse.


E a vida não se escreve

na rocha. A lei sim,

a morte. A vida tem

raiz de mel. E não

teme a si mesma.



A história dorme

com a roupa no corpo,

ou o corpo na alma,

embora a vida tenha

realidade que baste.


Para não morrer.


E a história está caída.

no meio da batalha


E ninguém a levanta,

ninguém percebe

a gravura do Céu

na gruta de uma árvore.


Nada tem revelia na luz.


E o que os historiadores

não lêem é por falta de infância.


Jamais poderão memoriar

o que o sonho não diz.


E a história humana

é a dos sonhos,


Ainda que eles

nem saibam disso.


E quando os ancestrais

dos ancestrais

tiravam lume

das pedras,

não viram

quanto falavam,

fosforeando,

falavam de coisas

dentro das coisas.


E porque elas têm alma,

tudo se acende

de uma palavra

à outra. A história

soluça na história,

entre um monte de lavas

e a cratera do sangue.


Tem esperança na boca.


Mas a boca já não tem

história alguma.


A boca está muda

com os mortos.


Carlos Nejar


Coração

Coração abre essa porta

E pouco importa se é pra sofrer

Deixa entrar a vida

Vale mais é viver

Vale mais o trem das cores

Que uma existência pode perceber

Vale nada porta fechada

Festa acabada

Melhor morrer

Melhor a emoção de tudo

Que acontece em volta da gente

Melhor chorar saborosamente por que viver

Coração não tenha medo

Pela porta aberta vai entrar a vida

Com tudo que ela tem direito e você também



Gonzaguinha


Pelo fogo da fala

Pelo fogo da fala

pelo fogo das palavras

pela sarça ardente das palavras

pisando por rugas de telhas

enquanto o coração crescia


pelo fogo da fala

pelo pavio secreto da língua

pela fagulha ardente

crescia meu coração

como crescem as folhas

que o vento arrasta no ardor da combustão



Vera Lúcia de Oliveira


Belo Belo

Belo belo belo,

Tenho tudo quanto quero.


Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.

E o risco brevíssimo – que foi? Passou – de tantas estrelas cadentes.


A aurora apaga-se,

E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.


O dia vem, e dia adentro

Continuo a possuir o segredo grande da noite.


Belo belo belo,

Tenho tudo quanto quero.


Não quero o êxtase nem os tormentos.

Não quero o que a terra só dá com trabalho.


As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:

Os anjos não compreendem os homens.


Não quero amar,

Não quero ser amado.

Não quero combater,

Não quero ser soldado.


- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.



Manuel Bandeira


Todas as vidas

Vive dentro de mim

uma cabocla velha

de mau-olhado,

acocorada ao pé do borralho,

olhando pra o fogo.

Benze quebranto.

Bota feitiço...

Ogum. Orixá.

Macumba, terreiro.

Ogã, pai-de-santo...


Vive dentro de mim

a lavadeira do Rio Vermelho,

Seu cheiro gostoso

d’água e sabão.

Rodilha de pano.

Trouxa de roupa,

pedra de anil.

Sua coroa verde de são-caetano.


Vive dentro de mim

a mulher cozinheira.

Pimenta e cebola.

Quitute bem feito.

Panela de barro.

Taipa de lenha.

Cozinha antiga

toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.

Pedra pontuda.

Cumbuco de coco.

Pisando alho-sal.


Vive dentro de mim

a mulher do povo.

Bem proletária.

Bem linguaruda,

desabusada, sem preconceitos,

de casca-grossa,

de chinelinha,

e filharada.


Vive dentro de mim

a mulher roceira.

– Enxerto da terra,

meio casmurra.

Trabalhadeira.

Madrugadeira.

Analfabeta.

De pé no chão.

Bem parideira.

Bem criadeira.

Seus doze filhos.

Seus vinte netos.


Vive dentro de mim

a mulher da vida.

Minha irmãzinha...

tão desprezada,

tão murmurada...

Fingindo alegre seu triste fado.


Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida –

a vida mera das obscuras.


Cora Coralina


El Hombre

Un momento apenitas

como el río que se va

el hombre es puro paisaje

que camina y nada más.


Un arbolito que crece

ganándole al pedregal

no le falta mucha tierra

si altura quiere ganar.


Como la hierba que pasa

su verdor perecerá

por eso es que necesita

buscar en su inmensidad.


Una nube pasajera

que rauda suele viajar

así de corta es la vida

su vana fugacidad.


Un puñado de arenilla

que entre las manos se va

no se compensan las penas

al buscar felicidad.


Un firmamento estrellado

contará su vanidad:

arenas que el viento lleva

y las cambia de lugar.


Como cacharro de arcilla

es polvo y fragilidad

debe mirar para adentro

si huella quiere dejar.


Jorge Castañeda


Descrição

Há uma água clara que cai sobre pedras escuras

e que, só pelo som, deixa ver como é fria.


Há uma noite por onde passam grandes estrelas puras.

Há um pensamento esperando que se forme uma alegria.


Há um gesto acorrentado e uma voz sem coragem,

e um amor que não sabe onde é que anda o seu dia.


E a água cai, refletindo estrelas, céu, folhagem...

Cai para sempre!


E duas mãos nela mergulham com tristeza,

deixando um esplendor sobre a sua passagem.


(Porque existe um esplendor e uma inútil beleza

nessas mãos que desenham dentro da água sua viagem

para fora da natureza,


onde não chegará nunca esta água imprecisa,

que nasce e desliza, que nasce e desliza...)


Cecília Meireles


................

Os Retratos

Os antigos retratos de parede

Não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados

Porque eles nunca se desumanizam de todo

Jamais te voltes pra trás de repente.

Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim…

Sem fim e sem sentido…

Dessas que a gente inventava

enganar a solidão dos caminhos sem lua.


Mário Quintana


À Instabilidade das coisas do mundo


Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas, a alegria.


Porém, se acaba o Sol, por que nascia?

Se e tão formosa a Luz, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?


Mas, no Sol, e na Luz, falta a firmeza;

Na formosura, não se dê constância.

E, na alegria, sinta-se tristeza.


Começa o mundo, enfim, pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza.

A firmeza, somente na inconstância.


Gregório de Matos


Resíduo

De tudo ficou um pouco.

Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da rosa

ficou um pouco.


Ficou um pouco de luz

captada no chapéu.

Nos olhos do rufião

de ternura ficou um pouco

(muito pouco).


Pouco ficou deste pó

de que teu branco sapato

se cobriu. Ficaram poucas

roupas, poucos véus rotos,

pouco, pouco, muito pouco.


Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,

de duas folhas de grama,

do maço

- vazio – de cigarros, ficou um pouco.


Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio

um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

nas folhas, mudas, que sobem.


Ficou um pouco de tudo

no pires de porcelana,

dragão partido, flor branca,

ficou um pouco

de ruga na vossa testa,

retrato.


Se de tudo fica um pouco,

mas por que não ficaria

um pouco de mim? No trem

que leva ao norte, no barco,

nos anúncios de jornal,

um pouco de mim em Londres,

um pouco de mim algures?

na consoante?

no poço?


Um pouco fica oscilando

na embocadura dos rios

e os peixes não o evitam,

um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.

Não muito: de uma torneira

pinga esta gota absurda,

meio sal e meio álcool,

salta esta perna de rã,

este vidro de relógio

partido em mil esperanças,

este pescoço de cisne,

este segredo infantil...

De tudo fica um pouco:

de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,

de tudo ficou um pouco;

vento nas orelhas minhas,

simplório arroto, gemido

de víscera inconformada,

e minúsculos artefatos:

campânula, alvéolo, cápsula

de revólver... de aspirina.

De tudo ficou um pouco.


E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros de loção

e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.


Mas de tudo, terrível, fica um pouco,

e sob as ondas ritmadas

e sob as nuvens e os ventos

e sob as pontes e sob os túneis

e sob as labaredas e sob o sarcasmo

e sob a gosma e sob o vômito

e sob o soluço do cárcere, o esquecido

e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate

e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes

e sob tu mesmo e sob teus pés já duros

e sob os gonzos da família e da classe,

fica sempre um pouco de tudo.

Às vezes um botão. Às vezes um rato.


(Carlos Drummond de Andrade)


5

Sou um sujeito cheio de recantos.

Os desvãos me constam.

Tem hora leio avencas.

Tem hora, Proust.

Ouço aves e beethovens.

Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.


O dia vai morrer aberto em mim.


Manoel de Barros