O sentido

A história não é dos

que lembram, é

dos que esquecem.


E ao gravar bisontes

ou pássaros na rocha,

fomos nomeando

o tempo, antes, bem

antes que ele nos

nomeasse.


E a vida não se escreve

na rocha. A lei sim,

a morte. A vida tem

raiz de mel. E não

teme a si mesma.



A história dorme

com a roupa no corpo,

ou o corpo na alma,

embora a vida tenha

realidade que baste.


Para não morrer.


E a história está caída.

no meio da batalha


E ninguém a levanta,

ninguém percebe

a gravura do Céu

na gruta de uma árvore.


Nada tem revelia na luz.


E o que os historiadores

não lêem é por falta de infância.


Jamais poderão memoriar

o que o sonho não diz.


E a história humana

é a dos sonhos,


Ainda que eles

nem saibam disso.


E quando os ancestrais

dos ancestrais

tiravam lume

das pedras,

não viram

quanto falavam,

fosforeando,

falavam de coisas

dentro das coisas.


E porque elas têm alma,

tudo se acende

de uma palavra

à outra. A história

soluça na história,

entre um monte de lavas

e a cratera do sangue.


Tem esperança na boca.


Mas a boca já não tem

história alguma.


A boca está muda

com os mortos.


Carlos Nejar


Coração

Coração abre essa porta

E pouco importa se é pra sofrer

Deixa entrar a vida

Vale mais é viver

Vale mais o trem das cores

Que uma existência pode perceber

Vale nada porta fechada

Festa acabada

Melhor morrer

Melhor a emoção de tudo

Que acontece em volta da gente

Melhor chorar saborosamente por que viver

Coração não tenha medo

Pela porta aberta vai entrar a vida

Com tudo que ela tem direito e você também



Gonzaguinha


Pelo fogo da fala

Pelo fogo da fala

pelo fogo das palavras

pela sarça ardente das palavras

pisando por rugas de telhas

enquanto o coração crescia


pelo fogo da fala

pelo pavio secreto da língua

pela fagulha ardente

crescia meu coração

como crescem as folhas

que o vento arrasta no ardor da combustão



Vera Lúcia de Oliveira


Belo Belo

Belo belo belo,

Tenho tudo quanto quero.


Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.

E o risco brevíssimo – que foi? Passou – de tantas estrelas cadentes.


A aurora apaga-se,

E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.


O dia vem, e dia adentro

Continuo a possuir o segredo grande da noite.


Belo belo belo,

Tenho tudo quanto quero.


Não quero o êxtase nem os tormentos.

Não quero o que a terra só dá com trabalho.


As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:

Os anjos não compreendem os homens.


Não quero amar,

Não quero ser amado.

Não quero combater,

Não quero ser soldado.


- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.



Manuel Bandeira


Todas as vidas

Vive dentro de mim

uma cabocla velha

de mau-olhado,

acocorada ao pé do borralho,

olhando pra o fogo.

Benze quebranto.

Bota feitiço...

Ogum. Orixá.

Macumba, terreiro.

Ogã, pai-de-santo...


Vive dentro de mim

a lavadeira do Rio Vermelho,

Seu cheiro gostoso

d’água e sabão.

Rodilha de pano.

Trouxa de roupa,

pedra de anil.

Sua coroa verde de são-caetano.


Vive dentro de mim

a mulher cozinheira.

Pimenta e cebola.

Quitute bem feito.

Panela de barro.

Taipa de lenha.

Cozinha antiga

toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.

Pedra pontuda.

Cumbuco de coco.

Pisando alho-sal.


Vive dentro de mim

a mulher do povo.

Bem proletária.

Bem linguaruda,

desabusada, sem preconceitos,

de casca-grossa,

de chinelinha,

e filharada.


Vive dentro de mim

a mulher roceira.

– Enxerto da terra,

meio casmurra.

Trabalhadeira.

Madrugadeira.

Analfabeta.

De pé no chão.

Bem parideira.

Bem criadeira.

Seus doze filhos.

Seus vinte netos.


Vive dentro de mim

a mulher da vida.

Minha irmãzinha...

tão desprezada,

tão murmurada...

Fingindo alegre seu triste fado.


Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida –

a vida mera das obscuras.


Cora Coralina


El Hombre

Un momento apenitas

como el río que se va

el hombre es puro paisaje

que camina y nada más.


Un arbolito que crece

ganándole al pedregal

no le falta mucha tierra

si altura quiere ganar.


Como la hierba que pasa

su verdor perecerá

por eso es que necesita

buscar en su inmensidad.


Una nube pasajera

que rauda suele viajar

así de corta es la vida

su vana fugacidad.


Un puñado de arenilla

que entre las manos se va

no se compensan las penas

al buscar felicidad.


Un firmamento estrellado

contará su vanidad:

arenas que el viento lleva

y las cambia de lugar.


Como cacharro de arcilla

es polvo y fragilidad

debe mirar para adentro

si huella quiere dejar.


Jorge Castañeda


Descrição

Há uma água clara que cai sobre pedras escuras

e que, só pelo som, deixa ver como é fria.


Há uma noite por onde passam grandes estrelas puras.

Há um pensamento esperando que se forme uma alegria.


Há um gesto acorrentado e uma voz sem coragem,

e um amor que não sabe onde é que anda o seu dia.


E a água cai, refletindo estrelas, céu, folhagem...

Cai para sempre!


E duas mãos nela mergulham com tristeza,

deixando um esplendor sobre a sua passagem.


(Porque existe um esplendor e uma inútil beleza

nessas mãos que desenham dentro da água sua viagem

para fora da natureza,


onde não chegará nunca esta água imprecisa,

que nasce e desliza, que nasce e desliza...)


Cecília Meireles


................

Os Retratos

Os antigos retratos de parede

Não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados

Porque eles nunca se desumanizam de todo

Jamais te voltes pra trás de repente.

Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim…

Sem fim e sem sentido…

Dessas que a gente inventava

enganar a solidão dos caminhos sem lua.


Mário Quintana


À Instabilidade das coisas do mundo


Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas, a alegria.


Porém, se acaba o Sol, por que nascia?

Se e tão formosa a Luz, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?


Mas, no Sol, e na Luz, falta a firmeza;

Na formosura, não se dê constância.

E, na alegria, sinta-se tristeza.


Começa o mundo, enfim, pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza.

A firmeza, somente na inconstância.


Gregório de Matos


Resíduo

De tudo ficou um pouco.

Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da rosa

ficou um pouco.


Ficou um pouco de luz

captada no chapéu.

Nos olhos do rufião

de ternura ficou um pouco

(muito pouco).


Pouco ficou deste pó

de que teu branco sapato

se cobriu. Ficaram poucas

roupas, poucos véus rotos,

pouco, pouco, muito pouco.


Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,

de duas folhas de grama,

do maço

- vazio – de cigarros, ficou um pouco.


Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio

um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

nas folhas, mudas, que sobem.


Ficou um pouco de tudo

no pires de porcelana,

dragão partido, flor branca,

ficou um pouco

de ruga na vossa testa,

retrato.


Se de tudo fica um pouco,

mas por que não ficaria

um pouco de mim? No trem

que leva ao norte, no barco,

nos anúncios de jornal,

um pouco de mim em Londres,

um pouco de mim algures?

na consoante?

no poço?


Um pouco fica oscilando

na embocadura dos rios

e os peixes não o evitam,

um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.

Não muito: de uma torneira

pinga esta gota absurda,

meio sal e meio álcool,

salta esta perna de rã,

este vidro de relógio

partido em mil esperanças,

este pescoço de cisne,

este segredo infantil...

De tudo fica um pouco:

de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,

de tudo ficou um pouco;

vento nas orelhas minhas,

simplório arroto, gemido

de víscera inconformada,

e minúsculos artefatos:

campânula, alvéolo, cápsula

de revólver... de aspirina.

De tudo ficou um pouco.


E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros de loção

e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.


Mas de tudo, terrível, fica um pouco,

e sob as ondas ritmadas

e sob as nuvens e os ventos

e sob as pontes e sob os túneis

e sob as labaredas e sob o sarcasmo

e sob a gosma e sob o vômito

e sob o soluço do cárcere, o esquecido

e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate

e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes

e sob tu mesmo e sob teus pés já duros

e sob os gonzos da família e da classe,

fica sempre um pouco de tudo.

Às vezes um botão. Às vezes um rato.


(Carlos Drummond de Andrade)


5

Sou um sujeito cheio de recantos.

Os desvãos me constam.

Tem hora leio avencas.

Tem hora, Proust.

Ouço aves e beethovens.

Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.


O dia vai morrer aberto em mim.


Manoel de Barros


Dualismo

Não és bom, nem és mau; és triste e humano...

Vives ansiando, em maldições e preces,

Como se, a arder, no coração tivesses

O tumulto e o clamor de um largo oceano.


Pobre, no bem como no mal padeces;

E, rolando como um vórtice vesano,

Oscilas, entre a crença e o desengano,

Entre esperanças e desinteresses.


Capaz de horrores e de ações sublimes,

Não ficas das virtudes satisfeito,

Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:


E no perpétuo ideal que te devora,

Residem juntamente no teu peito

Um demônio que ruge e um deus que chora.


Olavo Bilac


Fragmento de um coro

Nós

os de cinza e tempo

nós os de olhar barrado

nós os de céus ardendo

e ventos desfigurados

nós os de mito e queda

nós os de mãos atadas

ecos

desdobrando

gritos

mudos mantos desdobrados

nós silenciados muros

de desesperos caiados

nós cegos irmãos em luto

por mundos manietados

nós sonâmbulos

remotos

nós vagos

só recordados

os estáticos andantes

escuramente pisados

nós os egressos da sede

diuturnamente velada

nós o exílio de nós mesmos

viva lâmpada apagada

nós entre o infinito e o medo

esparsos

desencontrados

nós frios

de cinza e tempo

em tempo e cinza

encerrados


Bruno Tolentino


The message

Send home my strayed eyes to me,

Which (Oh) too long have dwelt on thee,

Yet since there they have learn’d such ill,

Such forc’d fashions,

And false passions,

That they be

Made by thee

Fit for no good sight, keep them still.


Send home my harmless heart again,

Which no unworthy thought could stain,

Which if it be taught by thine

To make jestings

Of protestings,

And cross both

Word and oath,

Keep it, for then ‘tis none of mine.


Yet send me back my heart and eyes,

That I may know, and see thy lies,

And may laugh and joy, when thou

Art in anguish

And dost languish

For some one

That will none,

Or prove as false as thou art now.


John Donne


……….

A Mensagem


Devolve os pobres olhos que eu perdi

E que te habitam, desde que te vi.

Mas se eles já sofreram tal castigo

E tantos danos,

Tantos enganos,

Tal rigor,

Que a dor

Os fez inúteis, guarda-os contigo.


Devolve o coração que te foi dado

Sem jamais cometer qualquer pecado.

Porém, se ele contigo já aprendeu

Como se mata

E se maltrata

E se tortura

Uma alma pura,

Guarda, também, esse ex-pedaço meu.


Melhor, devolve olhos e coração,

Para que eu possa ver a traição,

E possa rir, quando chegar a hora

De te ver

Padecer

Por alguém

Que tem

Um coração como o que tens agora.


John Donne (Tradução de A. Campos)


Essa que eu hei de amar...

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia,

será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,

que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,

trazer luz e calor a esta alma escura e fria.


E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia

da vida há de acordar no coração que vela...

E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela

como sombra feliz... – Tudo isso eu me dizia,


quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,

e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro

do poente, me dizia adeus, como um sol triste...


E falou-me ao longe: “Eu passei a teu lado,

mas ias tão perdido em teu sonho dourado,

meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”


Guilherme de Almeida


Ah a frescura

Ah a frescura de não cumprir um dever!

Faltar é positivamente estar no campo!

Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!

Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.

Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,

Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.

Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.

É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,

Deliberadamente à mesma hora...

Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.

É tão engraçada esta parte assistente da vida!

Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,

Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.


Fernando Pessoa in Poesias de Álvaro de Campos

Talvez o vento saiba


Talvez o vento saiba dos meus passos,

das sendas que os meus pés já não abordam,

das ondas cujas cristas não transbordam

senão o sal que escorre dos meus braços.


As sereias que ouvi não mais acordam

à cálida pressão dos meus abraços,

e o que a infância teceu entre sargaços

as agulhas do tempo já não bordam.


Só vejo sobre a areia vagos traços

de tudo o que meus olhos mal recordam

e os dentes, por inúteis, não concordam

sequer em mastigar como bagaços.


Talvez se lembre o vento desses laços

que a dura mão de Deus fez em pedaços.


Ivan Junqueira

.......

A Morte

A morte vem de longe

Do fundo dos céus

Vem para os meus olhos

Virá para os teus


Desce das estrelas

Das brancas estrelas

As loucas estrelas

Trânsfugas de Deus


Chega impressentida

Nunca inesperada

Ela que é na vida

A grande esperada!


A desesperada

Do amor fratricida

Dos homens, ai! dos homens

Que matam a morte

Por medo da vida.



Vinicius de Moraes


..............

A minha piedade

Tenho pena de tudo quanto lida

Neste mundo, de tudo quanto sente,

Daquele a quem mentiram, de quem mente,

Dos que andam pés descalços pela vida;


Da rocha altiva, sobre o monte erguida,

Olhando os Céus ignotos frente a frente;

Dos que não são iguais à outra gente,

E dos que se ensangüentam na subida!


Tenho pena de mim... pena de ti...

De não beijar o riso duma estrela...

Pena dessa má hora em que nasci...


De não ter asas para ir ver o Céu...

De não ser Esta... a Outra... e mais Aquela...

De ter vivido, e não ter sido Eu...


Florbela Espanca

O Amor é o homem inacabado


Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas

A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas

Ao longe o mar que os teus olhos banham

Estas imagens de um dia e outro dia

Os vícios as virtudes tão imperfeitos

A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso

E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas

As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens

Os vícios as virtudes tão imperfeitos

A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados

A confusão dos corpos das fadigas dos ardores

A imitação das palavras das atitudes das ideias

Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

Paul Éluard, in Algumas das Palavras (Tradução de Antonio Ramos Rosa)

Que a terra me floresça

Que a terra me floresça nas ações

Como no ouro suculento das vinhas,

Que perfume a dor de minhas canções

Como um fruto esquecido na campina.


Que me transcenda a carne a semeadura

Ávida de brotar por toda parte,

Que minhas artérias levem água pura,

Água que canta quando se reparte!


Desnudo quero estar sobre sarmentos,

Pisado pelos cascos inimigos,

Quero me abrir e repartir sementes,

De pão, eu quero ser de terra e trigo!



Pablo Neruda (Tradução de Thiago de Mello)


São os rios

Somos o tempo. Somos a famosa

parábola de Heráclito o Obscuro.

Somos a água, não o diamante duro,

a que se perde, não a que repousa.

Somos o rio e somos aquele grego

que se olha no rio. Seu semblante

muda na água do espelho mutante,

no cristal que muda como o fogo.

Somos o vão rio prefixado,

rumo a seu mar. Pela sombra cercado.

Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.

A memória não cunha sua moeda.

E no entanto há algo que se queda

e no entanto há algo que se queixa.


Jorge Luis Borges (Tradução de Pepe Escobar)


O que será (À flor da pele)

O que será que me dá

Que me bole por dentro, será que me dá

Que brota à flor da pele, será que me dá

E que me sobe às faces e me faz corar

E que me salta aos olhos a me atraiçoar

E que me aperta o peito e me faz confessar

O que não tem mais jeito de dissimular

E que nem é direito ninguém recusar

E que me faz mendigo, me faz suplicar

O que não tem medida, nem nunca terá

O que não tem remédio, nem nunca terá

O que não tem receita


O que será que será

Que dá dentro da gente e que não devia

Que desacata a gente, que é revelia

Que é feito uma aguardente que não sacia

Que é feito estar doente de uma folia

Que nem dez mandamentos vão conciliar

Nem todos os ungüentos vão aliviar

Nem todos os quebrantos, toda alquimia

Que nem todos os santos, será que será

O que não tem descanso, nem nunca terá

O que não tem cansaço, nem nunca terá

O que não tem limite


O que será que me dá

Que me queima por dentro, será que me dá

Que me perturba o sono, será que me dá

Que todos os tremores me vêm agitar

Que todos os ardores me vêm atiçar

Que todos os suores me vêm encharcar

Que todos os meus nervos estão a rogar

Que todos os meus órgãos estão a clamar

E uma aflição medonha me faz implorar

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem governo, nem nunca terá

O que não tem juízo


Chico Buarque


XXII

Tu senhora, eu senhor, ambos senhores

de um pequenino mundo. No caminho,

nunca vi flores em que houvesse espinho,

nunca vi pedras que não fossem flores.


Naquele quarto andar, longe das dores

e tão perto dos céus, com que carinho,

com quanto zelo edificaste o ninho

do mais feliz de todos os amores!


Tudo passou. Um dia, triste e mudo,

deixaste-me sozinho. Hoje tens tudo:

és rica, és invejada, és conhecida...


E eu tenho apenas, desgraçado e louco,

daquele amor que te custou tão pouco

esta saudade que me custa a vida!


Guilherme de Almeida in Nós

Agora

Agora

Me parece

Que o homem não está só.

Em suas mãos

Elaborou

Como se fora um duro

Pão, a esperança,

A terrestre esperança.


Neruda (tradução de Thiago de Mello)