A história não é dos
que lembram, é
dos que esquecem.
E ao gravar bisontes
ou pássaros na rocha,
fomos nomeando
o tempo, antes, bem
antes que ele nos
nomeasse.
E a vida não se escreve
na rocha. A lei sim,
a morte. A vida tem
raiz de mel. E não
teme a si mesma.
A história dorme
com a roupa no corpo,
ou o corpo na alma,
embora a vida tenha
realidade que baste.
Para não morrer.
E a história está caída.
no meio da batalha
E ninguém a levanta,
ninguém percebe
a gravura do Céu
na gruta de uma árvore.
Nada tem revelia na luz.
E o que os historiadores
não lêem é por falta de infância.
Jamais poderão memoriar
o que o sonho não diz.
E a história humana
é a dos sonhos,
Ainda que eles
nem saibam disso.
E quando os ancestrais
dos ancestrais
tiravam lume
das pedras,
não viram
quanto falavam,
fosforeando,
falavam de coisas
dentro das coisas.
E porque elas têm alma,
tudo se acende
de uma palavra
à outra. A história
soluça na história,
entre um monte de lavas
e a cratera do sangue.
Tem esperança na boca.
Mas a boca já não tem
história alguma.
A boca está muda
com os mortos.
Carlos Nejar