Meu filho, Se acaso chegares, Como eu cheguei A uma campina de horizontes arqueados, Não te intimidem o uivo do lobo, O bramido do tigre; Enfrenta-os nas esquinas da selva, Olhos nos olhos, Dedo firme no gatilho.
Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe e mais puro, e ajude a redimi-lo.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
E não esqueçamos nunca a melancolia, o gasto sentimentalismo, perfeitos frutos impuros de uma maravilhosa qualidade esquecida, deixados atrás pelo frenético livresco; a luz da lua, o cisne ao anoitecer, “coração meu” são sem dúvida o poético elementar e imprescindível. Quem foge do mau gosto cai no gelo.
Neruda in Una poesía sin pureza(Tradução de Thiago de Mello)
Os pássaros nascem na ponta das árvores. As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros. Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores. Os pássaros começam onde as árvores acabam. Os pássaros fazem cantar as árvores. Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam, movimentam-se, deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal. Como pássaros pousam as folhas na terra quando o outono desce veladamente sobre os campos. Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores mas deixo essa forma de dizer ao romancista, é complicada e não se dá bem na poesia, não foi ainda isolada da filosofia. Eu amo as árvores, principalmente as que dão pássaros. Quem é que lá os pendura nos ramos? De quem é a mão, a inúmera mão? Eu passo e muda-se-me o coração"
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma, A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus - ou fora do mundo.