XXII

Tu senhora, eu senhor, ambos senhores

de um pequenino mundo. No caminho,

nunca vi flores em que houvesse espinho,

nunca vi pedras que não fossem flores.


Naquele quarto andar, longe das dores

e tão perto dos céus, com que carinho,

com quanto zelo edificaste o ninho

do mais feliz de todos os amores!


Tudo passou. Um dia, triste e mudo,

deixaste-me sozinho. Hoje tens tudo:

és rica, és invejada, és conhecida...


E eu tenho apenas, desgraçado e louco,

daquele amor que te custou tão pouco

esta saudade que me custa a vida!


Guilherme de Almeida in Nós

Agora

Agora

Me parece

Que o homem não está só.

Em suas mãos

Elaborou

Como se fora um duro

Pão, a esperança,

A terrestre esperança.


Neruda (tradução de Thiago de Mello)


Os Parceiros

Sonhar é acordar-se para dentro:

de súbito me vejo em pleno sonho

e no jogo em que todo me concentro

mais uma carta sobre a mesa ponho.

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!

E quase que escurece a chama triste…

E, a cada parada uma pancada,

o coração, exausto, ainda insiste.

Insiste em quê? Ganhar o quê? De quem?

O meu parceiro…eu vejo que ele tem

um riso silencioso a desenhar-se

numa velha caveira carcomida.

Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce…

Como também disfarce é a minha vida!


Mário Quintana

Pátria

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência

Que a miséria longamente desenhou

Rente aos ossos com toda a exatidão

Dum longo relatório irrecusável


E pelos rostos iguais ao sol e ao vento


E pela limpidez das tão amadas

Palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

Donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas


— Pedra rio vento casa

Pranto dia canto alento

Espaço raiz e água

Ó minha pátria e meu centro


Eu minha vida daria

E vivo neste tormento


Sophia de Mello Breyner


Auto-Retrato Falado

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.

Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.

Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,

aves, pessoas humildes, árvores e rios.

Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar

entre pedras e lagartos.

Já publiquei dez livros de poesia: ao publicá-los me sinto

meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou

abençoado a garças.

Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que

fui salvo.

Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.

Os bois me recriam.

Agora eu sou tão ocaso!

Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço

coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.


Manoel de Barros

Cânticos - XXIII

Não faças de ti

Um sonho a realizar.

Vai.

Sem caminho marcado.

Tu és o de todos os caminhos.

Sê apenas uma presença.

Invisível presença silenciosa.

Todas as coisas esperam a luz,

Sem dizerem que a esperam.

Sem saberem que existe.

Todas as coisas esperarão por ti,

Sem te falarem.

Sem lhes falares.


Cecília Meireles


"If"

Meu filho,
Se acaso chegares,
Como eu cheguei
A uma campina de horizontes arqueados,
Não te intimidem o uivo do lobo,
O bramido do tigre;
Enfrenta-os nas esquinas da selva,
Olhos nos olhos,
Dedo firme no gatilho.


Meu filho,
se acaso chegares
a um mundo injusto e triste
como este em que vivo,
faze um filho;
para que ele alcance um tempo
mais longe e mais puro,
e ajude a redimi-lo.


Paulo Mendes Campos

Exaltação ao amor

Sofro, bem sei... mas se preciso for

Sofrer mais, mal maior, extraordinário,

Sofrerei tudo o quanto necessário

Para a estrela alcançar, colher a flor.


Que seja imenso o sofrimento, e vário!

Que eu tenha que lutar com força e ardor!

Como um louco, talvez, ou um visionário,

Hei de alcançar o amor... com o meu Amor.


Nada impedirá que seja meu

Se é fogo que em meu peito se acendeu,

E lavra, e cresce, e me consome o ser...


Deus o pôs... ninguém mais há de dispor.

Se esse amor não puder ser meu viver

Há de ser meu para eu morrer de Amor!


J.G. de Araújo Jorge

.......

Chegou a poesia

E foi nessa idade... Chegou a poesia

Para me buscar. Não sei, não sei de onde

Saiu, de inverno ou rio.

Não sei como nem quando, não, não eram vozes,

Não eram palavras, nem silencio,

Porém desde uma rua me chamava,

Desde os ramos da noite,

De repente entre os outros,

Entre fogos violentos

Ou regressando sozinho,

Ali estava sem rosto

E me tocava.

Eu não sabia o que dizer, minha boca

Não sabia

Nomear,

Meus olhos eram cegos,

E algo golpeava em minha alma,

Febre ou asas perdidas,

E me fui fazendo só,

Decifrando

Aquela queimadura,

E escrevi a primeira linha vaga,

Vaga, sem corpo, pura

Tontice, pura sabedoria

De quem não sabe nada,

E vi de repente

O céu

Degranado e aberto,

Planetas,

Plantações palpitantes,

A sombra perfurada,

Crivada de flechas, fogo e flores,

A noite esmagadora, o universo.


E eu, mínimo ser,

Ébrio do grande vazio

Constelado,

À semelhança, à imagem

Do mistério,

Me senti parte pura

Do abismo,

Rolei com as estrelas,

Meu coração se desatou ao vento.


Neruda in Memorial de Isla Negra (Tradução de Thiago de Mello)

She walks in beauty


She walks in Beauty, like the night

Of cloudless climes and starry skies;

And all that’s best of dark and bright

Meet in her aspect and her eyes:

Thus mellowed to that tender light

Which Heaven to gaudy day denies.


One shade the more, one ray the less,

Had half impaired the nameless grace

Which waves in every raven tress,

Or softly lightens o’er her face;

Where thoughts serenely sweet express,

How pure, how dear their dwelling-place.


And on that cheek, and o’er that brow,

So soft, so calm, yet eloquent,

The smiles that win, the tints that glow,

But tell of days in goodness spent,

A mind at peace with all below,

A heart whose love is innocent!


Lord Byron


São Francisco

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.


Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
“Bom dia, amigo”
Dizendo ao fogo
“Saúde, irmão!”


Lá vem São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.


Lá vai São Francisco
Pelo caminho.


Vinícius de Moraes

O fim no começo

A palavra cortada

na primeira sílaba.

A consoante esvanecida

sem que a língua atingisse o alvéolo.

O que jamais se esqueceria

pois nem principiou a ser lembrado.

O campo – havia, havia um campo?

irremediavelmente murcho em sombra

antes de imaginar-se a figura

de um campo.


A vida não chega a ser breve.



Carlos Drummond de Andrade


Nova poética

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.


Vai um sujeito.

Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:

É a vida.


O poema deve ser como a nódoa no brim:

Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.


Sei que a poesia é também orvalho.

Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.



Manuel Bandeira


E não esqueçamos

E não esqueçamos nunca a melancolia, o gasto sentimentalismo, perfeitos frutos impuros de uma maravilhosa qualidade esquecida, deixados atrás pelo frenético livresco; a luz da lua, o cisne ao anoitecer, “coração meu” são sem dúvida o poético elementar e imprescindível. Quem foge do mau gosto cai no gelo.


Neruda in Una poesía sin pureza (Tradução de Thiago de Mello)


Penso logo sinto

Eu penso logo eu vivo logo durmo eu durmo logo sonho

Eu sonho logo acordo acordo logo penso eu penso logo vivo


Viver é risco preciso verbo transitivo estranho

Os obuses são obuses são obuses são medonhos

Viver no país de alice só em livro só em sonho

Pois os mísseis são os mísseis são os mísseis são demônios


Eu penso logo vivo eu vivo logo durmo eu durmo logo sonho

Eu sonho logo acordo acordo logo penso eu penso logo canto


Cantar é fácil difícil ofício paixão é igual a isso

Mas os bichos são os bichos são os bichos são os bichos

Amor se não existisse você ainda bem que existe

E o resto que se lixe que se lixe que se lixe


Eu penso logo vivo eu vivo logo durmo eu durmo logo sonho

Eu sonho logo acordo acordo logo penso eu penso logo penso


Pensar exerço exercito dançar baião não resisto

Luiz gonzaga é luiz gonzaga rei do baião

Jesus cristo é jesus cristo rei dos cristãos

Sentir penso logo sinto sorrir apesar de tudo ir fundo

Pois o mundo é o mundo é o mundo é o mundo


Eu penso logo vivo eu vivo logo durmo eu durmo logo sonho

Eu sonho logo acordo acordo logo penso eu penso logo vivo.


Itamar Assumpção



Os pássaros nascem na ponta das árvores

Os pássaros nascem na ponta das árvores.
As árvores que eu vejo
em vez de fruto dão pássaros.
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores.
Os pássaros começam onde as árvores acabam.
Os pássaros fazem cantar as árvores.
Ao chegar aos pássaros
as árvores engrossam, movimentam-se,
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal.
Como pássaros pousam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos.
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista,
é complicada e não se dá bem na poesia,
não foi ainda isolada da filosofia.
Eu amo as árvores, principalmente as que dão pássaros.
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão, a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração"

Ruy Belo

Como se te perdesse

Como se te perdesse, assim te quero.

Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro.


Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.


Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.


Hilda Hilst


Certa palavra

Certa palavra dorme na sombra

de um livro raro.

Como desencantá-la?

É a senha da vida

a senha do mundo.

Vou procurá-la.


Vou procurá-la a vida inteira

no mundo todo.

Se tarda o encontro, se não a encontro,

não desanimo,

procuro sempre.


Procuro sempre, e minha procura

ficará sendo

minha palavra.


Carlos Drummond de Andrade



Para onde é que vão os versos

Para onde é que vão os versos

Que às vezes passam por mim

Como pássaros libertos?


Deixo-os passar sem captura,

Vejo-os seguirem pelo ar

- um outro ai, de outros jardins...


Aonde irão? A que criaturas

Se destinam, que os alcançam

Para os possuir e amestrar?


De onde vêm? Quem os projeta

Como translúcidas setas?

E eu, por que os deixo passar,

Como alheias esperanças?


Cecília Meireles


Mulher, roseira branca

Tu és mulher! Amor e sofrimento!
Roseira branca de real beleza
Que trescalando odor, doçura e alento
Cresce e viça enfeitando a natureza.

Tal flor largada no rigor do vento,
À chuva, ao sol, ao frio, à correnteza
Das humanas paixões no desalento
Fustigada sem trégua, com rudeza.

Sob o inverno dos anos, inclemente,
Solitária, vencida em meio às dores,
Até à raiz, queimada impiamente,

Não reabrirás jamais em novas flores;
Mas deixarás no chão, como semente,
Pétalas soltas recordando amores.

Zilda Xavier Palastro

Intervalo

Começo a conhecer-me. Não existo.

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,

Ou metade desse intervalo, porque também há vida...

Sou isso, enfim...

Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.

Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.

É um universo barato.

Álvaro de Campos

Flautim

Guardaremos juntos
os acertos, breves,
os enganos, fundos,


e aquele remoto
amparar de parcos,
altivos escolhos.


Cairão o signo
e a secreta cinza
desse ardente enigma.


Não lamentaremos
mais que o desencontro
dos humanos termos,


a rápida marca
que o passado imprime
na face, na máscara,


e os puros despojos
que às vezes são versos
e sempre são ossos.


Não diremos nada
dos velhos desejos
que a memória abraça,


sem qualquer palavra
não recordaremos
o que nos pesava,


mas apenas isso
que nos pese ainda:
ter vindo, ter sido.


Bruno Tolentino

17

Podem ficar com a realidade
Esse baixo astral
Em que tudo entra pelo cano


Eu quero viver de verdade
Eu fico com o cinema americano


Paulo Leminski

Foi para ti


Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
Um corpo aberto como os animais.

Eugénio de Andrade



Guardei-me para ti

Guardei-me para ti como um segredo

Que eu mesma não desvendei:

Há notas nesta guitarra que não toquei,

Há praias na minha ilha que nem andei.


É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,

Naquilo que não conheço e adivinhei;

É preciso que me ensines a canção do que serei

E me cries com teu gesto

Que nem sonhei.


Lya Luft


Ingênuo Enleio

Ingênuo enleio de surpresas

Sutil afago em meus sentidos

Foi para mim tua beleza,

A tua voz nos meus ouvidos.


Ao pé de ti, do mal antigo,

Meu triste ser convalesceu,

Então me fiz teu grande amigo

E teu afeto se me deu.


Mas o teu corpo tinha a graça

Das aves... musical adejo...

Vela do mar que freme e passa...

E assim nasceu o meu desejo.


Depois, momento por momento,

Eu conheci teu coração.

E se mudou meu sentimento

Em doce e grave adoração.


Manuel Bandeira


In Memorian

Esses mortos difíceis

Que não acabam de morrer

Dentro de nós; o sorriso

De fotografia,

A carícia suspensa, as folhas

Dos estios persistindo

Na poeira; difíceis.

O suor dos cavalos, o sorriso,

Como já disse, nos lábios,

Nas folhas dos livros;

Não acabam de morrer,

Tão difíceis, os amigos.


Eugenio de Andrade


Cantiga de acordar mulher

Das vozes que te embalavam

A esperança de menina

Guardaste mais, de tanto repisadas

As perfumadas lições

Da nobre arte de agarrar um homem,

De como te fazeres desejada,

Amada porventura,

Tudo aprendeste: os gestos, os meneios,

A graça de sorrir e a de calar.

Hoje tens o teu homem

Disposto a desdobrar-se em pão e vinho

Para apagar a tua fome,

Por isso, que lhe hás de dar:

O trigo de tua pele ou as uvas de tua boca?

Se, sem a ponte do amor, tua lavoura é tão pouca...

Acorda: onde estão as vozes que te ensinaram a amar?


Geir Campos


Quem me quiser maltratar

Quem me quiser maltratar
Maltrate-me agora,
Pois é tarde, e cansado
De trabalhos e penas,
Quem se defende a esta hora?

Quem me quiser renegar,
Renegue-me agora,
Porque o meu sono é tão grande
Que tudo aceito – nem sinto
Se alguém se for embora.

Quem me quiser esquecer,
Esqueça-me agora,
Que eu não lamento nem sofro,
Tonta do dia excessivo,
Tão sem força, quem chora?

(Noite imóvel, noite escura,
Forrada de sedas suaves,
Pequeno mundo sem chaves,
Quase como a sepultura.)

Cecília Meireles

@

Na tela
inacessível
inacessável
o e-mail
de Deus

Ivo Barroso

Invocação à Noite

Ó deusa, que proteges dos amantes
O destro furto, o crime deleitoso,
Abafa com teu manto pavoroso
Os importantes astros vigilantes:

Quero adoçar meus lábios anelantes
No seio de Ritália melindroso;
Estorva que os maus olhos do invejoso
Turbem d'amor os sôfregos instantes:

Tétis formosa, tal encanto inspire
Ao namorado Sol teu níveo rosto,
Que nunca de teus braços se retire!

Tarda ao menos o carro à Noite oposto,
Até que eu desfaleça, até que expire
Nas ternas ânsias, no inefável gosto.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma,
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira

Das Pedras

Ajuntei todas as pedras

Que vieram sobre mim.

Levantei uma escada muito alta,

E no alto subi.

Teci um tapete floreado

E no sonho me perdi.

Uma estrada,

Um leito,

Uma casa,

Um companheiro.

Tudo de pedra.

Entre pedras

Cresceu minha poesia.

Minha vida...

Quebrando pedras

E plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam

Levantei a pedra rude

Dos meus versos.


Cora Coralina

Isto é tudo

As urnas estão fechadas,
os corações estão mudos,
mas o amor paira e condena —
isto é tudo.

As mãos vão entrelaçadas,
o olhar é sereno e agudo,
e o amor é mais do que as almas —
isto é tudo.

A lágrima quase aponta,
O desejo é um breve escudo,
e o amor é quase nada —
isto é tudo.

Walmir Ayala

Mocidade

A mocidade esplêndida, vibrante,

Ardente, extraordinária, audaciosa.

Que vê num cardo a folha duma rosa,

Na gota de água o brilho dum diamante;


Essa que fez de mim Judeu Errante

Do espírito, a torrente caudalosa,

Dos vendavais irmã tempestuosa,

- Trago-a em mim vermelha, triunfante!


No meu sangue rubis correm dispersos:

- Chamas subindo ao alto nos meus versos,

Papoilas nos meus lábios a florir!


Ama-me doida, estonteadoramente,

O meu Amor! que o coração da gente

É tão pequeno... e a vida, água a fugir...

Florbela Espanca

Meu Coração

Eu tenho um coração um século atrasado,

Ainda vive a sonhar... ainda sonha a sofrer

Acredita que o mundo é um castelo encantado

E, criança, vive a rir, batendo de prazer...


Eu tenho um coração – um mísero coitado

Que um dia há de, por fim, o mundo compreender...

- é um poeta, um sonhador, um pobre esperançado

Que habita no meu peito e enche de sons meu ser.


Quando tudo é matéria e é sombra – ele é uma luz

Ainda crê na ilusão... no amor... na fantasia.

Sabe todos de cor os versos que compus.


Deus pôs-me um coração com certeza enganado:

- e é por isso talvez que ainda faço poesia

Lembrando um sonhador do século passado!


J. G. de Araújo Jorge


O amor quando se revela

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...


Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!


Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!


Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


Fernando Pessoa

Homilia

Quem dentre vós

Dirá convictamente:

Os alquimistas morreram

- aqueles simples –

Morreram os conquistadores,

Os reis,

Os tocadores de alaúde,

Os mágicos.

Oh, engano!

A vida é eterna, irmãos.

Aquietai-vos, pois, em vossas lidas,

Louvai a deus e reparti a côdea,

O boi, vosso marido e esposa

E, sobretudo,

E mais que tudo,

A palavra sem fel.

Adélia Prado

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,

A que não se recusa a esse final convite,

Em máquinas de adeus, sem tentação de volta.


Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza,

Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:

Já de horizontes libertada, mas sozinha.


Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,

Dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.


Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas

Vão as medidas que separam os abraços,

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

“Agora és livre, se ainda recordas.”


Cecília Meireles


Anfiguri

Aquilo que eu ouso

Não é o que quero

Eu quero o repouso

Do que não espero


Não quero o que tenho

Pelo que custou

Não sei de onde venho

Sei para onde vou


Homem, sou a fera

Poeta, sou um louco

Amante, sou pai


Vida, quem me dera...

Amor, dura pouco...

Poesia, ai!...


Vinicius de Moraes


Passeio

Passeio com meu filho pelo mundo

e é pouco para amá-lo este percurso.

Toco seus olhos de cristal escuro

e ele me vê robô, cavalo, urso.

Ele me vê raiz, me desafia,

briga e ama num elo conseqüente

com tudo o que é real, e me anuncia.


Passeio com meu filho à luz do dia,

e a luz fecunda a noite que nos une

num sonho latejante de silêncio.

Concentro-me de amá-lo como a urna

guarda a alucinação de seu perfume,

e penso, piso a terra, restituo

em dom de amar a amarga antecedência

do filho que eu não fui e que construo.

Walmir Ayala

Men improve with the years


I am worn out with dreams;

A weather-worn, marble triton

Among the streams;

And all day long I look

Upon this lady's beauty

As though I had found in a book

A pictured beauty,

Pleased to have filled the eyes

Or the discerning ears,

Delighted to be but wise,

For men improve with the years;

And yet, and yet,

Is this my dream, or the truth?

O would that we had met

When I had my burning youth!

But I grow old among dreams,

A weather-worn, marble triton

Among the streams.


W. B. Yeats

Este, que um deus cruel arremessou à vida,

Marcando-o com o sinal da sua maldição,

- Este desabrochou como a erva má, nascida

Apenas para aos pés ser calcada no chão.


De motejo em motejo arrasta a alma ferida...

Sem constância no amor, dentro do coração

Sente, crespa, crescer a selva retorcida

Dos pensamentos maus, filhos da solidão.


Longos dias sem sol! noites de eterno luto!

Alma cega, perdida à toa no caminho!

Roto casco de nau, desprezado no mar!


E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;

E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!

Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!


Olavo Bilac, in Poesias


A Proibição

Tem cuidado ao amar-me.

Pelo menos, lembra-te que to proibi.

Não que restaure o meu pródigo desperdício

De alento e sangue, com teus suspiros e lágrimas,

Tornando-me para ti o que foste para mim,

Mas tão grande prazer desgasta a nossa vida duma vez.

Para evitar que teu amor por minha morte seja frustrado,

Se me amas, tem cuidado ao amar-me.


Tem cuidado ao odiar-me,

E com os excessos do triunfo na vitória,

Ou tornar-me-ei o meu próprio executor,

E do ódio com igual ódio me vingarei.

Mas tu perderás a pose do conquistador,

Se eu, a tua conquista, perecer pelo teu ódio:

Então, para evitar que, reduzido a nada, eu te diminua,

Se tu me odeias, tem cuidado ao odiar-me.


Contudo, ama-me e odeia-me também.

Assim os extremos não farão o trabalho um do outro:

Ama-me, para que possa morrer do modo mais doce;

Odeia-me, pois teu amor é excessivo para mim;

Ou deixa que ambos, eles e não eu, se corrompam

Para que, vivo, eu seja teu palco e não teu triunfo.

Então, para que o teu amor, ódio, e a mim, não destruas,

Oh, deixa-me viver, mas ama-me e odeia-me também.


John Donne, in "Poemas Eróticos"

Tradução de Helena Barbas

Dize-me, amor, como te sou querida

Dize-me, amor, como te sou querida,

Conta-me a glória do teu sonho eleito,

Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,

Arranca-me dos pântanos da vida.


Embriagada numa estranha lida,

Trago nas mãos o coração desfeito,

Mostra-me a luz, ensina-me o preceito

Que me salve e levante redimida!


Nesta negra cisterna em que me afundo,

Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,

Agonia sem fé dum moribundo,


Grito o teu nome numa sede estranha,

Como se fosse, amor, toda a frescura

Das cristalinas águas da montanha!


Florbela Espanca, in A Mensageira das Violetas