"If"
Se acaso chegares,
Como eu cheguei
A uma campina de horizontes arqueados,
Não te intimidem o uivo do lobo,
O bramido do tigre;
Enfrenta-os nas esquinas da selva,
Olhos nos olhos,
Dedo firme no gatilho.
Meu filho,
se acaso chegares
a um mundo injusto e triste
como este em que vivo,
faze um filho;
para que ele alcance um tempo
mais longe e mais puro,
e ajude a redimi-lo.
Paulo Mendes Campos
Exaltação ao amor
Sofro, bem sei... mas se preciso for
Sofrer mais, mal maior, extraordinário,
Sofrerei tudo o quanto necessário
Para a estrela alcançar, colher a flor.
Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco, talvez, ou um visionário,
Hei de alcançar o amor... com o meu Amor.
Nada impedirá que seja meu
Se é fogo que em meu peito se acendeu,
E lavra, e cresce, e me consome o ser...
Deus o pôs... ninguém mais há de dispor.
Se esse amor não puder ser meu viver
Há de ser meu para eu morrer de Amor!
J.G. de Araújo Jorge
.......
Chegou a poesia
E foi nessa idade... Chegou a poesia
Para me buscar. Não sei, não sei de onde
Saiu, de inverno ou rio.
Não sei como nem quando, não, não eram vozes,
Não eram palavras, nem silencio,
Porém desde uma rua me chamava,
Desde os ramos da noite,
De repente entre os outros,
Entre fogos violentos
Ou regressando sozinho,
Ali estava sem rosto
E me tocava.
Eu não sabia o que dizer, minha boca
Não sabia
Nomear,
Meus olhos eram cegos,
E algo golpeava em minha alma,
Febre ou asas perdidas,
E me fui fazendo só,
Decifrando
Aquela queimadura,
E escrevi a primeira linha vaga,
Vaga, sem corpo, pura
Tontice, pura sabedoria
De quem não sabe nada,
E vi de repente
O céu
Degranado e aberto,
Planetas,
Plantações palpitantes,
A sombra perfurada,
Crivada de flechas, fogo e flores,
A noite esmagadora, o universo.
E eu, mínimo ser,
Ébrio do grande vazio
Constelado,
À semelhança, à imagem
Do mistério,
Me senti parte pura
Do abismo,
Rolei com as estrelas,
Meu coração se desatou ao vento.
She walks in beauty
She walks in Beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that’s best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which Heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o’er her face;
Where thoughts serenely sweet express,
How pure, how dear their dwelling-place.
And on that cheek, and o’er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!
Lord Byron
São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.
Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
“Bom dia, amigo”
Dizendo ao fogo
“Saúde, irmão!”
Lá vem São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.
Lá vai São Francisco
Pelo caminho.
Vinícius de Moraes
O fim no começo
A palavra cortada
na primeira sílaba.
A consoante esvanecida
sem que a língua atingisse o alvéolo.
O que jamais se esqueceria
pois nem principiou a ser lembrado.
O campo – havia, havia um campo?
irremediavelmente murcho em sombra
antes de imaginar-se a figura
de um campo.
A vida não chega a ser breve.
Carlos Drummond de Andrade
Nova poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
Manuel Bandeira
E não esqueçamos
E não esqueçamos nunca a melancolia, o gasto sentimentalismo, perfeitos frutos impuros de uma maravilhosa qualidade esquecida, deixados atrás pelo frenético livresco; a luz da lua, o cisne ao anoitecer, “coração meu” são sem dúvida o poético elementar e imprescindível. Quem foge do mau gosto cai no gelo.
Neruda in Una poesía sin pureza (Tradução de Thiago de Mello)
Penso logo sinto
Eu penso logo eu vivo logo durmo eu durmo logo sonho
Eu sonho logo acordo acordo logo penso eu penso logo vivo
Viver é risco preciso verbo transitivo estranho
Os obuses são obuses são obuses são medonhos
Viver no país de alice só em livro só em sonho
Pois os mísseis são os mísseis são os mísseis são demônios
Eu penso logo vivo eu vivo logo durmo eu durmo logo sonho
Eu sonho logo acordo acordo logo penso eu penso logo canto
Cantar é fácil difícil ofício paixão é igual a isso
Mas os bichos são os bichos são os bichos são os bichos
Amor se não existisse você ainda bem que existe
E o resto que se lixe que se lixe que se lixe
Eu penso logo vivo eu vivo logo durmo eu durmo logo sonho
Eu sonho logo acordo acordo logo penso eu penso logo penso
Pensar exerço exercito dançar baião não resisto
Luiz gonzaga é luiz gonzaga rei do baião
Jesus cristo é jesus cristo rei dos cristãos
Sentir penso logo sinto sorrir apesar de tudo ir fundo
Pois o mundo é o mundo é o mundo é o mundo
Eu penso logo vivo eu vivo logo durmo eu durmo logo sonho
Eu sonho logo acordo acordo logo penso eu penso logo vivo.
Itamar Assumpção
Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo
em vez de fruto dão pássaros.
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores.
Os pássaros começam onde as árvores acabam.
Os pássaros fazem cantar as árvores.
Ao chegar aos pássaros
as árvores engrossam, movimentam-se,
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal.
Como pássaros pousam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos.
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista,
é complicada e não se dá bem na poesia,
não foi ainda isolada da filosofia.
Eu amo as árvores, principalmente as que dão pássaros.
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão, a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração"
Ruy Belo
Como se te perdesse
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Hilda Hilst
Certa palavra
Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
Carlos Drummond de Andrade
Para onde é que vão os versos
Para onde é que vão os versos
Que às vezes passam por mim
Como pássaros libertos?
Deixo-os passar sem captura,
Vejo-os seguirem pelo ar
- um outro ai, de outros jardins...
Aonde irão? A que criaturas
Se destinam, que os alcançam
Para os possuir e amestrar?
De onde vêm? Quem os projeta
Como translúcidas setas?
E eu, por que os deixo passar,
Como alheias esperanças?
Cecília Meireles
Mulher, roseira branca
Roseira branca de real beleza
Que trescalando odor, doçura e alento
Cresce e viça enfeitando a natureza.
Tal flor largada no rigor do vento,
À chuva, ao sol, ao frio, à correnteza
Das humanas paixões no desalento
Fustigada sem trégua, com rudeza.
Sob o inverno dos anos, inclemente,
Solitária, vencida em meio às dores,
Até à raiz, queimada impiamente,
Não reabrirás jamais em novas flores;
Mas deixarás no chão, como semente,
Pétalas soltas recordando amores.
Zilda Xavier Palastro
Intervalo
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
Álvaro de Campos
Flautim
os acertos, breves,
os enganos, fundos,
e aquele remoto
amparar de parcos,
altivos escolhos.
Cairão o signo
e a secreta cinza
desse ardente enigma.
Não lamentaremos
mais que o desencontro
dos humanos termos,
a rápida marca
que o passado imprime
na face, na máscara,
e os puros despojos
que às vezes são versos
e sempre são ossos.
Não diremos nada
dos velhos desejos
que a memória abraça,
sem qualquer palavra
não recordaremos
o que nos pesava,
mas apenas isso
que nos pese ainda:
ter vindo, ter sido.
Bruno Tolentino
17
Esse baixo astral
Em que tudo entra pelo cano
Eu quero viver de verdade
Eu fico com o cinema americano
Paulo Leminski
Foi para ti
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
Um corpo aberto como os animais.
Guardei-me para ti
Guardei-me para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.
É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.
Lya Luft
Ingênuo Enleio
Ingênuo enleio de surpresas
Sutil afago em meus sentidos
Foi para mim tua beleza,
A tua voz nos meus ouvidos.
Ao pé de ti, do mal antigo,
Meu triste ser convalesceu,
Então me fiz teu grande amigo
E teu afeto se me deu.
Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves... musical adejo...
Vela do mar que freme e passa...
E assim nasceu o meu desejo.
Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.
Manuel Bandeira
In Memorian
Esses mortos difíceis
Que não acabam de morrer
Dentro de nós; o sorriso
De fotografia,
A carícia suspensa, as folhas
Dos estios persistindo
Na poeira; difíceis.
O suor dos cavalos, o sorriso,
Como já disse, nos lábios,
Nas folhas dos livros;
Não acabam de morrer,
Tão difíceis, os amigos.
Eugenio de Andrade
Cantiga de acordar mulher
Das vozes que te embalavam
A esperança de menina
Guardaste mais, de tanto repisadas
As perfumadas lições
Da nobre arte de agarrar um homem,
De como te fazeres desejada,
Amada porventura,
Tudo aprendeste: os gestos, os meneios,
A graça de sorrir e a de calar.
Hoje tens o teu homem
Disposto a desdobrar-se em pão e vinho
Para apagar a tua fome,
Por isso, que lhe hás de dar:
O trigo de tua pele ou as uvas de tua boca?
Se, sem a ponte do amor, tua lavoura é tão pouca...
Acorda: onde estão as vozes que te ensinaram a amar?
Geir Campos
Quem me quiser maltratar
Maltrate-me agora,
Pois é tarde, e cansado
De trabalhos e penas,
Quem se defende a esta hora?
Quem me quiser renegar,
Renegue-me agora,
Porque o meu sono é tão grande
Que tudo aceito – nem sinto
Se alguém se for embora.
Quem me quiser esquecer,
Esqueça-me agora,
Que eu não lamento nem sofro,
Tonta do dia excessivo,
Tão sem força, quem chora?
(Noite imóvel, noite escura,
Forrada de sedas suaves,
Pequeno mundo sem chaves,
Quase como a sepultura.)
Cecília Meireles
Invocação à Noite
O destro furto, o crime deleitoso,
Abafa com teu manto pavoroso
Os importantes astros vigilantes:
Quero adoçar meus lábios anelantes
No seio de Ritália melindroso;
Estorva que os maus olhos do invejoso
Turbem d'amor os sôfregos instantes:
Tétis formosa, tal encanto inspire
Ao namorado Sol teu níveo rosto,
Que nunca de teus braços se retire!
Tarda ao menos o carro à Noite oposto,
Até que eu desfaleça, até que expire
Nas ternas ânsias, no inefável gosto.
Manuel Maria Barbosa du Bocage
Arte de Amar
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira
Das Pedras
Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta,
E no alto subi.
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi.
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
Cresceu minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
E plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
Dos meus versos.
Cora Coralina
Isto é tudo
os corações estão mudos,
mas o amor paira e condena —
isto é tudo.
As mãos vão entrelaçadas,
o olhar é sereno e agudo,
e o amor é mais do que as almas —
isto é tudo.
A lágrima quase aponta,
O desejo é um breve escudo,
e o amor é quase nada —
isto é tudo.
Walmir Ayala
Mocidade
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;
Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!
Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...
Meu Coração
Ainda vive a sonhar... ainda sonha a sofrer
Acredita que o mundo é um castelo encantado
E, criança, vive a rir, batendo de prazer...
Eu tenho um coração – um mísero coitado
Que um dia há de, por fim, o mundo compreender...
- é um poeta, um sonhador, um pobre esperançado
Que habita no meu peito e enche de sons meu ser.
Quando tudo é matéria e é sombra – ele é uma luz
Ainda crê na ilusão... no amor... na fantasia.
Sabe todos de cor os versos que compus.
Deus pôs-me um coração com certeza enganado:
- e é por isso talvez que ainda faço poesia
Lembrando um sonhador do século passado!
J. G. de Araújo Jorge
O amor quando se revela
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa
Homilia
Quem dentre vós
Dirá convictamente:
Os alquimistas morreram
- aqueles simples –
Morreram os conquistadores,
Os reis,
Os tocadores de alaúde,
Os mágicos.
Oh, engano!
A vida é eterna, irmãos.
Aquietai-vos, pois, em vossas lidas,
Louvai a deus e reparti a côdea,
O boi, vosso marido e esposa
E, sobretudo,
E mais que tudo,
A palavra sem fel.
Adélia Prado
Eu sou essa pessoa a quem o vento chama
Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
A que não se recusa a esse final convite,
Em máquinas de adeus, sem tentação de volta.
Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza,
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
Já de horizontes libertada, mas sozinha.
Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
Dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas
Vão as medidas que separam os abraços,
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
“Agora és livre, se ainda recordas.”
Cecília Meireles
Anfiguri
Aquilo que eu ouso
Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero
Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou
Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai
Vida, quem me dera...
Amor, dura pouco...
Poesia, ai!...
Vinicius de Moraes
Passeio
Passeio com meu filho pelo mundo
e é pouco para amá-lo este percurso.
Toco seus olhos de cristal escuro
e ele me vê robô, cavalo, urso.
Ele me vê raiz, me desafia,
briga e ama num elo conseqüente
com tudo o que é real, e me anuncia.
Passeio com meu filho à luz do dia,
e a luz fecunda a noite que nos une
num sonho latejante de silêncio.
Concentro-me de amá-lo como a urna
guarda a alucinação de seu perfume,
e penso, piso a terra, restituo
em dom de amar a amarga antecedência
do filho que eu não fui e que construo.
Walmir Ayala
Men improve with the years
I am worn out with dreams;
A weather-worn, marble triton
Among the streams;
And all day long I look
Upon this lady's beauty
As though I had found in a book
A pictured beauty,
Pleased to have filled the eyes
Or the discerning ears,
Delighted to be but wise,
For men improve with the years;
And yet, and yet,
Is this my dream, or the truth?
O would that we had met
When I had my burning youth!
But I grow old among dreams,
A weather-worn, marble triton
Among the streams.
W. B. Yeats
Só
Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
- Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.
De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.
Longos dias sem sol! noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!
E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;
E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!
Olavo Bilac, in Poesias
A Proibição
Tem cuidado ao amar-me.
Pelo menos, lembra-te que to proibi.
Não que restaure o meu pródigo desperdício
De alento e sangue, com teus suspiros e lágrimas,
Tornando-me para ti o que foste para mim,
Mas tão grande prazer desgasta a nossa vida duma vez.
Para evitar que teu amor por minha morte seja frustrado,
Se me amas, tem cuidado ao amar-me.
Tem cuidado ao odiar-me,
E com os excessos do triunfo na vitória,
Ou tornar-me-ei o meu próprio executor,
E do ódio com igual ódio me vingarei.
Mas tu perderás a pose do conquistador,
Se eu, a tua conquista, perecer pelo teu ódio:
Então, para evitar que, reduzido a nada, eu te diminua,
Se tu me odeias, tem cuidado ao odiar-me.
Contudo, ama-me e odeia-me também.
Assim os extremos não farão o trabalho um do outro:
Ama-me, para que possa morrer do modo mais doce;
Odeia-me, pois teu amor é excessivo para mim;
Ou deixa que ambos, eles e não eu, se corrompam
Para que, vivo, eu seja teu palco e não teu triunfo.
Então, para que o teu amor, ódio, e a mim, não destruas,
Oh, deixa-me viver, mas ama-me e odeia-me também.
John Donne, in "Poemas Eróticos"
Tradução de Helena Barbas
Dize-me, amor, como te sou querida
Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.
Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!
Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,
Agonia sem fé dum moribundo,
Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescuraDas cristalinas águas da montanha!
Florbela Espanca, in A Mensageira das Violetas
Silêncio
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz, in Liberdade sob Palavra
Tradução de Luis PignatelliA Partida
Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.
Vinicius de Moraes
in Poemas, sonetos e baladas
Morro do que há no mundo
Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.
Cecília Meireles
The road not taken
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that, the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost
Balada das coisas sem importância
Conheço pela roupa o homem,
Conheço o tédio e o deleite,
Conheço a fartura e a fome,
Conheço a mulher pelo enfeite,
Conheço o princípio e o fim,
Conheço pela chama o azeite,
Conheço tudo, menos a mim.
Conheço o gibão pela gola,
Conheço o rico pelo anel,
Conheço o fiel pela sacola,
Conheço a monja pelo véu,
Conheço o porco pela tripa,
Conheço o irmão pelo latim,
Conheço o vinho pela pipa,
Conheço tudo, menos a mim.
Conheço a mula e o cavalo,
Conheço o carro e a carreta,
Conheço a galinha e o galo,
Conheço o sino e a sineta,
Conheço a flor pelo talo
Conheço Abel e Caim,
Conheço o pote e o gargalo,
Conheço tudo, menos a mim.
Ofertório
Príncipe, conheço tudo em suma,
Conheço o branco e o carmim,
E a morte que o fim consuma.
Conheço tudo, menos a mim.
François Villon (tradução de Ferreira Gullar)
Considerando a frio, imparcialmente...
Considerando a frio, imparcialmente,
que o homem é triste, tosse e, sem embargo,
se alegra em seu peito colorido;
que a única coisa que faz é compor-se de dias;
que é lôbrego mamífero e se penteia...
que o homem procede suavemente do trabalho
e ressoa chefe e soa subordinado;
que o diagrama do tempo
é constante diorama em suas medalhas
e, semi-abertos, seus olhos estudaram,
desde distantes tempos,
sua fórmula famélica de massa...
que o homem fica, às vezes, pensando,
como querendo chorar,
e, sujeito a estender-se como objeto,
se torna bom carpinteiro, sua, mata
e depois canta, almoça, se abotoa...
suas contraditórias peças, sua latrina,
seu desespero, ao terminar o dia atroz, apagando-o...
que o homem é na verdade um animal
e, não obstante, ao voltear, me dá com sua tristeza na cabeça...
Compreendendo
que ele sabe que o quero,
que o odeio com afeto e me é, em suma, indiferente...
Considerando seus documentos gerais
e examinando com lentes aquele certificado
que prova que nasceu muito pequenino...
vem,
e lhe dou um abraço, emocionado.
Tanto faz! Emocionado... Emocionado...
Não dá mais pra segurar (Explode Coração)
Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar e eu não posso mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar e me cortou
Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
E se perder e se achar e tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim
Como se fosse o sol desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor desta manhã
Nascendo, rompendo, rasgando
tomando meu corpo e então eu
Chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando
Feito louco, alucinado e criança
Sentindo o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar,
Explode coração
Luis Gonzaga do Nascimento Junior (Gonzaguinha)
Mozart no céu
No dia 5 de dezembro de 1791
Wolfgang Amadeus Mozart entrou no céu,
como um artista de circo,
fazendo piruetas extraordinárias
sobre um mirabolante cavalo branco.
Os anjinhos atônitos diziam:
Que foi? Que não foi?
Melodias jamais ouvidas voavam
nas linhas suplementares superiores da pauta.
Um momento se suspendeu à contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então
Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.
Manuel Bandeira in Lira dos cinquent'anos
O Único Mistério do Universo
O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.
Alberto Caeiro in Poemas Inconjuntos
Soneto
em que a luz da razão, qual tocha acesa,
vem conduzir a simples natureza:
- é hoje que o teu mundo principia.
A mão, que te gerou, teus passos guia;
despreza ofertas de uma vã beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do Filho de Maria.
Estampa na tua alma a Caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes,
são eternos preceitos da Verdade.
Tudo o mais são idéias delirantes;
procura ser feliz na Eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.
Bárbara Heliodora
A Terra
Tu te recostas sobre a Terra,
fazes igual se estás alegre,
vai, filho meu, brinca com ela...
Que de coisas maravilhosas
soa o tambor índio da Terra:
se ouve o fogo que sobe e desce
buscando o céu, e não sossega.
Roda e roda, se ouvem os rios
em cascatas que não se contam.
Se ouve mugir os animais;
comer o machado a selva.
Ouve-se soar teares índios.
Se ouvem trilhos e se ouvem festas.
Aonde o índio está chamando,
o tambor índio lhe contesta,
e tange perto e tange longe,
como o que foge e que regressa...
Tudo toma, tudo carrega
o corpo sagrado da Terra:
o que caminha, o que adormece,
o que se diverte e o que pena;
os vivos e também os mortos
leva o tambor índio da Terra.
Quando eu morrer, não chores, filho:
peito a peito junta-te a ela
e se dominas o teu fôlego
como quem tudo ou nada seja,
tu ouvirás subir seu braço
que me jungia e que me entrega
e a mãe que estava quebrantada
tu a verás tornar inteira.
Gabriela Mistral (Tradução de José Jeronymo Rivera)
IX
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
Alberto Caeiro