Oda a la Primavera
Primavera
temible,
rosa
loca,
llegarás
llegas
imperceptible,
apenas
un temblor de ala, un beso
de niebla con jazmines,
el sombrero
lo sabe,
los caballos,
el viento
trae una carta verde
que los árboles leen
y comienzan
las hojas
a mirar con un ojo,
a ver de nuevo el mundo,
se convencen,
todo está preparado,
el viejo sol supremo,
el agua que habla,
todo
y entonces
salen todas las faldas
del follaje,
la esmeraldina,
loca
primavera (…)
Pablo Neruda
Se tu me esqueces
Quero que saibas
uma coisa.
Tu já sabes o que é:
se olho
a lua de cristal, o ramo rubro
do lento outono em minha janela,
se toco
junto ao fogo
a implacável cinza
ou o enrugado corpo da madeira,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
para essas tuas ilhas que me aguardam.
Pois ora,
se pouco a pouco deixas de me amar,
de te amar, pouco a pouco, deixarei.
Se de repente
me esqueces,
não me procures,
já te esqueci também.
Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que canta em minha vida
e te decides
a me deixar na margem
do coração no qual tenho raízes,
pensa
que nesse dia
a essa hora
levantarei os braços
me nascerão raízes
procurando outra terra.
Porém,
se cada dia,
cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se cada dia se ergue
uma flor a teus lábios me buscando,
ai, amor meu, ai minha,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
do teu amor, amada, o meu se nutre,
e enquanto vivas estará em teus braços
e sem sair dos meus.
Pablo Neruda
XCII
amor meu, se morres e não morro,
não demos à dor mais território:
não há extensão como a que vivemos.
Pó no trigo, areia nas areias,
o tempo, a água errante, o vento vago
nos transportou como grão navegante.
Podemos não nos encontrar no tempo.
Esta campina em que nos achamos,
oh pequeno infinito! devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,
e assim como não teve nascimento
morte não tem, é como um longo rio,
só muda de terras e de lábios.
Pablo Neruda (tradução de Carlos Nejar)
XLVIII
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama.
De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fios senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A ventura é uma torre transparente.
O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
têm direito a todos os cravos.
Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,
têm da natureza a eternidade.
Pablo Neruda in Cem Sonetos de Amor (tradução de Carlos Nejar)
Soneto XII
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
Pablo Neruda (tradução de Carlos Nejar)
Soneto LVII
Os que profetizaram meu porvir de areia,
Asseveraram tantas coisas com línguas frias:
Quiseram proibir a flor do universo.
“Já não cantará mais o âmbar insurgente
Da sereia, não tem senão povo.”
E mastigavam seus incessantes papéis
Patrocinando para minha guitarra o esquecimento.
Eu lhes lancei aos olhos as lanças deslumbrantes
De nosso amor cravando teu coração e o meu,
Eu reclamei o jasmim que deixavam tuas pegadas,
Eu me perdi de noite sem luz sob tuas pálpebras
E quando me envolveu a claridade
Nasci de novo, dono de minha própria treva.
(Pablo Neruda)
O que nasce comigo
neste instante libero, e aos fermentos
do queijo, do vinagre, na secreta
floração do primeiro sêmen, canto
ao canto do leite que agora cai
de brancura em brancura aos mamilos,
eu canto os crescimentos do estábulo,
o fresco esterco destas grandes vacas
de cujo aroma voam as multidões
de asas azuis, eu falo
sem transição do que agora acontece
ao besouro com o seu mel, ao líquen
com suas germinações tão silenciosas:
como um tambor eterno
as sucessões soam, como no transcurso
do ser ao ser, e nasço, nasço, nasço
com o que está nascendo, eu estou unido
ao crescimento, ao surdo envolvimento
de quanto me rodeia, e que pulula,
propagando-se em densas umidades,
nos estames, nos tigres, e nas geléias.
Eu sou pertencente à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
e sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho mais noturno
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem ouça,
nem participe do que nasce e cresce.
Quando escolhi a floresta
para aprender a ser,
folha por folha,
escrevi as lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a floresta.
(Pablo Neruda)
tradução de José Eduardo Degrazia
É assim que te quero
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita de luz e pão e sombra,
eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
Pablo Neruda
XLIV
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.
Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.
O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.
Pablo Neruda
Te Necessito
Não estou preparado para que me deixes só.
Ainda não estou preparado pra crescer
e aceitar que é natural,
para reconhecer que tudo
tem um princípio e tem um final.
Ainda não estou preparado para não te ter
e apenas te recordar
Ainda não estou preparado para não poder te olhar
ou não poder te falar.
Não estou preparado para que não me abraces
e para não poder te abraçar.
Ainda te necessito.
E ainda não estou preparado para caminhar
por este mundo perguntando-me: Por quê?
Não estou preparado hoje nem nunca o estarei.
Ainda te Necessito.
Pablo Neruda
(tradução de Lustato Tenterrara)
Poema XVIII
que arderam de doçura ou enfureceram
o aguilhão: o certame continua,
vão e vêm as viagens do mel à dor.
Não, não se desfia a rede dos anos: não hà rede.
não caem gota a gota de um rio: não há rio.
O sonho não divide a vida em duas metades,
nem a ação, nem o silêncio, nem a virtude:
a vida foi como uma pedra, um só movimento,
uma única fogueira que reverberou na folhagem,
uma flecha, uma só, lenta ou ativa, um metal
que subiu e desceu queimando em teus ossos.
Pablo Neruda
XXXIV
nadadora, teu corpo é de água pura,
cozinheira, teu sangue é terra viva
e teus costumes são floridos e terrestres.
À água vão teus olhos e levantam as ondas,
à terra tuas mãos e saltam as sementes,
em água e terra tens propriedades profundas
que em ti se juntam como as leis da greda.
Naiade, corta teu corpo a turquesa
e logo ressurgido floresce na cozinha
de tal modo que assumes quanto existe
e ao fim dormes rodeada por meus braços que afastam
da sombra sombria, para que descanses,
legumes, algas, ervas: a espuma de teus sonhos.
Pablo Neruda in Cem Sonetos de Amor (Tradução de Carlos Nejar)
O Grande Silêncio
Sem perguntar se perguntavam todos
e começou-se a viver o veneno
sem saber como, da noite pro dia.
Deslizava-se no silêncio como
se fosse neve negra o pavimento,
os famintos ouvidos esperavam
sinal e não se ouvia
senão um surdo rumor numeroso:
eram tantas ausências que se uniam
umas com outras como um buraco
a outro buraco, e outro, outro e mais outro
vão fazendo uma rede, e essa é a pátria:
sim, de súbito a pátria foi uma rede,
todos foram envoltos no vazio,
numa rede sem fios que amarrava
os olhos, os ouvidos, mais a boca,
e já ninguém sentiu que não tinha
com que sentir, a boca
não tinha direito a ter uma língua,
os olhos não deviam ver a ausência,
o coração vivia emparedado.
Eu fui, eu estive, eu toquei as mãos,
levantei a taça da cor do rio
como pão defendido pelo sangue:
à sombra da honradez da humanidade
dormi e eram esplêndidas as folhas
como se uma árvore só resumisse
todos os crescimentos desta terra,
e fui, de irmão em irmão, bem recebido
com a nobreza nova e verdadeira
dos que com suas mãos postas na farinha
amassaram o novo pão do mundo.
No entanto ali estava nesse tempo
a presença tenaz, uma ferida
de sangue e sombra que nos acompanha:
o que passou, o silêncio e a pergunta
que não se abriu na boca, que morreu
na casa, no caminho, pela usina.
Alguém faltava, mas não poderia
a mãe, o pai, o irmão, e mais a irmã,
e olhar o vazio de uma ausência atroz:
o olhar do ausente era como um estigma:
e não poderia olhar o companheiro
ou perguntar, sem converter-se em ar,
e passar ao vazio, num de repente,
sem que ninguém notasse ou que soubesse.
Pablo Neruda
Gosto quando te calas
Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
Pablo Neruda
Palavras
(...) Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam...
Prosterno-me diante delas...
Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as...
Amo tanto as palavras...
As inesperadas...
As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem...
Vocábulos amados...
Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho...
Persigo algumas palavras...
São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema...
Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas...
E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as...
Deixo-as como estalactites em meu poema;
como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda...
Tudo está na palavra...
Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu...
Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes...
São antiquíssimas e recentíssimas.
Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada...
Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos...
Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo...
Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas...
Por onde passavam a terra ficava arrasada...
Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras.
Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes...o idioma.
Saímos perdendo...
Saímos ganhando...
Levaram o ouro e nos deixaram o ouro...
Levaram tudo e nos deixaram tudo...
Deixaram-nos as palavras.
Pablo Neruda
Que a terra me floresça
Que a terra me floresça nas ações
Como no ouro suculento das vinhas,
Que perfume a dor de minhas canções
Como um fruto esquecido na campina.
Que me transcenda a carne a semeadura
Ávida de brotar por toda parte,
Que minhas artérias levem água pura,
Água que canta quando se reparte!
Desnudo quero estar sobre sarmentos,
Pisado pelos cascos inimigos,
Quero me abrir e repartir sementes,
De pão, eu quero ser de terra e trigo!
Pablo Neruda (Tradução de Thiago de Mello)
Agora
Agora
Me parece
Que o homem não está só.
Em suas mãos
Elaborou
Como se fora um duro
Pão, a esperança,
A terrestre esperança.
Neruda (tradução de Thiago de Mello)
Chegou a poesia
E foi nessa idade... Chegou a poesia
Para me buscar. Não sei, não sei de onde
Saiu, de inverno ou rio.
Não sei como nem quando, não, não eram vozes,
Não eram palavras, nem silencio,
Porém desde uma rua me chamava,
Desde os ramos da noite,
De repente entre os outros,
Entre fogos violentos
Ou regressando sozinho,
Ali estava sem rosto
E me tocava.
Eu não sabia o que dizer, minha boca
Não sabia
Nomear,
Meus olhos eram cegos,
E algo golpeava em minha alma,
Febre ou asas perdidas,
E me fui fazendo só,
Decifrando
Aquela queimadura,
E escrevi a primeira linha vaga,
Vaga, sem corpo, pura
Tontice, pura sabedoria
De quem não sabe nada,
E vi de repente
O céu
Degranado e aberto,
Planetas,
Plantações palpitantes,
A sombra perfurada,
Crivada de flechas, fogo e flores,
A noite esmagadora, o universo.
E eu, mínimo ser,
Ébrio do grande vazio
Constelado,
À semelhança, à imagem
Do mistério,
Me senti parte pura
Do abismo,
Rolei com as estrelas,
Meu coração se desatou ao vento.
E não esqueçamos
E não esqueçamos nunca a melancolia, o gasto sentimentalismo, perfeitos frutos impuros de uma maravilhosa qualidade esquecida, deixados atrás pelo frenético livresco; a luz da lua, o cisne ao anoitecer, “coração meu” são sem dúvida o poético elementar e imprescindível. Quem foge do mau gosto cai no gelo.
Neruda in Una poesía sin pureza (Tradução de Thiago de Mello)
Para meu coração
para que sejas livre as minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que dormido estava em tua alma.
Tu trazes a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho nas corolas.
Com tua ausência escavas o horizonte.
Eternamente em fuga, irmã das ondas.
Já disse que o teu canto era o do vento
como cantam os mastros e os pinheiros.
És como eles, alta e taciturna.
E entristeces de pronto, como uma viagem.
Acolhedora como antiga senda
Abrigas ecos e vozes nostálgicas.
Desperto e alguma vez emigram, fogem
pássaros dormidos em tua alma.
Pablo Neruda (tradução de Thiago de Mello)