VI

Entre lobos
cheiramos nossa pele
nos espreitamos
ficamos em guarda
escondemos as garras
e com muita doçura sorrimos

Entre lobos
sou uma a mais
—não devo ser ingênua—
é minha a pele em risco
é meu ilustre nome em perigo
é minha espalda o suposto felpudo
de algum lobo mais velho

Entre lobos
já faz tempo
eu logrei calar
o absurdo balido
da ovelha incongruente
que reside em mim.

Catalina Bustamante (Peru)

Precisão

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector

Tirem-me os deuses

Tirem-me os deuses
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
O Amor, glória e riqueza.

Tirem, mas deixem-me,
Deixem-me apenas
A consciência lúcida e solene
Das coisas e dos seres.

Pouco me importa
Amor ou glória.
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.

Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objetos
Tem abrigo seguro.

Seus fundamentos
São todo o mundo,
Seu amor é o plácido Universo,
Sua riqueza a vida.

A sua glória
É a suprema
Certeza da solene e clara posse
Da formas e dos objetos.

O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E inútil do Universo.

Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.

Ricardo Reis

A Noite Bela

Que canto levantou-se esta noite
que entretece
com o cristalino eco do coração
as estrelas

Que festa vernal
de coração em núpcias

Fui
um charco de trevas

Hoje mordo
como uma criança a teta
o espaço

Hoje estou bêbado
de universo.

Giuseppe Ungaretti (trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti)

Máquina Breve

O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
- meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.


Cecília Meireles

Como o cavalo

Como o cavalo que chega à fonte, e bebe,
como a folha que, ao cair, nos roça,
como a mão vazia, ou aquela boca
que nos quer falar, e não ousa -

tantas são as variantes da vida que se acalma
tantas são as variantes da dor que, enfim, adormece -
oh!, quem não tiver o coração opresso,
que procure a criatura e a console.

Fiódor Dostoiévski

Amor

O que será:
este labirinto de perguntas
e resposta alguma,
este insistente rugir
de pássaros, este abrir
as jaulas, soltar o bicho
novelo que há em nós,
delicado/feroz morder
(deixa sangrar)
o outro bicho (deixa, deixa)
e toda esta parafernália
a parecer truque enquanto
obsidiante você mente
embora acreditando nas mentiras
e eu use os piores estratagemas
para cobrir-me a retirada
desse vicioso campo de batalha.

Olga Savary

Double Ballad of Life and Death (fragmento)

Fools may pine, and sots may swill,
Cynics gibe, and prophets rail,
Moralists may scourge and drill,
Preachers prose, and fainthearts quail.
Let them whine, or threat, or wail!
Till the touch of Circumstance
Down to darkness sink the scale,
Fait’s a fiddler, Life’s a dance.

What if skies be wan and chill?
What if winds be harsh and stale?
Presently the east will thrill,
And the sad and shrunken sail
Bellying with a kindly gale,
Bear you sunwards, while your chance
Sends you back the hopeful hail: -
‘Fate’s a fiddler, Life’s a dance.’

Idle shot or coming bill,
Hapless love or broken bail,
Gulp it (never chew your pill!)
And if Burgundy should fail,
Try the humbler pot of ail!
Over all is heaven’s expanse.
Gold’s to find among the shale,
Fate’s a fiddler, Life’s a dance.

William Earnst Henley

Fuga em azul menor

O meu rosto de terra

ficará aqui mesmo

no mar ou no horizonte.

Ficará defronte

à casa onde morei.

Mas o meu rosto azul,

O meu rosto de viagem,

esse, irá pra onde irei.



Todo o mundo físico

que gorjeia lá fora

não me procure agora.

Embarquei numa nuvem

por um vão de janela

dos meus cinco sentidos.

E que adianta a alegria

dizer que estou presente

com o meu rosto de terra

se não estou em casa?



Inútil insistência.

Cortei em mim a cauda

das formas e das cores.

(A abstração é uma forma

de se inventar a ausência)

e estou longe de mim

nesta viagem abstrata

sem horizonte e fim.



Um dia voltarei

qual pássaro marítimo,

numa tarde bem mansa

à hora do sol posto.

Então, loura criança,

Ouvirás o meu ritmo

e me perguntarás:

quem és tu, pobre ser?

Mas, eu vim de tão longe

e tão azul de rosto

que não me podes ver.



A graça de quem mora

no país da ausência

certo consiste nisto:

ficar azul de rosto

pra não poder ser visto.


Cassiano Ricardo

Falar do trigo e não dizer o joio

Falar do trigo e não dizer o joio.
Percorrer em vôo raso os campos
sem pousar os pés no chão.
Abrir um fruto
e sentir no ar o cheiro a alfazema.
Pequenas coisas, dirás,
que nada significam
perante esta outra, maior:
dizer o indizível.
Ou esta:
entrar sem bússola na floresta
e não perder o rumo.
Ou essa outra,
maior que todas
e cujo nome por precaução omites.
Que é preciso, às vezes,
não acordar o silêncio.

Albano Martins

Aos Deuses sem Fiéis

Talvez a hora escura, a chuva lenta,

Ou esta solidão inconformada.

Talvez porque a vontade se recolha

Neste findar de tarde sem remédio.


Finjo no chão as marcas dos joelhos

E desenho o meu vulto em penitente.

Aos deuses sem fiéis invoco e rezo,

E pergunto a que venho e o que sou.


Ouvem-me calados os deuses e prudentes,

Sem um gesto de paz ou de recusa.

Entre as mãos vagarosas vão passando

A joeira do tempo irrecusável.


Um sorriso, por fim, passa furtivo

Nos seus rostos de fumo e de poeira.

Entre os lábios ressecos brilham dentes

De rilhar carne humana desgastados.


Nada mais que o sorriso retribui

O corpo ajoelhado em que não estou.

Anoitece de todo, os deuses mordem,

Com seus dentes de névoa e de bolor,

A resposta que aos lábios não chegou.


José Saramago

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem,dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

Antonio Gedeão

Iluminado

Ando em busca
do ponto de equilíbrio
entre o aqui
e o agora

Perco os limites
do tempo
sigo lenta.

Pensando como quem dorme
falando
como quem sonha
amando
como quem pode.

Vejo a vida
de olhos claros
translúcidos
coloridos
como vinho
iluminado.

Anna Maria Feitosa

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro; nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Tears, idle tears

Tears, idle tears, I know not what they mean,
Tears from the depth of some divine despair
Rise in the heart, and gather to the eyes,
In looking on the happy Autumn-fields,
And thinking of the days that are no more.

Fresh as the first beam glittering on a sail,
That brings our friends up from the underworld,
Sad as the last which reddens over one
That sinks with all we love below the verge;
So sad, so fresh, the days that are no more.

Ah, sad and strange as in dark summer dawns
The earliest pipe of half-awakened birds
To dying ears, when unto dying eyes
The casement slowly grows a glimmering square;
So sad, so strange, the days that are no more.

Dear as remembered kisses after death,
And sweet as those by hopeless fancy feigned
On lips that are for others; deep as love,
Deep as first love, and wild with all regret;
O Death in Life, the days that are no more.

Lord Alfred Tennyson

Os Abandonados

Não somente o mar, não só costa, espuma,
pássaros de insubmisso poderio,
não só aqueles e estes grandes olhos,
não só a noite em luto com os seus planetas,
não só as árvores com sua alta mansidão,
mas sim a dor, a dor que é o pão do homem.

Mas, por quê? Então naquele tempo eu era
fino feito um fio e bem mais escuro
do que um peixe de águas noturnas, e não pude,
não pude mais, de um golpe quis mudar o mundo.

Pareceu-me estar mordendo a erva mais amarga,
compartir um silêncio manchado de crime.

Mas é na solidão que nascem e morrem coisas,
a razão cresce e cresce até ser desvario,
a pétala se estende sem chegar à rosa,
a solidão é o pó inútil do mundo,
a roda que dá voltas sem terra, nem água, nem homem.

E eu, assim foi como gritei perdido
e que se fez grito sem freio na infância?
Quem ouviu? Que boca respondeu? Que caminhos tomei?
Que responderam
os muros quando batidos por minha cabeça?

Levanta e volta a voz do débil solitário,
gira e gira a roda atroz das desditas,
subiu e voltou aquele grito, e não soube ninguém,
não o souberam nem mesmo os abandonados.

Pablo Neruda (Tradução de José Eduardo Degrazia)