Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!
Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafísica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...
Álvaro de Campos
Esta gente
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Círculo vicioso
Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela
"Mas a lua, fitando o sol com azedume:
"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...
Machado de Assis
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela
"Mas a lua, fitando o sol com azedume:
"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...
Machado de Assis
Frente a frente
Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!
Eugénio de Andrade
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!
Eugénio de Andrade
Amor de Índio
Tudo que move é sagrado
e remove as montanhas
com todo cuidado,
meu amor
enquanto a chama arder
todo dia te ver passar
Tudo viver a seu lado
com o arco da promessa
no azul pintado
prá durar
abelha fazendo o mel
vale o tempo que não voou
a estrela caiu do céu
o pedido que se pensou
o destino que se cumpriu
de sentir teu calor
e ser todo
todo dia é de viver
para ser o que for
e ser tudo
Sim, todo amor é sagrado
e o fruto do trabalho
é mais que sagrado,
meu amor
a massa que faz o pão
vale a luz do teu suor
lembra que o sono é sagrado
e alimenta de horizontes
o tempo acordado de viver
No inverno te proteger
no verão sair prá pescar
no outono te conhecer
primavera poder gostar
no estio me derreter
prá na chuva dançar
e andar junto
O destino que se cumpriu
de sentir teu calor
e ser tudo
Beto Guedes
e remove as montanhas
com todo cuidado,
meu amor
enquanto a chama arder
todo dia te ver passar
Tudo viver a seu lado
com o arco da promessa
no azul pintado
prá durar
abelha fazendo o mel
vale o tempo que não voou
a estrela caiu do céu
o pedido que se pensou
o destino que se cumpriu
de sentir teu calor
e ser todo
todo dia é de viver
para ser o que for
e ser tudo
Sim, todo amor é sagrado
e o fruto do trabalho
é mais que sagrado,
meu amor
a massa que faz o pão
vale a luz do teu suor
lembra que o sono é sagrado
e alimenta de horizontes
o tempo acordado de viver
No inverno te proteger
no verão sair prá pescar
no outono te conhecer
primavera poder gostar
no estio me derreter
prá na chuva dançar
e andar junto
O destino que se cumpriu
de sentir teu calor
e ser tudo
Beto Guedes
Satélite
Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.
Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia
Não é agora o golfão de Cismas,
O astro dos loucos e enamorados,
Mas tão-somente
Satélite.
Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas;
Sem show para as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite
Manuel Bandeira
No céu plúmbeo
A lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.
Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia
Não é agora o golfão de Cismas,
O astro dos loucos e enamorados,
Mas tão-somente
Satélite.
Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas;
Sem show para as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite
Manuel Bandeira
O Amor não é o que a maior parte julga
o amor não é de modo nenhum uma receita veloz
com um pouco de água
cenouras
batatas e cebolas
não se fazem manjares.
dão-se algumas cambalhotas
dentro do calor
e fica-se ferido
por não se usar fato de treino
à prova de queimadura
também
não é uma sopa instantânea
nem tão pouco caseira.
exige traje a rigor
bordado a pontos de travesseiro
e o céu com algumas estrelas antes nunca vistas
ao luar
é absolutamente indispensável
ter uma cozinha no universo
e olhar de vez em quando com ternura a terra
deve-se estar primorosamente preparado para chorar
quando se descascam as cebolas
observar com rigor cada lágrima
vertê-la para dentro de uma caixinha
e colocá-la de novo no mar
chuva entre os intervalos da cozedura
é indispensável para lavar a amargura,
algum sol
para a secar
para que a receita se possa tornar um manjar
um pouco de mel
para que o produto final
possa ser assinado não por um homem e uma mulher
mas por duas abelhas
não esquecer
uma sinfonia durante o tempo de permeio
fogo
muito fogo
primeiro forte
depois suave
cultivando sempre e com rigor a devoção alheia
de um ingrediente a outro
devem observar-se as nuvens
a temperatura ambiente
fazer pousio
só depois recomeçar
o movimento
de novo
à semelhança da nostalgia das dunas
reparar ainda se há depósito de lodo.
deve haver.
para que mais tarde possa nascer
da invisibilidade da água
a maravilhosa
flor
o amor não é o que a maior parte julga
Mariah (o mar atinge-nos Blogspot)
com um pouco de água
cenouras
batatas e cebolas
não se fazem manjares.
dão-se algumas cambalhotas
dentro do calor
e fica-se ferido
por não se usar fato de treino
à prova de queimadura
também
não é uma sopa instantânea
nem tão pouco caseira.
exige traje a rigor
bordado a pontos de travesseiro
e o céu com algumas estrelas antes nunca vistas
ao luar
é absolutamente indispensável
ter uma cozinha no universo
e olhar de vez em quando com ternura a terra
deve-se estar primorosamente preparado para chorar
quando se descascam as cebolas
observar com rigor cada lágrima
vertê-la para dentro de uma caixinha
e colocá-la de novo no mar
chuva entre os intervalos da cozedura
é indispensável para lavar a amargura,
algum sol
para a secar
para que a receita se possa tornar um manjar
um pouco de mel
para que o produto final
possa ser assinado não por um homem e uma mulher
mas por duas abelhas
não esquecer
uma sinfonia durante o tempo de permeio
fogo
muito fogo
primeiro forte
depois suave
cultivando sempre e com rigor a devoção alheia
de um ingrediente a outro
devem observar-se as nuvens
a temperatura ambiente
fazer pousio
só depois recomeçar
o movimento
de novo
à semelhança da nostalgia das dunas
reparar ainda se há depósito de lodo.
deve haver.
para que mais tarde possa nascer
da invisibilidade da água
a maravilhosa
flor
o amor não é o que a maior parte julga
Mariah (o mar atinge-nos Blogspot)
Blowin' in the wind
How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
Yes, ‘n’ how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, ‘n’ how many times must the cannon balls fly
Before they’re forever banned?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, ‘n’ how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, ‘n’ how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
How many years can a mountain exist
Before it’s washed to the sea?
Yes, ‘n’ how many years can some people exist
Before they’re allowed to be free?
Yes, ‘n’ how many times can a man turn his head
Pretending he just doesn’t see?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
Bob Dylan
…………
Before you call him a man?
Yes, ‘n’ how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, ‘n’ how many times must the cannon balls fly
Before they’re forever banned?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, ‘n’ how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, ‘n’ how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
How many years can a mountain exist
Before it’s washed to the sea?
Yes, ‘n’ how many years can some people exist
Before they’re allowed to be free?
Yes, ‘n’ how many times can a man turn his head
Pretending he just doesn’t see?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
Bob Dylan
…………
Amor, felicidade
Infeliz de quem passa pelo mundo
procurando no amor felicidade!
A mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.
Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a jóia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade...
Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz não diz,
percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!
Guilherme de Almeida
procurando no amor felicidade!
A mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.
Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a jóia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade...
Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz não diz,
percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!
Guilherme de Almeida
Anjos do mar
As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d’escuma revolvem-se nus!
E quando, de noite, vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear...
E a trança luzente da nuvem flutua...
As ondas são anjos que dormem no mar!
Que dormem, que sonham... e o vento dos céus
Vem tépido, à noite, nos seios beijar!...
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!
E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar...
São beijos que queimam... e as noites deliram
E os pobres anjinhos estão a chorar!
Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar...
Por que não consentes, num beijo de amor,
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?
Álvares de Azevedo
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d’escuma revolvem-se nus!
E quando, de noite, vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear...
E a trança luzente da nuvem flutua...
As ondas são anjos que dormem no mar!
Que dormem, que sonham... e o vento dos céus
Vem tépido, à noite, nos seios beijar!...
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!
E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar...
São beijos que queimam... e as noites deliram
E os pobres anjinhos estão a chorar!
Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar...
Por que não consentes, num beijo de amor,
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?
Álvares de Azevedo
Sê lanterna
Sê lanterna, dá luz com vidro à roda.
Da luz o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis – Odes)
Da luz o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis – Odes)
Libação
É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura
a ploriferação
os cromossomiais encontros,
os brotos os processos caules,
os processos sementes
os processos troncos,
os processos flores,
são suas mais finas dores
As conseqüências cachos,
as conseqüências leite,
as conseqüências folhas
as conseqüências frutos,
são suas cores mais belas
É da substância do átomo
ser partível produtivo ativo e gerador
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza
É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la
com nossos minúsculos gestos ratos
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la,
cheio que é o seu princípio
Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido
do estado potencial de futuro
Peço ao ano-novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra
da vaidade "minha" desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar
nos amesquinha.
A vida não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!
Elisa Lucinda
É da sua natureza a fartura
a ploriferação
os cromossomiais encontros,
os brotos os processos caules,
os processos sementes
os processos troncos,
os processos flores,
são suas mais finas dores
As conseqüências cachos,
as conseqüências leite,
as conseqüências folhas
as conseqüências frutos,
são suas cores mais belas
É da substância do átomo
ser partível produtivo ativo e gerador
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza
É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la
com nossos minúsculos gestos ratos
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la,
cheio que é o seu princípio
Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido
do estado potencial de futuro
Peço ao ano-novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra
da vaidade "minha" desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar
nos amesquinha.
A vida não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!
Elisa Lucinda
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso,
muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher;
pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
e ser de sua dama por inteiro - seja lá como for.
Há que fazer do corpo uma morada
onde clausure-se a mulher amada
e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo,
é preciso atenção como o "velho amigo",
que porque só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor.
É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado,
pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um grande amor, na realidade,
há que compenetrar-se da verdade
de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande amor.
Pois quem trai seu amor por vanidade
é um desconhecedor da liberdade,
dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel,
ser bem conhecedor de arte culinária e de judô - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito,
não basta ser apenas bom sujeito;
é preciso também ter muito peito - peito de remador.
É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada
e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista
um crédito de rosas no florista - muito mais, muito mais que na modista! -
para aprazer ao grande amor.
Pois do que o grande amor quer saber mesmo,
é de amor, é de amor, de amor a esmo;
depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas:
ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs - comidinhas para depois do amor.
E o que há de melhor que ir pra cozinha
e preparar com amor uma galinha
com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto
e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de dor.
É preciso um cuidado permanente
não só com o corpo mas também com a mente,
pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor.
Há que ser bem cortês sem cortesia;
doce e conciliador sem covardia;
saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque
(com o mau bebedor nunca se arrisque!)
e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada,
se nesta selva escura e desvairada
não se souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.
Vinicius de Moraes
muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher;
pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
e ser de sua dama por inteiro - seja lá como for.
Há que fazer do corpo uma morada
onde clausure-se a mulher amada
e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo,
é preciso atenção como o "velho amigo",
que porque só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor.
É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado,
pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um grande amor, na realidade,
há que compenetrar-se da verdade
de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande amor.
Pois quem trai seu amor por vanidade
é um desconhecedor da liberdade,
dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel,
ser bem conhecedor de arte culinária e de judô - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito,
não basta ser apenas bom sujeito;
é preciso também ter muito peito - peito de remador.
É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada
e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista
um crédito de rosas no florista - muito mais, muito mais que na modista! -
para aprazer ao grande amor.
Pois do que o grande amor quer saber mesmo,
é de amor, é de amor, de amor a esmo;
depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas:
ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs - comidinhas para depois do amor.
E o que há de melhor que ir pra cozinha
e preparar com amor uma galinha
com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto
e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de dor.
É preciso um cuidado permanente
não só com o corpo mas também com a mente,
pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor.
Há que ser bem cortês sem cortesia;
doce e conciliador sem covardia;
saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque
(com o mau bebedor nunca se arrisque!)
e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada,
se nesta selva escura e desvairada
não se souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.
Vinicius de Moraes
Cântico XVII
Perguntarão pela tua alma.
A alma que é ternura,
bondade,
tristeza,
amor.
Mas tu mostrarás a curva do teu vôo
livre, por entre os mundos...
E eles compreenderão que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
e mais amargo,
porque não se pode mostrar,
por que não se pode ver.
Cecília Meireles
A alma que é ternura,
bondade,
tristeza,
amor.
Mas tu mostrarás a curva do teu vôo
livre, por entre os mundos...
E eles compreenderão que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
e mais amargo,
porque não se pode mostrar,
por que não se pode ver.
Cecília Meireles
O Pingüim
Bom-dia, Pingüim
Onde vai assim
Com ar apressado?
Eu não sou malvado
Não fique assustado
Com medo de mim.
Eu só gostaria
De dar um tapinha
No seu chapéu-jaca
Ou bem de levinho
Puxar o rabinho
Da sua casaca.
Vinicius de Moraes
Onde vai assim
Com ar apressado?
Eu não sou malvado
Não fique assustado
Com medo de mim.
Eu só gostaria
De dar um tapinha
No seu chapéu-jaca
Ou bem de levinho
Puxar o rabinho
Da sua casaca.
Vinicius de Moraes
Poema da devastação
Há uma devastação
nas coisas e nos seres,
como se algum vulcão
abrisse as sobrancelhas
e ali, sobre esse chão,
pousassem as inteiras
angústias, solidões,
passados desesperos
e toda a condição
de homem sem soleira,
ventura tão curta,
punição extrema.
Há uma devastação
nas águas e nos seres;
os peixes, com seus viços,
revolvem-se no umbigo
deste vulcão de escamas.
Há uma devastação
nas plantas e nos seres;
o homem recurvado
com a pálpebra nos joelhos.
As lavas soprarão,
enquanto nós vivermos.
Carlos Nejar
nas coisas e nos seres,
como se algum vulcão
abrisse as sobrancelhas
e ali, sobre esse chão,
pousassem as inteiras
angústias, solidões,
passados desesperos
e toda a condição
de homem sem soleira,
ventura tão curta,
punição extrema.
Há uma devastação
nas águas e nos seres;
os peixes, com seus viços,
revolvem-se no umbigo
deste vulcão de escamas.
Há uma devastação
nas plantas e nos seres;
o homem recurvado
com a pálpebra nos joelhos.
As lavas soprarão,
enquanto nós vivermos.
Carlos Nejar
Sei bem que não mereço o céu
Sei bem que não mereço o céu,
nem a minha casa é a Terra.
Escrevo, todavia, em fios de Sol
o lar das aves
com seus inúmeros degraus de ar
que me comovem.
Sei bem que é
para encontrar o peso exacto
da ave que me eleva,
vôo que resiste ao corpo da palavra.
Maat (A Luz do Poema – Blog)
nem a minha casa é a Terra.
Escrevo, todavia, em fios de Sol
o lar das aves
com seus inúmeros degraus de ar
que me comovem.
Sei bem que é
para encontrar o peso exacto
da ave que me eleva,
vôo que resiste ao corpo da palavra.
Maat (A Luz do Poema – Blog)
Não me importo com as rimas (XIV)
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra,
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento…
Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra,
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento…
Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos
Retrato de Maria Lúcia
Tu vens de longe; a pedra
Suavizou seu tempo
Para entalhar-te o rosto
Ensimesmado e lento
Teu rosto como um templo
Voltado para o oriente
Remoto como o nunca
Eterno como o sempre
E que subitamente
Se aclara e movimenta
Como se a chuva e o vento
Cedessem seu momento
À pura claridade
Do sol do amor intenso!
Vinicius de Moraes
..........................
Suavizou seu tempo
Para entalhar-te o rosto
Ensimesmado e lento
Teu rosto como um templo
Voltado para o oriente
Remoto como o nunca
Eterno como o sempre
E que subitamente
Se aclara e movimenta
Como se a chuva e o vento
Cedessem seu momento
À pura claridade
Do sol do amor intenso!
Vinicius de Moraes
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Eye in the sky
Don't think sorry's easily said
Don't try turning tables instead
You've taken lots of chances before
But I'm not gonna give anymore
Don't ask me
That's how it goes
Cause part of me knows what you're thinkin
Don't say words you're gonna regret
Don't let the fire rush to your head
I've heard the accusation before
And I ain't gonna take any more
Believe me
The sun in your eyes
Made some of the lies worth believing
Chorus:
I am the eye in the sky
Looking at you
I can read your mind
I am the maker of rules
Dealing with fools
I can cheat you blind
And I don't need to see any more
To know that
I can read your mind, I can read your mind
Don't leave false illusions behind
Don't cry cause I ain't changing my mind
So find another fool like before
Cause I ain't gonna live anymore believing
Some of the lies while all of the signs are deceiving
Alan Parson’s Project
Don't try turning tables instead
You've taken lots of chances before
But I'm not gonna give anymore
Don't ask me
That's how it goes
Cause part of me knows what you're thinkin
Don't say words you're gonna regret
Don't let the fire rush to your head
I've heard the accusation before
And I ain't gonna take any more
Believe me
The sun in your eyes
Made some of the lies worth believing
Chorus:
I am the eye in the sky
Looking at you
I can read your mind
I am the maker of rules
Dealing with fools
I can cheat you blind
And I don't need to see any more
To know that
I can read your mind, I can read your mind
Don't leave false illusions behind
Don't cry cause I ain't changing my mind
So find another fool like before
Cause I ain't gonna live anymore believing
Some of the lies while all of the signs are deceiving
Alan Parson’s Project
Charme
apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
Paulo Leminski
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
Paulo Leminski
Bebido o luar
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
Sophia de Mello Breyner Andresen
E há poetas
E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!…
Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso,
Como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!…
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem
E é sempre a mesma.
Penso nisto, não como quem pensa,
Mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio…
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.
Alberto Caeiro – O Guardador de Rebanhos
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!…
Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso,
Como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!…
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem
E é sempre a mesma.
Penso nisto, não como quem pensa,
Mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio…
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.
Alberto Caeiro – O Guardador de Rebanhos
Deixa-me amar-te
Deixa-me amar-te com ternura, tanto
Que nossas solidões se unam
E cada um falando em sua margem
Possa escutar o próprio canto.
Deixa-me amar-te com loucura, ambos
Cavalgando mares impossíveis
Em frágeis barcos e insuficientes velas
Pois disso se fará a nossa voz.
Deixa-me amar-te sem receio, pois
A solidão é um campo muito vasto
Que não se deve atravessar a sós.
Lya Luft
Que nossas solidões se unam
E cada um falando em sua margem
Possa escutar o próprio canto.
Deixa-me amar-te com loucura, ambos
Cavalgando mares impossíveis
Em frágeis barcos e insuficientes velas
Pois disso se fará a nossa voz.
Deixa-me amar-te sem receio, pois
A solidão é um campo muito vasto
Que não se deve atravessar a sós.
Lya Luft
Song
GO and catch a falling star,
Get with child a mandrake root,
Tell me where all past years are,
Or who cleft the devil's foot,
Teach me to hear mermaids singing,
Or to keep off envy's stinging,
And find
What wind
Serves to advance an honest mind.
If thou be'st born to strange sights,
Things invisible to see,
Ride ten thousand days and nights,
Till age snow white hairs on thee,
Thou, when thou return'st, wilt tell me,
All strange wonders that befell thee,
And swear,
No where
Lives a woman true and fair.
If thou find'st one, let me know,
Such a pilgrimage were sweet;
Yet do not, I would not go,
Though at next door we might meet,
Though she were true, when you met her,
And last, till you write your letter,
Yet she
Will be
False, ere I come, to two, or three.
John Donne
Get with child a mandrake root,
Tell me where all past years are,
Or who cleft the devil's foot,
Teach me to hear mermaids singing,
Or to keep off envy's stinging,
And find
What wind
Serves to advance an honest mind.
If thou be'st born to strange sights,
Things invisible to see,
Ride ten thousand days and nights,
Till age snow white hairs on thee,
Thou, when thou return'st, wilt tell me,
All strange wonders that befell thee,
And swear,
No where
Lives a woman true and fair.
If thou find'st one, let me know,
Such a pilgrimage were sweet;
Yet do not, I would not go,
Though at next door we might meet,
Though she were true, when you met her,
And last, till you write your letter,
Yet she
Will be
False, ere I come, to two, or three.
John Donne
A cilada
O perfume, o silêncio, a sombra... Os ninhos
Emudecem... E temos, sonhadores,
A humildade das ervas nos caminhos
E uma inocência de anjos entre as flores.
Mas há na tarde morna ignotos vinhos,
Secretos filtros, pérfidos vapores,
Amavios, feitiços e carinhos
Moles, quebrados e perturbadores...
E, de repente, o incêndio dos sentidos:
As mãos frias tateando na ansiedade,
As bocas que se buscam num queixume,
E o corpo, o sangue, o espírito, perdidos,
E a febre, e os beijos... e a cumplicidade
Da sombra, no silêncio, do perfume...
Olavo Bilac
Emudecem... E temos, sonhadores,
A humildade das ervas nos caminhos
E uma inocência de anjos entre as flores.
Mas há na tarde morna ignotos vinhos,
Secretos filtros, pérfidos vapores,
Amavios, feitiços e carinhos
Moles, quebrados e perturbadores...
E, de repente, o incêndio dos sentidos:
As mãos frias tateando na ansiedade,
As bocas que se buscam num queixume,
E o corpo, o sangue, o espírito, perdidos,
E a febre, e os beijos... e a cumplicidade
Da sombra, no silêncio, do perfume...
Olavo Bilac
Canção Mínima
No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.
Cecília Meireles
equilibra-se um planeta.
E, no planeta um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.
Cecília Meireles
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